Referimo-nos, de forma direta e sem rodeios, a práticas recorrentes observadas em órgãos como a RTP, a RDP África e a Lusa. Não se trata de um episódio isolado, mas de um padrão persistente de atuação que levanta sérias dúvidas quanto à ética, à imparcialidade e ao profissionalismo de alguns dos seus protagonistas.
Convém recordar um facto histórico que muitos parecem querer esquecer: a decisão soberana da Guiné-Bissau de afastar determinados órgãos de comunicação do seu território.
Essa decisão não foi arbitrária nem emocional. Resultou, entre outros fatores, da constatação de que alguns jornalistas passaram a confundir deliberadamente a sua função com a de magistrados, arrogando-se o direito de validar, deslegitimar ou reinterpretar atos institucionais de um Estado soberano.
O jornalismo é, por definição, uma profissão nobre, ao serviço do interesse público. Mas deixa de o ser no momento em que abandona o rigor factual, a isenção e o respeito pelas instituições, para se transformar num exercício de escárnio, insinuação e militância disfarçada.
O exemplo recente da cobertura da inauguração das obras de dragagem dos portos de Bissau é paradigmático. Em vez de informar sobre um evento estruturante para a economia nacional – presidido legitimamente pelo Primeiro-Ministro -, optou-se por um registo enviesado, carregado de subentendidos e comentários laterais. Quando uma jornalista se refere a Ilídio Vieira Té como alguém “apresentado como Primeiro-Ministro”, a pergunta impõe-se: existe alguma dúvida sobre quem exerce essa função, ou estamos perante a pretensão inadmissível de um órgão de comunicação social se arrogar o poder de conferir legitimidade aos cargos da República?
Mais grave ainda: a peça em causa praticamente ignora o facto noticioso central, desviando-se para frustrações pessoais, como a alegada ausência de entrevistas concedidas. É necessário reafirmar um princípio elementar do Estado de Direito e da liberdade de imprensa: não existe qualquer obrigação legal ou moral de um governante conceder entrevistas a órgãos que considera não credíveis ou não confiáveis. A escolha das entrevistas é um direito, não uma imposição.
A insistência em misturar opinião com informação, julgamento com relato, e frustração pessoal com cobertura noticiosa não é apenas um desvio deontológico. É uma violação grave dos princípios que regem a profissão jornalística e que deveriam ser escrutinados pela ERC, entidade reguladora a quem estes profissionais devem contas.
É legítimo, portanto, que se levantem dúvidas incómodas: trata-se apenas de incompetência e arrogância profissional, ou estaremos perante agendas externas, cumplicidades políticas ou mesmo práticas eticamente reprováveis que explicariam por que são quase sempre os mesmos jornalistas e os mesmos órgãos a protagonizar este tipo de ações?
A Guiné-Bissau não é um protetorado mediático, nem um laboratório de narrativas pós-coloniais. É um Estado soberano, com instituições próprias, com responsabilidades internas e com plena capacidade de definir quem informa com seriedade e quem apenas procura interferir.
Aos jornalistas em causa – expulsos ou não – fica um apelo simples e direto: deixem a política para os políticos, deixem os tribunais para os juízes e regressem ao essencial da vossa profissão. Exercitem o jornalismo com elevação, rigor e honestidade intelectual. Façam jus à vossa carteira profissional.
Em português, em crioulo ou em qualquer outra língua, na Guiné-Bissau compreendemos perfeitamente não apenas o que é dito, mas também – e sobretudo – o que se tenta insinuar nas entrelinhas.



