IRMÃOS DE SOMBRA E SAUDADE

Miguel de Unamuno e Teixeira de Pascoaes

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Miguel de Unamuno e Teixeira de Pascoaes

Miguel de Unamuno manteve uma relação profunda, afetiva e intelectual com Portugal, país que visitou inúmeras vezes e que descreveu formalmente como a sua “segunda pátria espiritual”. Numa época em que a Espanha vivia culturalmente de costas voltadas para o território vizinho, o pensador e reitor da Universidade de Salamanca cruzou a fronteira com o firme propósito de construir pontes, tornando-se o maior embaixador e tradutor da cultura e da literatura portuguesa em solo espanhol. Esta ligação não se limitava a uma curiosidade turística; tratava-se de uma verdadeira necessidade metafísica de comunhão com o lirismo e a interioridade que ele encontrava na alma lusa.

A sua ligação mais célebre, duradoura e literariamente produtiva deu-se com o poeta Teixeira de Pascoaes, o grande líder do movimento do Saudosismo. A amizade entre ambos assentava numa profunda afinidade eletiva, uma vez que partilhavam uma obsessão mística pelo mistério da existência, pela dor do tempo que passa e pela busca incessante da imortalidade. Unamuno via em Pascoaes o “irmão espiritual” que não encontrava em Espanha, o que o levou a visitar repetidas vezes a Casa de Pascoaes, em Amarante. Ali, em longas caminhadas junto ao rio Tâmega e sob a sombra da Serra do Marão, os dois escritores discutiam literatura, religião e o destino dos povos ibéricos.

Enquanto Pascoaes teorizava sobre a Saudade como a essência espiritual e o motor de regeneração da alma portuguesa — um sentimento que une o passado, o presente e o futuro numa ânsia de eternidade —, Unamuno contrapunha-o com o seu próprio conceito do “sentimento trágico da vida”, assente na luta agónica e desesperada entre a fé e a razão. A vasta correspondência trocada entre os dois autores ao longo de décadas constitui um dos testemunhos epistolares mais ricos do início do século XX, revelando também uma solidariedade humana profunda, visível quando Pascoaes se tornou uma das vozes públicas mais ativas em defesa de Unamuno aquando do seu exílio político na ilha de Fuerteventura, em 1924.

Esta convivência alimentava o ideal unamuniano do Iberismo, que não preconizava uma união política ou administrativa entre as duas nações, mas sim uma fraternidade cultural e espiritual onde cada povo preservasse estritamente a sua identidade. Unamuno chamava a esta união utópica uma “infraterna aliança”, acreditando que a melancolia, o intimismo e o panteísmo natural dos portugueses serviriam de contrapeso ideal ao misticismo trágico, dogmático e rústico das terras de Castela.

Para além de Pascoaes, o intelectual espanhol conviveu e influenciou várias das mentes mais brilhantes de Portugal. Dedicou ensaios vibrantes a Antero de Quental, por cujos Sonetos nutria uma admiração quase religiosa, identificando nele o exemplo máximo do calvário interior e da tragédia íntima ibérica. Manteve também uma amizade estreita com Guerra Junqueiro, visitando-o com frequência na sua quinta no Douro para admirar a força profética e telúrica da sua poesia, e privou com Eugénio de Castro, que o introduziu nos círculos literários e académicos de Coimbra. Embora a sua relação com Fernando Pessoa não tenha sido de proximidade pessoal, o poeta dos heterónimos conhecia profundamente o pensamento do espanhol, partilhando com ele o fascínio em torno do mito do sebastianismo e da desconstrução da identidade nacional. Toda esta riqueza e respeito pelo caráter do povo, pela língua, pelo fado e pela paisagem lusa ficaram imortalizados na sua obra “Por Tierras de Portugal y de España”, consolidando o seu papel como o pensador espanhol que mais intimamente compreendeu e amou Portugal.

Miguel de Unamuno

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