MONTENEGRO E O FILHO DO PADEIRO

De repente, ao ver as notícias, lembrei-me de uma anedota bem antiga: o filho do padeiro (num outro tempo) foi jurar bandeira e o pai compareceu à cerimónia, obviamente fora e distante da terrinha natal. No regresso à aldeia perguntaram-lhe como tinha sido, ao que ele respondeu: ‘Foi maravilhoso. Todos marcharam para a esquerda e o meu filho para a direita. Era o único que estava bem’. Montenegro, primeiro-ministro deste País, parece o padeiro: continua firme na sua reforma laboral.

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Colagem fotográfica, imagem descritiva

O que importa que haja uma greve geral, marcada para dia 11? O que importa que as duas centrais sindicais estejam de acordo entre si? O que importa que os representantes das micro, pequenas e médias empresas estejam contra, com empresários a fazerem greve? O que importa que até anteriores ministros do Trabalho do seu partido sejam contra? O que importa que todos estejam contra o pacote laboral? Montenegro quer seguir em frente com a dita reforma. Marcha sozinho e quer que o aplaudam.

Mas, depois, quer fazer um jogo diferente do do padeiro, porque este, pelo menos, contou a verdade: o filho marchou sozinho. Montenegro quer que os portugueses acreditem e se distraiam com o seu aumento dos objetivos salariais para o País, falando agora em 1600 euros de salário mínimo e 3000 euros de médio. Fê-lo um dia depois de mencionar valores inferiores. E não se percebe quem quer enganar.

‘Nós não queremos crescer 2% ao ano. Queremos crescer 3%, 3,5%, 4%. Nós queremos que o salário mínimo não chegue aos 1100 euros. Esse é o objetivo que temos para esta legislatura, mas nós queremos mais. Que chegue aos 1500 ou aos 1600’.

Não sei onde Montenegro vai buscar aquele crescimento, dada a conjuntura do País e a mundial.

E penso logo nas rendas de casa que ele vai encontrar pelo valor ‘moderado’ de 2300 euros.

Pergunto-me em que País vive Montenegro, em que realidade paralela? E irá aumentar os reformados na mesma medida? Aqueles que recebem hoje 400 euros vão passar a receber 1000? Ou os que recebem 1500 vão receber 3000? Porque, verdadeiramente, foram estes que construíram o País que Montenegro quer continuar a destruir, numa marchar isolada, indiferente à realidade.

Mais de 400 camas desapareceram dos cuidados continuados dos hospitais e as urgências continuam a fechar e as crianças continuam a nascer na rua, nas ambulâncias, etc. ‘Não há verba’, justifica o Governo.

Há mais de 2,5 milhões de trabalhadores que têm um salário base bruto mensal inferior a 1000€, uma em cada cinco crianças é pobre porque os rendimentos dos pais não são suficientes, 1,3 milhões de trabalhadores têm um vínculo precário ou 1,9 milhões de trabalhadores laboram aos sábados, domingos ou feriados e à noite. Falta-lhes tempo para a família e os amigos, não têm qualidade de vida.

Então, tornem-se todos os trabalhadores mais precários, fragilize-se mais a esta classe, para que aumentem os números acima descritos. Mas, atenção, retire-se-lhes ainda o direito à greve. Ou vida!

Montenegro promete que ‘daqui a um ano’ as suas promessas ‘vão fazer ainda mais sentido’. Talvez façam para os grandes empresários e as grandes fortunas, como disse o representante das micro, pequenas e médias empresas. Os outros, os mais pobres, os das reformas mais baixas, os que não conseguem comprar medicamentos ou ter acesso a cuidados continuados, talvez já tenham morrido e as crianças continuarão a nascer fora das maternidades e dos hospitais, poupando sempre dinheiro a um Estado que é só do Governo de Montenegro. Porque já nem é dos que nele votaram: até o antigo líder do CDS-PP, José Ribeiro e Castro assumiu estar ‘embaraçado’ por ter votado na AD nas últimas eleições legislativas. ‘Antes podia refugiar-me na ideia de que não tenho culpa, não votei PS, mas agora embaraço-me ao dizer aos meus botões: eu tenho culpa, eu votei AD. É um pensamento bastante insuportável’.

Pronto, tudo isto me fez lembrar a velha anedota do filho do padeiro. Na esperança de que se marche com a realidade em que vivemos.

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