CONTROLAR A OPINIÃO PÚBLICA É ASSIM QUE SE FAZ

Há pequenos avisos que são bastante esclarecedores sobre quem os coloca.

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No Facebook, um vídeo difundido por canais oficiais da República Islâmica do Irão pode aparecer acompanhado, durante toda a sua duração, de uma indicação de que aquele conteúdo é «controlado pelo Irão». Foi o que aconteceu, por exemplo, com imagens da intervenção do Presidente iraniano na recente Assembleia Geral das Nações Unidas. O “aviso” funciona como um alerta: “cuidado, não acreditem nisto”.

Na mesma Assembleia Geral, o Presidente francês publicou um vídeo cuidadosamente produzido em Nova Iorque: Macron aparece sorridente, cumprimenta efusivamente Donald Trump e outros líderes, tudo montado ao ritmo de música, com imagem, som e edição profissional. É, evidentemente, comunicação política. Não há ali nada ao acaso. Há uma equipa de comunicação a produzir uma narrativa sobre o Presidente da República e a sua presença no mundo. Nenhum “aviso”, podemos acreditar em tudo.

Donald Trump fez o mesmo. Entre os vários vídeos publicados naqueles dias, encontramos excertos do seu discurso nas Nações Unidas, cuidadosamente escolhidos para amplificar frases como «America is back» ou «we are stronger than ever before». Não estamos perante jornalismo independente. Estamos perante comunicação política produzida e distribuída pelo próprio protagonista. Também nenhum “aviso” para termos cautela.

Todos estes conteúdos têm uma característica comum: são produzidos ou difundidos por estruturas de comunicação ligadas ao poder político e destinam-se a construir uma determinada imagem desse poder. Uns mostram um Presidente confiante, sorridente a cumprimentar outros chefes de Estado; outros seleccionam as frases mais favoráveis de um discurso; outros apresentam a versão de Teerão sobre a agressão que estão a sofrer com bombardeamentos americanos e israelitas. Mas só o vídeo do Irão tem o “aviso” de alerta.

Se a regra das redes sociais, neste caso o Facebook, fosse informar o utilizador de que está perante comunicação sob influência ou controlo de um Estado, então a regra deveria ser aplicada segundo critérios universais. Washington, Paris, Londres, Moscovo ou Teerão não podem ser tratados como categorias diferentes apenas porque as suas políticas externas são diferentes.

Por que razão um vídeo de comunicação política difundido pelo Estado iraniano precisa de um aviso permanente sobre a sua origem, enquanto uma sofisticada peça promocional do Eliseu ou um excerto cuidadosamente seleccionado por Trump não suscitam idêntico alerta?

Não se trata de defender a credibilidade do Governo iraniano. Nem de pedir que se retirem rótulos a conteúdos provenientes de meios controlados por Estados. Trata-se precisamente do contrário: de saber se o critério é realmente sobre a natureza do conteúdo ou se acaba por funcionar também como uma classificação política dos emissores.

Porque um aviso como «controlado pelo Irão» não é uma informação neutra no sentido mais elementar da comunicação. Embora não diga «não acredite», coloca essa suspeita no ecrã antes, durante e depois da mensagem. A propaganda não deixa de ser propaganda quando é produzida a ocidente.  Se o Facebook decidisse identificar da mesma maneira um vídeo da Casa Branca como «conteúdo controlado pelos Estados Unidos», um vídeo do Eliseu como «conteúdo controlado pela França» e uma comunicação de Downing Street como «conteúdo controlado pelo Reino Unido», a regra tornar-se-ia banal. Poderíamos concordar ou discordar dela, mas perceberíamos o critério.

Explicando com exemplos em vídeo:

vídeo

Quando o aviso aparece sistematicamente associado a determinados países e não a outros, a questão deixa de ser apenas quem produziu o conteúdo. Passa a ser quem merece ser assinalado como alguém de quem devemos desconfiar. É uma diferença pequena no ecrã. Mas não é uma diferença pequena na cabeça de quem vê.

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