A NOZ

Dizia-se serem cascas de noz as caravelas dos Descobrimentos. Homenagem terá sido, essa, a um fruto de efeitos mui salutares.

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Admirava-a. Nunca vira uma árvore tão grande, não em altura, mas em corpo, dir-se-ia. Uma copa enorme.  E eu gostava de a ver carregada. Achava estranho como daquelas bolas verdes, tão redondinhas e lisas, vinham depois a sair nozes de casca castanha, rugosa e rija. Ficava com inveja – era moço pequeno, de 7, 8 anos… – do Ti Silvino Capelas ter uma nogueira assim. Creio que nunca me deu uma noz da sua nogueira gigante. Também eu tinha vergonha de lha pedir.

Hoje, em seu lugar, à entrada de Birre, há um daqueles prontos-a-comer rápidos, com fruta bem diferentes. Fica num baixo, por onde (lembro-me bem!) corria no inverno uma ribeira, que ia dar lá abaixo ao Rio dos Mochos. E, do outro lado da estrada para a Torre, havia a eira dos Calçà-botas…

O Birre saloio d’outrora que inevitavelmente me ocorre, sempre que me lembro de, antes do almoço, ir ao cesto buscar duas ou três nozes. Dizem que faz bem em jeito de aperitivo: “aumenta a proteção cardiovascular, contribui para a melhoria da função cerebral e o controlo do açúcar no sangue”…

Agrada-me procurar o melhor jeito de a partir. Quebra-nozes deste lado. Resiste. Rolo-a devagar, numa voluptuosa carícia quase, qual convite a deixar-se romper, a brindar-me com aquele estalo seco, doloroso. Cede agora à violência do aperto. Há, porém, que apanhar-lhe o jeito para meigamente nos oferecer o saboreio do miolo.

Guardo religiosamente uma rolha de garrafa de vinho onde está escrito FEITO DEVAGAR NO ALENTEJO. E lembro-me sempre desta frase, ao descascar a noz. Tem de ser devagar,  sobretudo se se quiser admirar, depois, pelo menos uma das metades inteirinha, ciosa das suas circunvoluções.

Desta vez não resisti e depositei-a no granito negro do poial para uma fotografia. Assim. No intrincado das suas rugosidades. Que bem encaixadas elas estavam, a aproveitar ao milímetro o espaço disponível!

Admiro as romãs, cujos grãos tão harmoniosamente se encostam uns aos outros, naqueles que imaginaríamos serem lençóis de seda. Na noz, os lençóis são mais rijos. Aliás, tudo ali regurgita força e trincar o miolo é uma conquista, após se haverem derrubado à força as agrestes muralhas do castelo.

A meio da manhã, comera um abrunho. Nada que se compare à noz: o seu prazer é refrescar-nos com doçura. Nem o pelei – que dá gosto o contraste entre a relativa rijeza da pele e o carácter sumarento do seu corpo.

Que diversidade de formas e de sabores! Quanta sabedoria ali plasmada, sedenta quiçá da nossa contemplação, pois que, na quotidiana correria, mal saboreamos a fresca macieza do abrunho e – muito menos! – nos quedamos admirar a sapiente forma como o miolo da noz milagrosamente consegue aconchegar-se nos difíceis meandros que a rija casca lhes reserva. Eloquência divina!

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