LISBOA E JERUSALÉM (semelhanças inesperadas)

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Frequentemente, nas redes sociais, aparecem vídeos de grupos de judeus a entrarem no recinto da mesquita de Al-Aqsa, em Jerusalém, sob protecção das forças israelitas. Não são turistas. Eles vão ali para realizarem rituais religiosos e alguns defendem abertamente a construção, naquele mesmo lugar, do chamado Terceiro Templo judaico.

Para os palestinianos muçulmanos, e para uma grande parte do mundo islâmico, aquilo é uma provocação. E, mais do que isso, é o sinal de uma ameaça que há muito deixou de ser imaginária.

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É fácil olhar para este jovem e classificá-lo simplesmente como um fanático. O problema é que as ideias que exprime não surgem no vazio. Há organizações religiosas, movimentos nacionalistas e sectores políticos em Israel que defendem, em diferentes graus, uma alteração radical do actual estatuto do recinto de Al-Aqsa. E há membros do poder político israelita que fazem dessas correntes parte da realidade do governo.

O que talvez seja mais perturbador não é, contudo, a existência de mais um fanático religioso. Fanáticos sempre existiram. O que impressiona é perceber que, no século XXI, depois de tudo o que a humanidade aprendeu, continua perfeitamente possível organizar uma visão do mundo em torno de uma ideia muito simples: esta terra é nossa porque Deus no-la deu. E, se Deus a deu a nós, os outros estão a mais.

Jerusalém não é, neste aspecto, uma excepção da História. Talvez seja apenas um dos lugares onde a História se torna mais visível. Basta pensar em Lisboa.

Depois da conquista da cidade, em 1147, a nova ordem cristã não se limitou a substituir o poder político muçulmano. Mudou também a paisagem religiosa. No espaço onde hoje se ergue a Sé Catedral existiu a Grande Mesquita da Lisboa islâmica, assentando ela própria sobre estruturas ainda mais antigas, reveladas ou confirmadas pela investigação arqueológica. Uma sucessão de povos, crenças e poderes foi deixando ali as suas marcas.

Não é necessário estabelecer uma equivalência moral ou histórica entre a conquista de Lisboa no século XII e o que hoje acontece em Jerusalém. São épocas diferentes, sociedades diferentes, mundos políticos diferentes. Mas há qualquer coisa que atravessa os séculos. O vencedor não se limita a conquistar o território. Quer também conquistar os seus símbolos. A vitória militar parece incompleta enquanto o deus do vencido continuar a ter uma casa de oração no lugar onde agora manda o vencedor.

Uma mesquita transforma-se em catedral. Um templo deve desaparecer para que outro possa ser reconstruído. O espaço que durante séculos foi sagrado para uns passa a ser reclamado como sagrado exclusivamente por outros.

Gostamos de pensar que evoluímos. E, naturalmente, evoluímos. Sabemos hoje coisas que os nossos antepassados não poderiam sequer imaginar. Fotografamos galáxias distantes, manipulamos genes, enviamos máquinas para outros planetas, construímos sistemas capazes de processar quantidades absurdas de informação e comunicamos instantaneamente com pessoas do outro lado do mundo. Mas o progresso técnico não produziu progresso moral.

Podemos usar um telemóvel de última geração e continuar a acreditar que Deus entregou uma determinada parcela do planeta exclusivamente à nossa tribo. Podemos viajar de avião, recorrer à inteligência artificial, fazer uma operação ao coração e continuar a pensar exactamente como pensavam os homens que, há muitos séculos, destruíam os símbolos religiosos dos vencidos para afirmar a superioridade da sua própria fé.

A humanidade pode aperfeiçoar a máquina sem aperfeiçoar o homem que carrega no botão. Continuamos a matar, expulsar e destruir em nome de “certezas” que têm milhares de anos. Em Jerusalém, essa realidade está diante dos nossos olhos. Partilhada nas redes sociais, discutida por políticos e protegida por soldados.

A distância entre a espada de um cruzado que entrou em Lisboa em 1147 e o smartphone de um jovem sionista que defende hoje a destruição de Al-Aqsa parece enorme. Talvez não seja assim tão grande.

artigos publicados sobre a mesquita de Lisboa em Arquivo de mesquita antiga de Lisboa – Duas Linhas

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