Olhar para o edifício do Diário de Notícias é sempre um aperto no coração. Nunca compreenderei o facto de não terem ali feito um museu da Imprensa ou alguma coisa do género. Não sei o que se passa agora na velha sala verde, onde decorriam reuniões, nos gabinetes, na cantina, ou no espaço da redacção. Não sei se no lugar da minha secretária estará uma cama ou uma banheira. E é sempre uma dor.
Mas lá fui avenida abaixo. Ouço falar português do Brasil, inglês, alemão, francês. Não ouço falar português. Ninguém olha para o outro, homens e mulheres, mais velhos e mais novos, de auriculares, indiferentes a quem passa.
Mais abaixo, há agarrados ao telemóvel, como se o mundo acabasse daí a pouco. Uns falam mais alto, outros numa irritação difícil de conter. Uma mulher pára no semáforo, mesmo ao meu lado. Não quer que a filha saia à noite. Todos ficámos a saber a história e eu tenho vontade de lhe dizer que seja mais discreta.
As lojas são todas estrangeiras, todas de luxo. Qualquer par de sapatos custa mais de 600 euros. Qualquer saia custa mais de 800 euros. Qualquer coisa, seja qual for, nunca tem preço abaixo dos 500 euros.
As pessoas continuam a cruzar-se. Uma mulher sorri e a pessoa que me ultrapassa pergunta à outra se será maluca. Não entendo porquê. Será porque sorriu?
Passo no edifício de Tony Miranda. Ora aqui está um português que se mantém na avenida. Só mais uma loja do género é portuguesa. E há o Hard Rock Cafe. Os pequenos restaurantes, os cafés onde tantas vezes tomei pequeno-almoço, ou comi um croquete para enganar a fome à hora do almoço, tudo desapareceu. Agora é só luxo.
Os restaurantes têm todos nomes estrangeiros e, nas ementas, nem aparece o preço. Quem quiser que use o qrcode. Lá está o velho Pinóquio, também com o tal qrcode, a esconder os preços.
Atravesso. Passo às estátuas e lá está outra vez o qrcode, como se todos tivessem telemóvel, ou soubessem funcionar com aquilo. Ah! Espera, isto é mais para estrangeiros…
Já ali, avenida acima, há uma clínica e um hotel com nome português e, felizmente, o Partido Comunista.
Aproximo-me da banca dos jornais. Uma velhota, sentada numa cadeira de praia, encara-me e pergunta: ‘canaielpiu?’ Não entendo e ela repete: ‘canaielpiu?’. Decifro o ‘can I help you’ e faço questão de lhe responder alto: Não, muito obrigada. Não preciso de nada. E desarvorei zangada por ali fora.
Já eram quase 9 horas e eu tinha um compromisso. Percebo que a maioria das empregadas de limpeza das lojas de luxo são brasileiras. Descem escadas com as esfregonas em punho e vão acordar os sem-abrigo que passaram a noite nas arcadas. Não são agressivas. Um ligeiro toque e eles acordam. Resmungam um: ‘já vou’.
Andam diversos varredores a limpar, até as folhas dos plátanos. Pena que em outras ruas da cidade não seja assim…
Uma hora mais tarde, hei-de subir novamente a avenida, entre tuk-tuks e turistas a saírem dos hotéis. Já tenho a minha dose de tristeza: na Avenida da Liberdade, na cidade onde vivo há mais de 50 anos, a estrangeira sou eu.



