DOIS VENCEDORES

0
183

A acreditar na sondagem divulgada pela RTP, António José Seguro surgirá como vencedor da primeira volta das eleições presidenciais e, nesse cenário, tornar-se-á o principal favorito para vencer a segunda volta e assumir o cargo de Presidente da República.

Há, contudo, um dado politicamente curioso — e revelador — neste quadro. Se o segundo lugar vier a ser ocupado por André Ventura, o líder do Chega poderá, paradoxalmente, cantar vitória. Não eleitoral, mas estratégica. Passaria a ser o dirigente partidário com maior apoio popular direto, reforçando a sua posição interna e consolidando uma base eleitoral que lhe permite encarar o futuro com ambições redobradas. Neste momento, Ventura pode abraçar todas as ambições face à derrocada do candidato do PSD. O futuro de Montenegro não parece famoso e Ventura pode acabar com ele, no momento em que achar oportuno fazê-lo.

É certo que, em política, tudo pode mudar de um dia para o outro. Basta que surja um episódio capaz de abalar a sua imagem pública — algo que, no caso de Ventura, não seria particularmente difícil. O seu percurso está rodeado de zonas cinzentas, de rumores persistentes sobre quebras éticas, traços de mau carácter e práticas duvidosas, desde logo no próprio processo de fundação do Chega, com o conhecido caso das assinaturas falsas. Tudo isso foi amplamente documentado no livro Por Dentro do Chega, do jornalista Miguel Carvalho.

Ainda assim, André Ventura nunca foi verdadeiramente a estas eleições para ganhar. O seu objetivo foi outro: cimentar eleitorado, maximizar votos no seu nome e afirmar-se como ativo político mais valioso do que o próprio partido. Ventura sabe — e age em conformidade — que, neste momento, ele vale mais do que o Chega.

Já a previsível vitória de António José Seguro na primeira volta tem um significado político distinto e, em certa medida, inesperado. Trata-se de um candidato que havia abandonado há muito a atividade política e partidária, que avançou sem garantias formais do seu antigo partido e enfrentando mesmo a oposição de vários “barões” do PS. O seu percurso recente assemelha-se a uma verdadeira travessia do deserto que, em caso de vitória final, se transformará num raro “milagre” político: o renascimento de um dirigente dado como acabado.

Se vencer a primeira volta, Seguro poderá começar a fazer contas à chamada maioria sociológica de esquerda, tentando perceber se ela existe de facto e se se traduz em apoio eleitoral efetivo. Essa será, provavelmente, a grande incógnita da segunda volta.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui