ERROS MEUS, MÁ FORTUNA

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No último artigo que escrevi no Duas Linhas, afirmei que o Partido Social-Democrata Sueco tinha ganhado as eleições e regressaria ao governo, em coligação com os Verdes e com os restantes partidos da esquerda. Enganei-me redondamente. O partido de extrema-esquerda optou, afinal, por abrir caminho a um governo de centro-direita em coligação com a extrema-direita. Estranho? Talvez não, pelo menos nos tempos que correm.

As enormes assimetrias sociais e económicas coexistem com uma incapacidade crescente dos governantes para responder aos problemas dos cidadãos. Resta saber quanto tempo durará este ensaio e como reagirão os eleitores da extrema-esquerda a esta coligação. Na crise social em que mergulharam a Europa e o mundo, os «descamisados» — tal como na Argentina de Juan Perón — procuram no caos uma saída para a crise. Assistimos ao crescimento de um radicalismo que atrai eleitores moderados. Zangados com o sistema, deslocam o voto para os partidos dos extremos. No plano mundial, as alianças são ainda mais estranhas. A sensação do ‘fim da história’, no sentido proposto por Francis Fukuyama, não se confirmou e foi mesmo uma precipitação: o triunfo das democracias liberais não aconteceu. O debate apenas mudou de eixo. De um lado, sociedades liberais assentes em democracias parlamentares. Do outro, sociedades autocráticas ou ‘democracias musculadas’.

Os defensores de governos autocráticos ou musculados privilegiam a segurança, mesmo com a compressão de direitos, liberdades e garantias. Os defensores das democracias parlamentares colocam esses direitos acima da opção securitária. A rigidez deste confronto alimenta a irracionalidade e deixa um oceano de cidadãos moderados à mercê das pulsões mais radicais.

As eleições no Brasil, com a curta vitória de Bolsonaro sobre Lula, na primeira volta, podem ser, dentro de três semanas, o barómetro para a evolução da América do Sul, e determinar a expansão da influência dos Estados Unidos da América e da administração Trump naquela zona do Mundo.

Na Europa, desenham-se dois caminhos, no Reino Unido pondera-se o regresso à União Europeia. Em França, coloca-se em crise a continuidade na União Europeia, quer ganhe Mélenchon, quer ganhe Marine Le Penn. Ou seja, o centro moderado implodiu.

Todos estes confrontos não resultam de opções ideológicas tradicionais, mas sim de modelos organizativos que passam por suprimir os direitos, liberdades e garantias, privilegiando a vertente securitária em relação à imigração e ao islamismo, ou pelo reforço das democracias parlamentares e pela capacidade de encontrar uma resposta para o fluxo migratório.

Os europeus têm de encontrar o caminho e optar entre quatro grandes temas: se querem manter o nível económico que alcançaram; se esse estado é possível de manter no actual quadro económico, tendo em consideração a competitividade dos países dos BRICS, nomeadamente da China; se é preferível baixar esse nível económico e assegurar o Estado de Direito; se acabam com o Estado de Direito e perdem, na mesma, o nível económico em que vivem.

NOTA: Alguns ex-ministros do PSD e do PS, que integraram os governos de Cavaco Silva e António Guterres, publicaram o Manifesto pelo Bom Entendimento em Democracia, com vista à constituição de um governo de Bloco Central. Dos nomes conhecidos, apenas um dos ministros de Guterres – Daniel Bessa- subscreve e manifesto.

Os outros subscritores foram ministros do PSD e conhecidos empresários próximos daquele partido. A única preocupação dos subscritores é o esvaziamento do PSD e a debandada dos apoiantes para o Chega e para o PS. Tal como escrevi, no Duas Linhas, este poderá ser o reordenamento eleitoral do nosso País. Montenegro, que foi atrás do conceito pisca-pisca, ainda não percebeu que foi um erro fatal. Pode agradecer ao seu criador ter contribuído para o possível esvaziamento do PSD.

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