Monogramas bordados. Hoje só os há em arcas de avós, só elas os sabem olhar em tardes de saudade, elas e uma criada antiga, dessas que têm quase a sua idade e que ficaram partilhando, com elas, a solidão e a ternura.
Letras bordadas, gestos demorados de mãos de mulher segurando o linho, as tardes sentadas à janela ou no balcão, o sol apagando-se no poente, dentro do coração o calor do sol em crescendo, um pano apertado com as duas mãos, sobre o peito, as letras bordadas falando de amor.
Lençóis dobrados com esmero caindo em arca de enxoval, uma rapariguinha de tranças, mas já sonhando, toalha de mesa, de baptizado, um lenço, a arca cheia, ramos secos de alfazema colocados com jeito, a rapariguinha já feita mulher espreitando ao espelho, sobre a cabeça, a coroa de flores de laranjeira.

Monogramas bordados, uns feitos de linha branca, mansos relevos de letras cercadas de flores, fitas de seda, laços desfeitos, aves do paraíso voando no tempo efémero de uma madrugada; outros feitos com linhas cor-de-vinho, sangue ou rubor, nunca se sabe, à volta as silvas debruam a barra do lenço que mais tarde guardará as lágrimas de todas as despedidas.
Monogramas bordados, roupas antigas espalhadas sobre a cama, fios quebrados dos nomes, a criada velha ajoelhada para apanhar hastes partidas de um ramo de alfazema que já não cheira, uma mulher com jeito de avó pensando como arrumar as peças daquele mundo desfeito, uma récega de sol entrando, sorrateiro, pela janela, ao meio da manhã, a última neta correndo no quintal de mãos dadas, ela e o namorado.




