É impossível não pensar noutras geografias mais distantes. Guardadas as proporções, a imagem da retroescavadora faz lembrar as demolições de casas palestinianas na Cisjordânia. De um momento para o outro, famílias atiradas para a rua, sem alternativa, sem dignidade.
O bairro do Talude é de génese ilegal, sim. Foi construído nos anos 80 por imigrantes, em maioria vindos de países africanos de língua portuguesa. Pessoas que vivem há décadas em Portugal, que trabalham, que pagam impostos, que criaram os filhos naquele lugar. Que contribuíram, e continuam a contribuir, para esta sociedade. Mas que nunca conseguiram sair da pobreza, condenadas a ser sempre os últimos na fila.
A decisão da autarquia em demolir todo o bairro, sem garantir alternativas dignas, é mais do que uma medida administrativa. É um ato de abandono social. Um despejo coletivo. Uma espécie de limpeza social que empurra estas pessoas para outro canto qualquer, até voltarem a ser incómodas outra vez.


Porque é isso que vai acontecer: novas barracas noutro lado, novo bairro “ilegal”, novo ciclo de marginalização. Nada se resolve com esta política de demolição sem inclusão. O que está a ser feito no Talude não é combater um problema, é varrer o lixo para debaixo do tapete.
CINISMO ELEITORAL
Não se combate a pobreza com retroescavadoras, deixando centenas de famílias sem teto. Combate-se com políticas públicas sérias de habitação, integração, dignidade. Estamos a falar de cidadãos de pleno direito. Não são um estorvo urbanístico.
O mais perturbador é que esta decisão é tomada por um autarca do Partido Socialista, um partido que, em teoria, deveria proteger os mais vulneráveis. Mas estamos a poucos meses das eleições autárquicas, e tudo indica que este gesto não é apenas administrativo. É também um trunfo político. Uma forma de mostrar “mão firme”, de agradar a certos setores do eleitorado, mesmo que à custa da dignidade alheia.
É ainda mais triste que isto aconteça em Loures, município onde nasceu para a política o atual líder da extrema-direita, André Ventura. Foi aqui que, ainda eleito pelo PSD, começou a construir o discurso populista com que mais tarde fundaria o Chega. Agora, parece que os métodos e as prioridades desse discurso estão a contaminar o PS local.
Despejar pessoas pobres para ganhar votos é vergonhoso. Copiar os modos da extrema-direita é uma traição aos princípios da esquerda democrática. O que está a ser feito no Talude não é política pública, é puro cinismo eleitoral.



