UMA PEDRA ANTIGA ATRÁS DA OUTRA

Altar é, mas… e depois?

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Arqueólogo em campo pode sempre agradar-lhe a companhia, mas o seu olhar é como diziam os Antigos, a propósito de negócios de feiras: «Um olho no burro, outro no cigano!» (salvo seja!). O achado desta pedra é disso prova bastante!

E o pior é que isso é mesmo vírus que se pega! Quem, alguma vez, acompanhou arqueólogo em prospecção pelos campos é muito capaz de ficar com a moléstia de tudo querer ver com atenção. Já o mesmo se passa quando levamos uma turma a visitar um sítio arqueológico: há sempre um dos estudantes que, a dado passo, vê no chão um caco ou uma pedrinha fora do normal e corre junto do professor: «Isto tem interesse, sôtôr?».

Boa moléstia, esta, que também atacou Fernando Moreira, que acompanhara José Carlos Santos, em algumas deambulações com vista à elaboração da Carta Arqueológica de Tabuaço, que a respectiva Câmara Municipal viria a publicar em 2025.

Pois Fernando Moreira falara, recentemente, a José Carlos Santos da existência de um silhar almofadado, reaproveitado na Casa da Colegiada, de que se deu conhecimento aqui.

Sucede que, depois de se visitar o imóvel, na companhia da mãe da proprietária, se encontrou mais um bloco de granito almofadado. Blocos almofadados, esclareça-se, são sempre boa ‘isca’ para um arqueólogo, na medida em que, constituindo um tipo de aparelho muito usado pelos Romanos, pode indiciar a presença, por perto, de mais vestígios dessas eras, eventuais construções onde tais pedras possam ter sido aproveitadas.

Acontece, porém, que os achados não se ficaram por ali: semanas depois, o mesmo Fernando (bem haja!) enviou fotografias de várias pedras que lhe chamaram a atenção, aquando da demolição da fachada voltada a noroeste do edifício (em fase de restauro). Uma delas despertou particular interesse, por aparentar ser uma ara romana. E, na verdade, tudo leva a crer que o será! O tão desejado primeiro monumento epigráfico romano identificado no concelho de Tabuaço!..

A Casa da Colegiada fica em Barcos, localidade que pertence, administrativamente, à União das Freguesias de Barcos e Santa Leocádia. Penhoradamente se agradece à sua proprietária, D. Bertilina Ferreira, as facilidades concedidas para o estudo do monumento.

Trata-se da parte inferior de uma ara de granito de grão fino de tonalidade esbranquiçada. Mede 33,5 cm de altura, 24,5 a 31 de largura e 20,5 a 26,5 cm de espessura. A fractura, oblíqua, ocorreu sensivelmente abaixo da meia altura. Resta, ainda, a moldura da base, nas quatro faces, moldura que seria de garganta reversa seguida de escócia também reversa. Portanto, um monumento a seguir os cânones morfológicos romanos.

A pedra quando foi encontrada
A face principal da ara na posição correcta

Perdeu-se a inscrição que teria na face principal, com letras de leve recorte, se atendermos ao que parece ler-se na última linha: um E quase imperceptível seguido de um amplo X e de V. Na linha anterior, quiçá se terá gravado AEL, mas sem garantia.

EX V deverá desdobrar-se em EX V(oto), «por voto», o que determina estarmos perante uma árula, pequeno altar votivo a uma divindade, cuja identificação estaria na parte superior perdida, onde se deveria ler também a identificação do(a) dedicante, que, em virtude de promessa feita, mandou esculpir o monumento.

A difícil decifração do letreiro…

Em suma: tanto as pedras almofadadas de que já se deu notícia como, agora, este fragmento de ara auspiciam outras descobertas. De muito longe não terão vindo para incorporação na Casa da Colegiada. E, doravante, todos os olhares serão poucos para outros vestígios romanos por aí virem a ser encontrados.

(em colaboração com José Carlos Santos)

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