O PINTAINHO, O LEÃOZINHO E AS TRÊS GRAÇAS MUDAS

Poucas coisas me fazem tão feliz como ir ao concerto de alguém que sempre quis ver ao vivo e que, por alguma uma razão, fui adiando, tendo acabado por acreditar que nunca iria acontecer. Mas acontece. Aconteceu hoje.

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O problema é que o concerto vinha embrulhado num festival e eu não sou pessoa de festivais. Nunca tive paciência para multidões, filas intermináveis para tudo, casas de banho que põem à prova a elasticidade e a fé humana, já para não falar nas  horas de espera a aguardar o momento desejado. Mas o cantor que eu queria ver encerrava a noite. Era a grande atração, o nome que fazia aquele cartaz inteiro valer a pena e que me levou a fazer muitas centenas de quilómetros.

Assim sendo, restava esperar. Em pé, porque os supostos bilhetes VIP, eram VIP nos assentos mas não na vista (lateral e distante). Seis horas e meia. Ditas assim parecem um suplício medieval. Mas o que são seis horas e meia para quem esperou quase cinquenta anos? As pernas discordavam. Os pés também. Venceu a vontade, que era muita.

Resignei-me à imobilidade forçada e comecei a fazer aquilo que mais gosto quando estou no meio de muita gente: observar. A fauna humana de um festival é uma coisa extraordinária.

Neste caso, note-se, a ave rara era claramente eu. Toda a gente parecia partilhar um mesmo código de alegria colorida, descontraída, exuberante. Havia brilhos, roupas improváveis, botas gigantes com saias minúsculas, cabelos de todas as cores, brincos em todos as protuberâncias possíveis e imaginárias, e uma felicidade coletiva que, devo admitir, me estava a agradar bastante.

Foi então que o vi. Um rapazito louro pintainho. Olhos lindos sublinhados pela maquilhagem, blazer e calções, botas de cowboy. Uma fusão improvável de clássico e excesso. Acreditem ou não, a coisa funcionava.  Mas o que me prendia o olhar a este rapaz não era o visual que, ali, era apenas mais um. O que me encantou foi a dança. Enquanto toda a gente dançava ao ritmo da música, ele movia-se a um ritmo só seu.

Lembrei-me daquela velha anedota do homem que conduz em contramão e acha que todos os outros é que estão errados. Só que, este rapaz, nem sequer parecia notar a presença dos outros. Na verdade, parecia de tal modo estar a ouvir uma música própria dentro da cabeça, que tentei perceber se teria auriculares a rivalizar com o som das colunas que quase me ensurdeciam. Mas nada. Os braços moviam-se num compasso impossível. Os passos não coincidiam com a batida. O corpo obedecia à tal melodia secreta que só ele escutava e que, por esta altura, queria muito que partilhasse comigo.

Com a noite a cair, entrou em palco uma banda que levou o público ao delírio. Só conhecia de nome. Fiquei curiosa. O ritmo convidava a um pezinho de dança. O pintainho continuava no seu ritmo desalinhado. A miudagem entoava as letras. Até aqui, tudo normal. Pelo menos para eles, porque para mim, rapidamente ficou estranhíssimo.

Acontece que não consegui perceber se as  três vozes femininas anunciadas com pompa e circunstância eram as das pequenas que estavam em palco ou as que saiam das colunas. Sim, porque se, no início, as bocas abriam e fechavam sincronizadas com a música, passados poucos minutos nem isso. O público a delirar com o enorme talento. E eu ali, perplexa. Já tinha ouvido a expressão “cantas bem, mas não me alegras”. Mas era a primeira vez que via alguém alegrar uma multidão sem cantar rigorosamente nada. Nem bem, nem mal. Nada!

É provavelmente do meu ADN (que me explicaram recentemente significar Afastamento da Data de Nascimento), mas confesso ter ficado muito aliviada quando entrou em palco o cantor que eu esperava e percebi que cantava e tocava mesmo. Melhor do que isso, tocou só para mim. Cantou comigo. Implorou-me que não o deixasse tão só. O planeta podia explodir, a aparelhagem incendiar-se.

A multidão sumiu-se. O pintainho desapareceu, ofuscado pelo leãozinho. Hoje estou com menos voz que as Três Graças Mudas da banda e ainda a dançar a um ritmo que só eu ouço.

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