INCURSÕES

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aldeia de Alte

Inesperadamente, o motorista:

– Vamos, então, sair daqui!

Deixámos a autoestrada e os 45 minutos seguintes foram um percurso, com guia ‘turístico’, a explicar-me singularidades das aldeias por onde passávamos.

Chegámos a Alte, sede de freguesia do concelho de Loulé. De Alte só me lembrava daquela frase do corridinho dançado pelo Grupo Folclórico da Casa do Povo: «Tem cuidado com a moça, não bata com o cu no chão!» –  a azougada malícia brejeira típica das gentes do Barrocal Algarvio…

O que me encantou, porém, porque surpreendente, foram as Fontes, a Grande e a Pequena, com as suas piscinas de água límpida corrente. Quem diria, em pleno coração da Serra Algarvia? Nunca de tal ouvira sequer falar nem da enorme Bandeira de Portugal pintada na encosta. Evoco a inesperada sensação agradável perante uma paisagem algarvia, mas essa mesma sensação estou a sentir amiúde, ao ver séries televisivas como a Repovoadores, a mostrar-nos o que de melhor – e muito é! – com que o interior do País nos pode presentear. Do Norte ao Sul.

Chafariz de S. António na Fonte Pequena

Também me falou, o motorista, de Pedralva, no concelho algarvio de Vila do Bispo, experiência ímpar levada a cabo por universitários que arriscaram inovar; mas quantas outras iniciativas, de elevado merecimento, há por esse País afora?

Também à imprensa local e regional compete mostrar que setembro não deve ser apenas o mês de rememorar férias passadas na estranja; importa que volte a ser, cada vez mais, o reportório bem nosso do que muito nos honra e cumpre divulgar.

Laranjais e plantações de abacate pela encosta além…

Acolá, a par dos tradicionais laranjais, vicejam agora as plantações de abacate; aqui, até se logrou recuperar o forno comunitário e cozer o pão à moda tradicional. Os acepipes próprios e tradicionais de cada região identificados com palavras portuguesas. A responsabilidade maior dos cronistas locais a inspirarem-se no que é nosso, com palavras nossas. Cobre degraus de escadaria, em Fontes (Alte), o soneto do poeta altense Cândido Guerreiro, que termina assim:

“E vejo a fonte-grande, o sítio lindo

onde eu compuz os meus primeiros versos

e de que o povo conta ingénuas lendas.

Janeiro. As amendoeiras vão florindo…  

Da Serra até ao mar fluem, dispersos,

Sonhos, noivas, luar e espúmeas rendas…”

Completam estes versos as quadras exaradas no tampo da mesa do António Aleixo, na esplanada do Calcinha em Loulé. Uma delas:

O homem sonha acordado;
Sonhando a vida percorre…
E desse sonho dourado
Só acorda quando morre!

O país, de Norte a Sul, do Litoral para o Interior. Riqueza a potenciar. Uma fuga que importa prosseguir. Por uma descentralização cada vez menos deserta!

Aquele moinho outrora de muito bom trigo e de onde também saía farinha para bem nutritivo pão de rolão, esventrado agora e poiso desviante, quanto não daria para, ali alcandorado, ser ponto de outro poiso obrigatório a desfrutar da paisagem, na dolência do pôr-do-sol!…

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