O PSICODRAMA DO PÁTIO

Estava a seguir, na televisão, as notícias de uma França em decomposição. Via Paris a arder - numa imitação do Maio de 68 - com uma santa aliança entre os black blocs e os radicais de esquerda. O movimento contestatário dos estudantes mereceu a bênção de Mélenchon, que pode ter, com este apoio, oferecido a Marine Le Penn uma passadeira vermelha para a Presidência da França. De repente a emissão foi interrompida para a leitura de um comunicado de Cristiano Ronaldo. Seguiu-se um debate, em todos os canais, sobre o mesmo: Cristiano Ronaldo e Jorge Jesus.

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A França continuava a arder. A Europa está à beira do precipício, mas nós, por cá, estamos a viver o psicodrama do choque entre dois egos exacerbados. Os portugueses dividem-se, as televisões dedicam horas a este confronto, o racional perde para a emoção, o insulto entre pessoas cordatas passou a ser o ‘novo normal’. Passamos os olhos pelas redes sociais e os demónios soltaram-se, cada um de nós tem a sua verdade. E, às tantas, a questão ultrapassa o campo do futebol para se tornar num vendaval de purificação de um povo.

Desde já assumo: sou adepto do SCP, gosto de futebol e nunca fui grande fã da seleção nacional, com excepção da campanha de 1966. A seleção era, então, dirigida por dois grandes senhores do futebol: Manuel da Luz Afonso e Otto Glória, o brasileiro mais português que passou pelo futebol nacional. Foi treinador do SLB, do SCP, do Belenenses e do FCP e quem levou Portugal ao Mundial de 1966. Eusébio, que já tinha contribuído para o segundo título europeu do SLB, foi consagrado, no Mundial de 1966, como um dos grandes jogadores do Mundo e transformado, pelo regime de Salazar, num dos símbolos do País. Era o tempo do ‘fado, futebol e Fátima’.

Eusébio da Silva Ferreira, natural de Lourenço Marques, Moçambique, uma das colónias portuguesas, representava a força do império colonial e o Portugal uno e indivisível, aquém e além-mar. Desejado em Itália, foi impedido de se transferir para o Inter de Milão, pois o regime considerava-o ‘património nacional’. Terminou a carreira futebolística no União de Tomar, sem honra, nem glória. Muito mais tarde, o SLB e a seleção nacional deram-lhe um lugar honorífico, que não apagou a indigência para que o remeteram.

 Após esse Mundial, desinteressei-me da seleção nacional. Vinte anos depois, em 1986, em Saltillo, no México, ocorreu uma das maiores vergonhas do futebol português. Os jogadores sublevaram-se e acabaram por ser expulsos da seleção. Ao longo dos anos, até 2004, Portugal apenas esteve presente, esporadicamente, em fases finais dos Europeus ou dos Mundiais. A partir de 2004, manteve uma presença contínua, em todas as finais dos Europeus e dos Mundiais, tendo ganhado o Europeu em França em 2016. Ao longo dos últimos 20 anos, houve um denominador comum na seleção nacional, Cristiano Ronaldo. Para o mal e para o bem, creio que foi o único jogador português que esteve presente em todos esses momentos. Idolatrado por uns, odiado por outros, na velha tradição portuguesa, Ronaldo fez o seu percurso recheado de conquistas pessoais e colectivas.

O último título da seleção nacional, a Liga das Nações, em 2024/2025, deveria ter marcado o fim de ciclo para Ronaldo. A sua continuidade como jogador constituiu um erro, dele e da FPF. Erro que se repetiu com a convocatória para esta nova fase da seleção. Por dois motivos, já não tem condição física para ser útil à equipa e porque o seleccionador tem um ego igual ao dele. Porém, havia um problema a resolver. Como acabar com o ‘mito’ Ronaldo e dar espaço ao ego de Jorge Jesus? Estávamos perante um drama freudiano. Como matar o ‘pai’ Ronaldo e dar espaço ao ‘filho’ Jesus?

Acabou por ser fácil. Após sair do SLB para o SCP, numa rutura atribulada com Luís Filipe Vieira, Jesus manteve comunicação regular com o antigo dirigente durante todo o contrato com o novo clube. O treinador, que todos consideram ser um homem explosivo e emotivo, é um mestre da dissimulação. Com mestria, armadilhou a relação com Ronaldo e empurrou-o borda fora. Ainda para mais a equipa portuguesa começou a somar vitórias, o que o deixou, na óptica do adepto, em estado de graça.

Morto o ‘pai’, a questão estava aparentemente resolvida. Mas faltava um toque final, a humilhação. Porque um drama só se conclui com a humilhação do derrotado e Jorge Jesus, na sua soberba e no seu narcisismo, tinha de humilhar o vencido, outro narciso como ele.

Sem dó, nem piedade, com frieza, humilhou o seu opositor: na conferência de imprensa, após o jogo na Noruega, e na atribuição da camisola com o número 7 a outro jogador. Contrariamente ao que se imaginava, tudo foi executado seguindo o guião da Guerra do Tronos. Para adensar o psicodrama, abriu-se uma nova frente de confronto entre a CNN de Mário Ferreira e a Media Livre, vulgo CMTV, que tem como um dos maiores accionistas Cristiano Ronaldo, o outro interveniente na trama.

Durante dias, os comentadores dos dois lados trocaram insultos e críticas, difundiram notícias inventadas e acusaram o presidente da FPF de ter cedido perante Ronaldo. O espaço televisivo transformou-se, assim, num campo de batalha. A coisa continua mas, por aqui só me apetece imitar o Bugs Bunny do Walt Disney; That’s all, folks!

NOTA: No meio de todo este psicodrama, seria útil que alguém explicasse aos portugueses o que estavam a fazer, em Malmo, os vice-presidentes da FPF, principescamente pagos, com um vencimento inversamente proporcional à sua competência.

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