BEM-VINDOS AO GRANDE CIRCO DAS SOMBRAS SOBERANAS

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I. O PowerPoint Sagrado e a Dieta do Vento

Tudo começa no período eleitoral, aquela época mágica em que os candidatos parecem saídos de um anúncio de iogurtes biológicos. São fofos, líricos, abraçam idosos na feira com uma ternura de quem descobriu a cura para a calvície e prometem rios de leite e mel. Vestem a camisola da retidão moral (geralmente comprada em saldos na véspera).

Mas o feitiço quebra na tomada de posse. Mal o rabo de Suas Excelências toca no veludo das cadeiras do Parlamento, a coluna vertebral deles sofre uma mutação instantânea: ganham a rigidez de um bloco de cimento e a memória de um peixinho dourado.

E nós chamamos a isto “Democracia” com um “D” tão grande que quase não cabe no ecrã da televisão. Entretanto, o Zé Povinho — o motor económico da nação — é promovido a “besta de carga premium”. Vivemos apertados em cubículos de 30 metros quadrados com rendas de luxo, a consumir uma produção em série de burocracia e impostos criados por uma engenharia social tão avançada que consegue extrair sumo de uma pedra. O melhor de tudo? Fomos nós que votámos nisto. Consumimos o veneno, pedimos fatura com número de contribuinte para ver se abate no IRS e ainda elogiamos o sabor sob um céu cinzento de austeridade.

II. O Masoquismo das Urnas e o Cheiro a Mofo

Esta nossa ordem política nasceu torta, é verdade. Tem um ventre tão impuro que a própria árvore genealógica do sistema parece um novelo de lã mastigado por um gato. Mesmo assim, os nossos governantes desfilam com o peito inchado de orgulho, como se tivessem descoberto a pólvora, quando na verdade só descobriram uma nova forma de taxar o ar que respiramos.

O eleitorado, por sua vez, exibe um brio masoquista digno de estudo científico. Com uma fúria contida e o estômago a dar horas, o povo marcha alegremente em direção às urnas como quem vai a um buffet de rodízio onde a única opção no menu é a nossa própria desgraça.

Caminhamos cegos para o cadafalso do voto. O ato eleitoral tornou-se um eco vazio. Olhando bem, aquele pedaço de papel não vale o preço da árvore que foi abatida para o fabricar. O sistema exala um odor letal a mofo, um perfume vintage a promessas de 1974 que foram guardadas numa cave húmida. A nossa liberdade atual resume-se a escolher a cor dos barrotes da jaula que nos devora. Mas atenção: uma jaula com Wi-Fi de alta velocidade, para podermos reclamar no Twitter enquanto somos triturados.

III. O Apagão Cerebral e o Fim da Festa

Diante do abismo financeiro e social, qual é a resposta dos nossos líderes? Um discurso hirto, pétreo, seco e perfeitamente otimizado para motores de busca. É o festival do “cliché”. Ninguém pensa; limitam-se a fazer eco dos guiões escritos por assessores de imprensa de vinte e poucos anos. O debate político transformou-se num grupo de WhatsApp onde todos gritam e ninguém se ouve.

A inteligência foi exilada para fora do país (provavelmente porque não conseguia pagar a renda) e o discernimento faliu por completo. O que sobra? O vazio absoluto em formato digital. É o rito sem o sagrado: comissões de inquérito que parecem reality shows, debates televisivos com contadores de tempo e publicidade pelo meio, e absolutamente nenhum conteúdo lá dentro.

O peito do cidadão está cansado, a vibrar apenas com a cafeína matinal. O clamor morreu na garganta do povo, que já nem sabe se está a protestar contra o aumento da gasolina ou contra o preço do passe social. E a Democracia, desonrada e cansada de ver tanta selfie no Instagram oficial do governo, assiste à sua própria queda. Uma queda absoluta, bruta e, acima de tudo, transmitida em direto e em alta definição para todo o país.

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