Era ainda criança, seis anos talvez, quase ao findar a década de 40 do século XX, a vendedeira de “bonecos”, que de Barcelos descera à Beira Alta, batia, uma vez mais, à porta de minha mãe, na Sarzeda, junto a Sernancelhe. Trazia louça vidrada, alguidares enramados que eu ainda conheci, pucarinhos onde se amornava o vinho nas noites de frio e as maneirinhas panelas onde minha mãe guardava o mel e a manteiga do porco.
Não me lembro do nome da vendedeira, que meus pais hospedavam, à maneira das casas de lavradores: duas mantas, a quentura de um caldo, larga fatia de pão e a talhada da boa carne de porco de então, o pucarinho de vinho. E, quando a vendedeira no dia seguinte partiu, estava eu na quintã da casa de meus pais, fez-me promessa de me trazer um “assobio” quando ali voltasse, daí a um ano, que isso já eu sabia. E voltou.
Voltou outra vez a vendedeira. E trouxe consigo o “assobio” que me prometeu, que disso me lembro, um “galo” pequenino com pintura a cores que daí a pouco assobiava pelas ruas da aldeia.

Já não recordo o fim que dei ao “assobio”, o fim desse miúdo galo que, porventura, se partiu. Mas veio daí a minha paixão pelos bonecos de Barcelos, desses mais ingénuos, as figurinhas de Presépio que comecei por conhecer nos presépios que as mordomas construíam na igreja da minha aldeia.
Que, nesse tempo, eu mal me importaria com a sua história, a das figurinhas, essa recreação que os oleiros de Barcelos, das suas aldeias ao redor, construíam quase a brincar, enquanto no forno ardia a fornada das talhas avantajadas, das púcaras, dos pucarinhos, dos escoadores, das assadeiras vidradas.
Que assim nasceram, já mal alguém sabe contar, vão mais de cem anos, as figurinhas pintadas que as mulheres vendiam em tendas de festa ou de feira ou em solitários passos, porta-a-porta nas aldeias.
Não armei, este ano, o meu presépio de Barcelos de figurinhas já bem antigas, não o armei, como antigamente, Maria e José abrigados sob a cabana de um pastor, o Menino Jesus na manjedoura tecida de palhas cortadas à tesoura, pastores descendo a encosta com cordeirinhos aos ombros, as suas mulheres saindo da aldeia com cestinhas carregadas de queijinhos corados, de figos, de nozes, bilha de leite na mão, enquanto outras se atarefavam na ida à fonte do lugar ou nos preparos da ceia. Camponeses regressados de lavouras de inverno atravessavam, conversando, a pontezinha levantada sobre uma ribeira de prata seguindo o velho caminho de areia branca. Ainda longe, avistavam-se os Reis Magos, que já vinham a pé, os criados trazendo camelos pela rédea, onde, em cofrezinhos pintados, vinham os presentes do Menino. E havia uma estrela dourada presa no cimo de um pinheiro com seus raios a fingir. E havia um anjo que parecia suspenso no ar.

Todos os anos me lembro, ao vir o mês de Setembro e a Feira de S. Mateus, em Viseu, do meu presépio guardado numa caixa de cartão. Como este ano aconteceu.
Corri as tendas armadas dos louceiros de Barcelos nessa ala que se estendia por largos passos. Lembrei-me da mulher que me ofereceu o assobio, ao ver os pequeninos galos que ainda são iguais ao meu. Ali estavam, à espera de poeta ou comprador, os galos de assobiar, a Virgem Maria com seu manto de azul já debotado, S. José com a sua velha bengala, Reis Magos a pé ou montados a cavalo, pastores, as mulheres dos pastores, muitos cordeiros, camponeses de machado ou enxada ao ombro, as pontezinhas, casas de aldeia, as fontes, as estrelas, os anjos que por toda a noite haveriam de cantar.
Lembrei-me dos louceiros antigos, do seu jeito de lavrar o barro a que tanta vez assisti, desse milagre das suas mãos que eles copiaram dos muito antigos gestos de Javé.


Lembrei-me dos novos louceiros, da mestria dos seus gestos, agora, em Barcelos e eu os louvo por não terem abandonado o velho figurado e eu os louvo por essas sublimes criações de um tempo novo.


