Videmonte? Estranho nome este para designar típica aldeia serrana do concelho da Guarda. Houve quem pensasse em ser ‘vide de monte’, a dar conta de secular cultivo da vinha; mas, logo em 1758, o prior P.e José Duarte de Lima, não fala de vinha nenhuma, não explica porque a terra se chama assim e, pelo contrário, afirma, quase em jeito de queixume:
«É muito fria, e em tal grau que os gados vão pastar ao Alentejo pelas muitas neves que nela caem, e algumas vezes duram mais de mês».
Alta é, ainda mais do que a celebrada cidade da Guarda, pois tem a Cabeça Alta, com 1287 metros de altitude. Aliás, já Pinho Leal contou que sete carvalhos seculares bem no alto da serra tinham salvado muitas vidas, «pois durante a estação das neves servem de guia e orientação aos viandantes».
Visitando-a, calcorreando-lhe as ruas e largos, modelados e enquadrados por edifícios e equipamentos típicos de uma velha aldeia rural beirã, seremos agradavelmente surpreendidos pela manutenção de uma toponímia ancestral: a Rua da Serra, a Rua da Fonte, o Largo e a Rua da Igreja, a Rua da Várzea ou a Travessa do Forno.
Agrada-nos sempre sentir a alma e a vida duma aldeia assim repercutida em letreiros que permanecem e nos fazem sonhar tempos de outrora: por ali se ia à serra; por ali, de cântaro à cabeça a moçoila poderia ir até à fonte, não apenas de água sequiosa, mas, coração palpitante, alguém mais por lá era capaz de se fazer esperar…
E se a casa modesta, de traça antiga, fala da tradição, não nos deixam indiferentes as casas grandes do século XIX e dos primeiros anos do século XX, de lavradores abastados, belamente fenestradas e muitas delas dotadas já de portas-janelas e das sacadas correspondentes, quase sempre muito airosas. Uma delas, porém, mais nos chamou a atenção.

Inesperada inscrição em latim
Foi o edifício de arquitetura vernácula de dois pisos, sobriamente fenestrado, que a tradição oral diz revelar fragmentos construtivos da antiga igreja de S. Domingos. Apresenta escadaria exterior, cujo tabuleiro superior, alpendrado, é suportado por um arco de volta perfeita, pelo qual se acede aos baixos da construção.

Junto às escadas de acesso ao alpendre e do lado esquerdo, uma porta possui lintel finamente talhado em granito de grão muito fino, onde – pasme-se!… – se mantém, quase imperceptível, uma inscrição em… latim!

Tem o letreiro caprichosa cercadura ondulante; os caracteres foram cuidadosamente gravados a grosa no granito e não permitem, por isso, aquela sensação de claro-escuro que o corte em bisel faculta, conforme a inclinação dos raios solares, facilitando a leitura. Quiçá também essa a razão por que aparenta ter passado despercebida.

Pasmámos, parámos, fotografámos e lemos:

O começo e o fim da 1ª linha estão assinalados por três pontos na vertical, como era de uso em tempos idos. No final da linha 2, o canteiro, apesar de ter escrito em nexo o A e o E (Æ), já não teve espaço para o M (da palavra saeculorum); cuidou, porém, em não unir os traços nos vértices do M e do N, para que a pedra não lascasse. Anote-se, como sinal de bom gosto – como que para dar um ar da sua graça – o requinte com que gravou o H, de hastes a curvar para fora.
Nenhuma dúvida surgiu quanto ao que o texto queria dizer: «Só a Deus honra e glória pelos séculos dos séculos. Amém!
Frase claramente inspirada no final da Carta de S. Paulo aos Romanos (16, 27): «Soli sapienti Deo, per Jesum Christum, cui honor et gloria in sæcula sæculorum. Amen» (“A Deus, o único que é sábio, seja dada honra e glória, por Jesus Cristo, pelos séculos dos séculos. Amen”), expressão que outras vezes aparece nas cartas do Apóstolo e que, por terminar em «amém», «assim seja!», assume, de facto, a característica de jaculatória, breve oração.
O contexto geral da frase
Aquando da Reforma protestante, no século XVI, a expressão ganhou relevo, por claramente contrapor o mundo espiritual ao mundo material da política e dos negócios em que a Igreja se vira envolvida. Aliás, tornou-se mesmo de certo modo axiomática a lei protestante das ‘Cinco Solas»: Sola scriptura, sola fide, solus Christus, sola gratia, soli Deo gloria – «Uma só Escritura, uma só Fé, um só Cristo, uma só Graça, só a Deus glória».
Ocorre, pois, perguntar: a aposição da frase no prédio teve que ver com essas questões religiosas? Será esta inscrição datável dessa remota era? Crê-se que não, dado que tão antigo também o edifício não é.
Por outro lado – ainda que, numa primeira pesquisa, não se haja encontrado outro testemunho desta ocorrência em território nacional – certo é que, ao longo dos séculos, mas nunca tão completa, se registam exemplos da sua utilização:



Anote-se, ainda, entre muitas outras referências, que Soli Deo gloria foi a palavra de ordem da Irmandade de S. Gregório, uma comunidade cristã de monges da Igreja Episcopal fundada, em 1969, no seio da Igreja Anglicana; e que Johan Sebastian Bach (1685-1750) apunha as siglas S. D. G. no final das partituras das suas composições de índole religiosas e não só; também Georg Friedrich Händel tinha idêntico costume.

E se acrescentarmos os casos de moedas da África do Sul ou da moeda de Saint Gallen, na Suíça, em que as legendas são Soli Deo Gloria; ou, ainda, que foi dado o nome de solidéu ao pequeno chapéu usado pela hierarquia católica (branco para o Papa, vermelho para os cardeais, violáceo para os bispos) e por judeus,ficaremos com uma ideia clara de que a modesta inscrição de Videmonte se inclui numa panóplia de testemunhos internacionais, o que, na verdade, lhe confere um valor histórico e simbólico que, de todo, passara despercebido e agora importa realçar.
Temos, porém, um mistério por resolver: porquê? Por que razão foi esta inscrição postada ali? É simples: não se declarou acima que «a tradição oral diz revelar fragmentos construtivos da antiga igreja de S. Domingos»? Ora aí está: a placa estava na igreja!
(artigo em co-autoria com Carlos Caetano e Dulce Helena Pires Borges)




De: Raquel Henriques da Silva
31 de julho de 2025 19:43
Que crónica maravilhosa.!!!!!
De: maria helena coelho
31 de julho de 2025 16:45
Claro, caro Amigo “coca-bichinhos”.
Tinhas que ver o letreiro da casa e logo descobrires o seu contexto que é deveras interessante!
De: Vitor Oliveira Jorge
31 de julho de 2025 14:29
Bonito artigo! Localidade atraente!
Um abraço do amigo
Vítor
Estes textos deixam-me sempre com água na boca e muitas perguntas por fazer entaladas na garganta, além de serem perfeitos documentos histórico-geográficos onde sempre aprendo.
Em relação ao nome das terras, então, com frequência as desconheço. Este é um deles.
A casa agrada-me pela elegante traça. Seria óptima para estes verões quentes, já que lá em cima, rigorosos só os Invernos.
Intuí que a inscrição fosse aproveitada de algum outro edifício mais antigo, mas não vi a época em que a casa foi construída. E deve haver registos paroquiais, ou memórias de moradores mais velhos, ou ainda, através do nome dos antigos proprietários, saber mais algum dado em Nós Portugueses.
Grata, como sempre, neste caso ao autor e co-autores, pelos momentos em que me foi possível sonhar com mais uma casa. Quem nada tem, pelo sonho tudo pode ter…