NA LIBERTÁRIA ÂNSIA DE IMAGINAR

De espantar, quiçá, a ver uma revista com o estranho o nome de Egoísta, propriedade de uma concessionária de casinos, dedicar um dos seus números aos dramas amorosos de Camilo Castelo Branco: «Ana e Camilo». Mas é verdade.

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Em intervenções da responsabilidade de nomes da Literatura e da Arte portuguesas, foi este, de facto, o tema do número de Natal, porque os amores de Camilo, embora despidos de qualquer auréola espiritual, podem ajudar na reflexão sobre o sentido último do amor verdadeiro, amor-doação, de que o Natal é mensagem.

Metade deste nº 78 (dezembro de 2025) da Egoísta – 60 páginas em 120 – é ocupada pela reprodução de quadros abstratos, da autoria de Ana Vidigal, «Desenhos do cinismo e da melancolia», entremeados de frases lapidares de Camilo.

capa do nº 78 (dezembro de 2025) da Egoísta
desenho de Ana Vidigal

Recordar-se-á «A herança de lágrimas de Camilo Castelo Branco», de Inês Pedrosa. Achar-se-á singular a policromada prosa de Ana Plácido, onde o branco acentua frases lapidares. Considerar-se-á oportuna a análise de Camilo à luz da neurociência do amor, feita por Luísa V. Lopes, neurocientista. Apreciar-se-á deveras a feliz ideia de Nuno Nunes-Ferreira de mostrar 40 capas de outras tantas edições do romance Amor de Perdição, a quase totalidade em português, duas em espanhol, uma em francês e uma inglesa.

É natural, portanto, que, depois de apreciado o volume, se volte a ler o editorial do seu diretor, Mário Assis Ferreira, que, no ano 2000, com Patrícia Reis e Henrique Cayatte, ousou meter mãos a esta publicação bilingue, obstinados em erguer uma Obra que, escreveu Assis Ferreira, «se impôs pelas virtualidades do seu mérito e deixou – ouso dizê-lo – uma marca indelével na História da imprensa portuguesa.

Mário Assis Ferreira, que deu ao seu editorial o título de «É tempo de recordar», despede-se, no final, “Até sempre!”. não sem, antes, garantir que «a Egoísta não abdica de si própria: ingente na libertária ânsia de imaginar, pujante no festivo devaneio da arte de recriar».

Uma “libertinagem” – poderia acrescentar-se –de que são penhor a mais de uma centena de prémios granjeados.

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