COVAS DO BARROSO: QUE SE LIXEM AS BATERIAS DE LÍTIO

Há qualquer coisa de profundamente absurdo no caso de Covas do Barroso. Um território reconhecido internacionalmente como Património Agrícola Mundial está ameaçado por um projeto de exploração de lítio a céu aberto, promovido em nome do interesse público e da transição energética. Como se fosse possível proteger a natureza e, ao mesmo tempo, autorizar a sua destruição. Como se a classificação atribuída pela FAO fosse apenas um título honorífico, sem consequências para as decisões que determinam o futuro daquele território.

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A população não quer a mina. Trata-se de uma escolha entre dois modelos de futuro: de um lado, a preservação ambiental, a agricultura, os recursos hídricos e a continuidade de modos de vida construídos ao longo de gerações; do outro, a exploração industrial de um recurso mineral, com consequências ambientais que dificilmente poderão ser revertidas. Os habitantes sabem o que têm a perder. E sabem que o sacrifício do seu território não é necessário para salvar o planeta.

A concessão mineira é de 2006 e começou por se destinar à exploração de quartzo e feldspato. Foi em 2010 que a empresa Imerys pediu a ampliação da área e a inclusão do lítio, alteração autorizada em 2016, durante o Governo de António Costa. No ano seguinte, os direitos passaram para a esfera da britânica Savannah Resources. Em 2023, depois de a avaliação ambiental ter identificado impactes negativos muito significativos no projeto original, a Agência Portuguesa do Ambiente emitiu uma declaração favorável condicionada a uma versão modificada. Em vez de encerrar a porta a uma exploração incompatível com a preservação daquele território, abriu caminho à sua concretização.

É aqui que começa a verdadeira contradição política. Como pode a Agência Portuguesa do Ambiente, cuja missão é proteger os recursos naturais e avaliar os impactos dos projetos, considerar viável uma mina a céu aberto num território reconhecido pelo seu património agrícola e ambiental? Uma mina não deixa de ser uma mina porque o projeto foi revisto, nem a destruição de um ecossistema se torna aceitável por estar acompanhada de medidas de mitigação.

O Governo invoca o interesse público. Mas de que interesse público estamos a falar? O lítio não é um minério raro à escala mundial, existe um pouco por todo o lado. Apesar da importância estratégica para o fabrico de baterias, não é evidente que isso justifique sacrificar um território desta natureza, contra a vontade da população e perante riscos ambientais reconhecidos no próprio processo de avaliação.

Covas do Barroso e uma mina de lítio

A transição energética não pode transformar-se numa licença para destruir tudo o que se encontra no caminho da indústria que a serve. A chamada economia verde só faz sentido se for capaz de reduzir os danos ambientais, e não se deslocar esses danos para territórios onde a resistência política é menor. De que serve multiplicar automóveis elétricos se a produção das baterias e a extração das matérias-primas necessárias implicarem a destruição de ecossistemas, a contaminação dos solos e a degradação dos recursos hídricos? Não basta substituir o motor de combustão por uma bateria para que um modelo económico se torne sustentável e amigo do ambiente.

Há aqui também uma questão de legitimidade. Com que legitimidade pode o Estado impor a uma comunidade a transformação radical do território onde vive, quando essa comunidade escolheu precisamente preservá-lo? Se o interesse público significar sempre aquilo que o Governo e as empresas declaram estratégico, a vontade das populações transforma-se num incómodo administrativo, a participação pública num ritual e a proteção ambiental numa formalidade que se contorna quando se torna inconveniente.

Neste mês de outubro de 2026, depois de sucessivas decisões administrativas favoráveis à empresa e de uma nova autorização para retomar os trabalhos, a população voltou ao bloqueio no terreno. Quando os procedimentos institucionais parecem incapazes de travar aquilo que os habitantes consideram uma ameaça ao seu futuro, resta-lhes procurar nos tribunais a última possibilidade de defesa.

Mas pode uma decisão judicial impedir um projeto que o Governo considera de interesse público? Pode. A autorização política não coloca um projeto acima da lei, nem impede os tribunais de suspender atos administrativos ou de os anular, quando se verificam os pressupostos legais. Mas perante a lentidão tradicional da justiça e a urgência da indústria, é possível que, entretanto, os danos comecem a ser irreversíveis.

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A ironia é que os habitantes de Covas do Barroso podem se vejam obrigados a recorrer à Justiça para defender aquilo que, em princípio, o Estado deveria proteger: um território cujo valor agrícola e ambiental foi reconhecido internacionalmente. É-lhes pedido que aceitem a destruição em nome de um futuro sustentável, como se a sustentabilidade pudesse nascer da destruição daquilo que ainda é sustentável.

Se a transição energética exige que se destrua um património agrícola mundial, que se imponha uma mina a uma população que a rejeita e que se coloquem em risco recursos naturais insubstituíveis, talvez seja a própria ideia de transição que precise de ser revista.

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