O PAÍS QUE SOMOS E O PAÍS QUE AINDA PODEMOS SER

Há momentos em que um país precisa de se olhar ao espelho. Não para se admirar, nem para se condenar, mas para se reconhecer. Portugal vive hoje um desses momentos. Um tempo em que muitas das certezas que durante décadas sustentaram a nossa ideia de país parecem ter perdido consistência, enquanto novas realidades se impõem sem que tenhamos ainda encontrado as palavras, as instituições e, sobretudo, a vontade colectiva para lhes responder. É precisamente nesses momentos que pensar Portugal deixa de ser um exercício intelectual e passa a ser uma responsabilidade cívica.

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Um país não é apenas o seu território, a sua economia, as suas instituições ou os seus indicadores estatísticos. É também a memória que conserva, a língua que partilha, a cultura que produz, a forma como educa os seus filhos, como trata os seus velhos, como acolhe quem chega e como olha para aqueles que ficam para trás.

Portugal é, portanto, muito mais do que aquilo que aparece nas estatísticas. É uma experiência colectiva. E essa experiência não pode ser reduzida à ideia de crescimento económico, embora nenhum país possa ignorá-lo. Uma sociedade precisa de produzir riqueza, mas precisa também de saber para que quer essa riqueza. Precisa de modernizar-se, mas sem confundir modernização com a simples aquisição de novas tecnologias ou com a transformação acelerada dos modos de vida.

Há uma pergunta anterior a todas as outras: que sociedade queremos construir? Talvez tenhamos passado demasiado tempo a discutir os instrumentos e pouco tempo a discutir os fins. Falamos de crescimento, competitividade, produtividade, transição digital, inteligência artificial, fundos europeus, habitação, saúde, educação e emprego. Tudo isto é necessário. Mas, por detrás de cada uma destas palavras, existe uma pergunta humana que frequentemente desaparece: como queremos que as pessoas vivam? É aqui que começa uma outra ideia de desenvolvimento.

Desenvolver um país não deveria significar apenas fazê-lo crescer. Deveria significar fazê-lo amadurecer. E amadurecer é aprender a reconhecer os limites, corrigir os erros, proteger o que merece ser protegido e transformar aquilo que já não responde às necessidades do presente.

Portugal tem uma extraordinária capacidade de adaptação. A sua história demonstra-o. Somos um país pequeno que aprendeu, muitas vezes, a sobreviver entre circunstâncias maiores do que ele. Fomos capazes de partir, de chegar, de reconstruir, de integrar, de mudar.
Mas essa capacidade de adaptação contém também um risco: o de nos habituarmos demasiado facilmente a sobreviver. Sobreviver não basta.

Uma democracia não pode limitar-se a garantir que as pessoas continuam a viver dentro das dificuldades. Tem de criar condições para que possam viver com dignidade, liberdade e esperança. E esperança não é optimismo. A esperança é uma construção política, social e cultural.
Nasce quando uma criança acredita que estudar pode mudar a sua vida. Quando um jovem consegue imaginar uma casa onde possa viver. Quando um trabalhador sente que o seu trabalho tem valor. Quando uma pessoa idosa não teme tornar-se invisível. Quando alguém que nasceu longe encontra em Portugal não apenas tolerância, mas possibilidade de pertença.

É também aí que se mede a qualidade de uma democracia. Não apenas na existência das instituições, mas naquilo que essas instituições conseguem produzir na vida concreta das pessoas. A liberdade, por si só, não resolve todas as desigualdades. Mas sem liberdade nenhuma sociedade democrática pode verdadeiramente enfrentar as desigualdades.

A igualdade, por sua vez, não significa que sejamos todos iguais. Significa que ninguém deveria ficar condenado à partida pela circunstância de ter nascido num determinado lugar, numa determinada família ou numa determinada condição económica.

E a fraternidade, palavra antiga, talvez demasiado esquecida, lembra-nos uma coisa essencial: nenhuma sociedade se sustenta apenas pela competição. Precisamos uns dos outros.

Talvez esta seja uma das grandes questões do nosso tempo. A sociedade portuguesa envelheceu. A família mudou. O trabalho mudou. A relação entre gerações mudou. A imigração transformou o país. A tecnologia alterou profundamente a comunicação, a aprendizagem e o próprio modo como nos relacionamos.

E, entretanto, continuamos muitas vezes a pensar com categorias que pertencem a um Portugal que já não existe. É necessário actualizar o nosso olhar. Não para rejeitar o passado, mas para compreendê-lo. Um país sem memória torna-se vulnerável à repetição dos seus erros. Mas um país prisioneiro da memória também pode ficar incapaz de imaginar o futuro. Entre a amnésia e a nostalgia existe um território mais exigente: a consciência histórica.

É nesse território que devemos procurar Portugal. Um Portugal capaz de reconhecer aquilo que recebeu das gerações anteriores e, simultaneamente, aquilo que deve entregar às gerações que ainda estão a chegar.

Porque nenhum país é verdadeiramente nosso. Recebemo-lo temporariamente. Cada geração recebe uma parte do país que outras construíram e deixa uma parte daquele que conseguiu transformar. É por isso que pensar Portugal é pensar também na responsabilidade de cada geração. Não apenas no que queremos receber, mas no que estamos dispostos a deixar.Talvez seja esse o verdadeiro sentido de uma comunidade nacional. Não a celebração permanente de uma identidade fechada, mas a capacidade de construir uma casa comum onde diferentes histórias possam caber.

Portugal já é essa casa. A questão é saber se queremos continuar a melhorá-la. E, sobretudo, se ainda somos capazes de imaginar o que ela pode vir a ser. Porque um país não morre apenas quando perde população, riqueza ou influência. Um país começa verdadeiramente a empobrecer quando deixa de imaginar o seu próprio futuro.

Pensar Portugal é, por isso, uma forma de não desistir dele. Não desistir significa olhar de frente para as suas fragilidades sem transformar as fragilidades em destino. Significa reconhecer o que fizemos mal sem negar o que fizemos bem. Significa compreender que nenhuma geração tem o direito de considerar o futuro como uma herança garantida. E significa, finalmente, recuperar uma palavra que talvez esteja a faltar ao nosso vocabulário público: responsabilidade. Responsabilidade perante os que vieram antes. Responsabilidade perante os que hoje vivem connosco. E responsabilidade perante aqueles que ainda não nasceram.

Portugal não está acabado. Nenhum país está. Um país é sempre uma obra incompleta. Talvez a sua grandeza esteja precisamente aí: na possibilidade de continuar a escrevê-lo. E é por isso que vale a pena pensar Portugal. Não para descobrir uma resposta definitiva. Mas para não deixarmos de fazer as perguntas que mantêm uma sociedade viva.

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