A autora, radicada em Cascais há mais de 40 anos, tem no seu palmarés livros de poesia e romances históricos de assinalável êxito; a este último, porém, ainda que susceptível de ser considerado ‘romance histórico’, porque evoca ambientes e situações próprias da História, será, de preferência, um romance só, porque não faltam as paixões, os amores incompreendidos, as traições e, até, conjunturas próprias de… romance policial!


Aliás, porventura aí reside o entusiasmo que desperta, na medida em que se verifica, de facto, intrincada caça ao que se designa «amuleto» e que será o documento em que Gaudì, quiçá em linguagem cifrada, consignou preciosas ilustrações e desenhos acerca do modo como, após a sua morte, se deveria completar o templo da Sagrada Família, ícone maior da cidade de Barcelona.
E, nesse âmbito, dado haver suspeitas de quem o terá comprado, sem ter bem a noção do que era, num antiquário de Lisboa, o entrecho do romance situa-se, primordialmente, nas diligências – em que vale tudo, até matar! – para que o documento venha ficar, alfim, a bom recato, no âmago do próprio templo, a guardo de uma sociedade secreta, propositadamente criada para o efeito.
Prende-nos, pois, do princípio até ao fim, tendo de permeio os inevitáveis enleios amorosos a emoldurar o relato e o recurso a aviões particulares para, num ápice, se vir de Barcelona ao aeródromo de Tires ou daqui partir para Paris… Descrição de ambientes que a autora bem conhece, não se eximindo, aqui e além, a mostrar a sua notável experiência em preparar uma ementa de fazer crescer água na boca!
Prosa bem burilada, a de Maria Helena Ventura, a preciosamente servir esses intentos. Permita-se-me, por conseguinte, que, em jeito de aperitivo, destaque algumas passagens:
– a beleza inequivocamente patente na exacta pintura a revelar súbita mudança de estado de espírito: «Como, num instante, uma espécie de vento brando se converte em vendaval e agita os momentos de prazer em novelos emaranhados» (página 157);
– «O que é a loucura senão o colorido de um sonho?» (página 175);
– a crítica certeira e lapidar: «O mundo está em desespero, por darmos demasiadas oportunidades a quem não presta e subjuga os que podiam construir e amar» (p. 190);
– os toques de mui suave sensualidade: «A seguir a um banho curto e cheiroso, os nossos corpos encaixaram na perfeição, as bocas molhadas pediram repetição da intimidade, as mãos carentes de afagos pelo corpo divagaram»; «Depois voltou a beijar-me docemente, como se uma chuva miúda inundasse a minha boca» (páginas 63-64);
– as descrições inesperadas: «A tarde a escorregar para o horizonte sôfrega pela noite» (p. 66); «Já uma toalha dourada caía sobre a verdura dos campos, incrustava-se em finos trechos do rio, serpenteando entre caniçais, e as aves saíam em bandos direitas a um baptizado» (p. 81-82); «Nunca mais seriam arrastados como bola de poeira ao sabor de ventos ruins» (p. 121);
– a análise: «Até um cavalheiro tem vielas secretas na alma» (p. 102);
– a cozinheira: «Picou cebola, espargos verdes, colocou um fio de azeite na frigideira e deixou amolecer, ao mesmo tempo que eu batia dois ovos com sal e pimenta» (p. 16);
– «As mulheres vigiavam o cabrito, o arroz de forno, o leite-creme para cerca de 50 pessoas» (p. 81);
– «Colocar os bifes num prato fundo com o molho e, depois de limpar a frigideira com papel absorvente, estrelar dois ovos como ele nunca comera: sal na clara, pimenta no centro da gema (p. 119-120»;
– «Eu cozinho batatas de todas as maneiras e ficam deliciosas» (p. 150).
Esta, a minha maldosa conclusão em acepipes – para despertar o apetite à leitura!…




Muito grata por mais esta atenção, estimado e distinto Amigo.
Gosto muito de destaques. Agradeço os das passagens mais bonitas, mas concordo que foi uma “maldosa” conclusão.
Eu a tentar esquecer acepipes e eles a virem ter comigo. Uma perfeita tentação de repetir os pratos aqui mencionados…
Um grande abraço.
Comecei a ler este livro ontem e já vou quase no fim por ser fácil de ler e tão atrativa a sequência da trama.
O desejo é chegar ao fim e conhecer como se juntam as peças mais importantes deste livro tão diferente dos romances da autora como ela tinha prometido numa entrevista na Radio Observador.
Confesso que apesar de ser seu admirador no romance histórico estou a devorar esta escrita/história menos densa mas ainda mais aliciante.
Parabéns Maria Helena Ventura.