O CASTELO DE PENEDONO

A poética dos despojos

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Do Castelo de Penedono ancorado nesse promontório rochoso de onde se vigia, como se mar fosse, a interminável paisagem de vale e serra, ninguém sabe dos começos, do desenho, dos panos de muros inicialmente levantados, das pelejas acontecidas nos ermos territórios ao redor.

A primeira notícia sólida colhe-se no Testamento da poderosa D. Chamôa (ou Flâmula) Rodrigues que, recolhendo-se no ano de 960 ao Mosteiro de Guimarães, confia o castelo de Pena de Dono, actual Penedono, com outros vizinhos castelos – Trancoso, Sernancelhe, outros ainda – a sua tia, a Condessa Mumadona, que legará mais tarde todos os seus bens ao Mosteiro que fundara.

Situado numa Extremadura de continuadas arremetidas de cristãos e mouros, vem a cair sob domínio muçulmano, por ocasião da passagem de Almançor para Compostela, em 997, voltando novamente à posse de cristãos, aquando da “Campanha da Beira” empreendida por Fernando I de Leão, entre 1055 e 1064.

Arruinado numa antiga feição que desconhecemos, sofrerá reparo, quando D. Sancho I outorga foral ao concelho em 1195, empreendendo, então, o repovoamento de um ermo território.

Mas será a partir de finais do século XIV, quando a nobilitada família dos Coutinhos recebe, por mercê d’ El-Rei D. Fernando, estes domínios, que o castelo ganhará a feição que hoje apresenta, adquirindo, já em fins do século XV, inícios do XVI, a qualidade acrescentada de residência senhorial dos membros desta importante família terratenente, possuidora de numerosas terras, onde se incluía Lamego, com largas casas de morada, Sernancelhe, Penedono, Trancoso e algumas mais.

Não repugna que Álvaro Gonçalves Coutinho, o célebre “Magriço” que a lenda aureolou, tenha nascido no Castelo de Penedono, dado que seu pai, Gonçalo Vasques Coutinho, Marechal e Fronteiro da Beira, bastas vezes teria de estanciar por terras do seu domínio.

Será, todavia, seu irmão, o primogénito Vasco Fernandes, 1.º Conde de Marialva, quem herdará o título de alcaide, que passará a outros membros da família, cuja linhagem estranhamente se extingue antes dos meados do século XVI, após a morte de D. Guiomar Coutinho, que não deixa geração.

Pacificadas as fronteiras, alteradas as técnicas de guerra, o altaneiro castelo depressa sofre ruína: estremecem as pedras de seus muros de pedra miúda; o telhado desaba sobre o tabuado do chão de castanho do piso residencial onde só as janelas permanecem escancaradas; vazias de gente as pedras que a gente chama de namoradeiras; fendas abertas despejam a água da cisterna; desaparecem as traves que o gentio terá levado para habitação; e desolador se torna o retrato do castelo feito pelo cura que escreveu as “Memórias Paroquiais” em 1758.

Declarado Monumento Nacional em 1910, restaurado entre os anos 40 e 53 do século XX, pela Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais – ei-lo, sublime, eterna pátria do mítico Magriço, trágico e sedutor, dourado dos líquenes, dourado de nossas poéticas memórias.

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