A NOTÍCIA SOBRE O ATENTADO CONTRA VIKTOR ÓRBAN

A RTP noticiou, com pouca prudência, que a Rússia estava a preparar uma encenação, um falso atentado contra Viktor Órban, o enfant terrible da União Europeia, primeiro-ministro da Hungria que está em campanha eleitoral. A ideia seria provocar uma reação pública favorável à campanha eleitoral de Órban.

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A notícia da RTP repete uma outra publicada pelo The Washington Post. Diz que esse jornal dos EUA teve acesso a um relatório dos serviços secretos russos onde se equacionava encenar uma tentativa de assassinato contra Viktor Orbán. Os verbos estão no condicional, as fontes são indiretas, e a distância entre o facto e a sua verificação devia ser suficientemente grande para caber lá dentro a dúvida.

Mas o essencial não está nos detalhes do plano. Está no paradoxo que ele encerra. Se a operação alguma vez existiu, deixou de poder existir no momento em que foi publicada. Um atentado encenado não resiste à luz do dia. Se, pelo contrário, nunca existiu, então cumpriu agora a sua única função plausível: entrar no circuito mediático, instalar-se como hipótese, insinuar-se como possibilidade política. Em ambos os casos, o resultado é o mesmo: a realidade foi alterada, não pelos factos mas pela circulação da sua versão hipotética.

O The Washington Post fez aquilo que se  costuma fazer quando se trabalha com informação que não pode ser verificada de forma independente. Não afirma peremptoriamente, protege-se com linguagem cautelosa e fontes qualificadas. Nada de particularmente censurável. O problema é que quando a matéria-prima é opaca, a própria publicação torna-se parte do fenómeno que pretende revelar.

É aqui que entra a RTP. Ao reproduzir a notícia, sem acrescentar mais nada, limitando-se a reproduzir o que foi publicado na origem, mesmo mantendo os verbos no condicional, transforma uma hipótese remota num facto mediático. Não é preciso afirmar que algo aconteceu, basta garantir que foi dito por alguém. Mas é uma fonte suficientemente distante e bastante inacessível. Assim se constrói uma cadeia de credibilização automática: um alegado relatório russo, filtrado por serviços europeus, publicado por um jornal americano, citado por um canal público português. Hollywood não faria melhor. A cada etapa, a incerteza dissolve-se com a perceção criada.

Nota-se que os tempos verbais mudam quando se menciona a “vontade” da Rússia.  Por exemplo: “os serviços de informação russos sugeriram” (em vez de terão sugerido); “sugestão de encenação do assassinato do atual primeiro-ministro húngaro revela o grau de importância que Moscovo atribui às eleições na Hungria” (e não alegada sugestão); “a iniciativa russa surge num contexto de aparente queda de popularidade de Orbán”.

recortes da notícia da RTP

Acresce que nem mesmo o jornal americano viu o tal relatório, tudo é baseado num relato que terá sido confidenciado por uma fonte europeia, pelo que a RTP talvez se tenha precipitado ao publicar isto. Num contexto internacional marcado por guerra híbrida e operações de influência, esta engrenagem faz parte do jogo. A informação deixou há muito de ser apenas aquilo que descreve o mundo; passou a ser uma ferramenta para o moldar.

Confiar num jornal como o The Washington Post não é, em si, um erro. Mas é preciso saber ler. E não embarcar alegremente em manobras de propaganda política.

No fim, ficamos com uma notícia que não pode ser confirmada, um atentado que não aconteceu e uma narrativa que, ainda assim, produziu efeitos. Se o plano era manipular perceções, não é claro que tenha falhado.

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