A ESPERANÇA SEM FIM

O Hospital de Alfaces. Comprei o livro por impulso. Talvez influenciado pelos elogios impressos na contracapa, atribuídos a nomes conhecidos, rostos televisivos, unanimidades fáceis. A máquina editorial sabe o que faz: quando a literatura é apresentada como experiência transformadora por figuras públicas, torna-se difícil resistir. De vez em quando, deixo-me levar pelo marketing.

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O Hospital de Alfaces é um drama familiar construído em sucessão de cenas curtas, quase esboços cénicos, como se estivéssemos perante um guião de teatro ou cinema. Essa fragmentação imprime ritmo, cria tensão, empurra o leitor para a frente. Cada cena contém frases de impacto, uma sentença moral, uma verdade condensada, um aforismo pronto a ser sublinhado. É uma técnica eficaz: transforma a leitura numa sequência de pequenos clímax emocionais.

O eventual carácter autobiográfico da narrativa, a ideia de que o drama terá raízes na experiência pessoal do autor, reforça a carga afetiva. O leitor sente que pisa território íntimo, que participa numa dor real. E isso aproxima.

Mas há também uma dimensão simbólica que desloca a história do realismo para uma espécie de alegoria surreal: a alface imortal que se reproduz infinitamente, resistente a tudo, convertida em metáfora da persistência contra a dor, a doença, o ódio e o desamor. O símbolo é didático. A fantasia serve a mensagem.

É aqui que surge a ambivalência. O livro pode ser lido como um longo poema “escrito na horizontal”, prosa poética construída com paralelismos, enumerações, repetições rítmicas. Frases como: “A vida é uma frase mal escrita, mal pensada, mal planeada…” assentam numa cadência quase litúrgica. A repetição sincopada, quase como se fosse música, “há dor, há perdas, há sofrimento…” cria intensidade. O texto pede para ser citado, partilhado, recortado. Funciona.

Mas esse mesmo mecanismo, repetido ao longo de centenas de páginas, cansou-me um pouco. Cansaço mais psicológico, talvez. A frase lapidar, quando é permanente, deixa de surpreender. O impacto transforma-se em padrão. O que inicialmente seduz – a contundência emocional – acaba por soar a fórmula. Tenho medo de estar a ser injusto, confesso. E se tudo aquilo lhe saiu mesmo das entranhas?

É um relato de intensidade contínua. Não há zonas neutras, não há silêncios longos, não há espaços de respiração narrativa. Tudo é sentimento sublinhado. Tudo é significado declarado. Tudo é afirmativo.

No final, digo que o livro cumpre aquilo que o autor pretende: emocionar, confortar, oferecer frases que parecem verdades definitivas. Gostei. Mas também me cansei. E talvez essa tensão, entre adesão e saturação, seja a leitura mais honesta que posso fazer dele.

“Há dor, há perdas, há sofrimento, há medo, há angústias, há uma quantidade interminável de merdas que só servem para dar cabo de nós. Raramente as coisas boas cobrem as outras. O que cobre as outras, o que nos faz superar as outras, é o que construímos com elas”.

Talvez tenhas razão, Pedro. Mas onde se aprende a fazer essa construção, não nos dizes tu neste livro que termina com um enigma…

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