A análise da crise na Guiné-Bissau não pode ser feita de forma seletiva. O 26 de Novembro de 2025 não surgiu no vazio. Foi precedido por um clima político altamente inflamado, por discursos de crescente radicalização identitária e por uma polarização que ameaçava transbordar para além do plano institucional.
Um país à beira da fratura
A Guiné-Bissau não vive apenas crises políticas; vive crises acumuladas de legitimidade institucional. No período pré-eleitoral observavam-se sinais claros de instrumentalização de fatores étnicos e religiosos, com tentativas evidentes de mobilização segmentada no seio das Forças de Defesa e Segurança.
Num país onde a classe castrense sempre teve peso estrutural, qualquer sinal de alinhamento político identitário dentro dos quartéis constitui fator de risco sistémico. Ignorar este contexto é produzir uma leitura incompleta da realidade.
A estratégia de polarização
Não se pode escamotear que setores ligados a Domingos Simões Pereira e a Fernando Dias foram acusados de recorrer a uma narrativa identitária como instrumento de mobilização política.
A tentativa de transformar maiorias sociológicas em maiorias militares teria consequências imprevisíveis. A história recente da Guiné-Bissau demonstra que fraturas dentro das Forças Armadas raramente terminam de forma pacífica. O risco de confrontação era real.
Suspeitas que agravaram o ambiente
Circularam amplamente imagens e relatos associando figuras da campanha da oposição a indivíduos referenciados em investigações sobre narcotráfico. Não cabe aqui substituir tribunais. Contudo, num Estado frágil, a perceção pública de infiltração criminosa no processo político agrava exponencialmente a instabilidade.
O silêncio sobre estes elementos distorce o debate.
O 26 de Novembro como contenção
É legítimo defender que a democracia se constrói com eleições. Contudo, eleições realizadas num ambiente de fratura institucional profunda podem funcionar como detonador, e não como solução. Para muitos setores da sociedade, o 26 de Novembro representou uma contenção de emergência destinada a evitar um confronto aberto entre fações políticas e segmentos armados. A alternativa poderia ter sido um cenário de violência generalizada, com consequências catastróficas.
O processo interrompido
Sob a liderança de Umaro Sissoco Embaló, o país registava sinais de reorganização institucional e de afirmação diplomática externa. Havia desafios estruturais, sem dúvida. Mas também existia um processo de estabilização em curso. A disputa eleitoral radicalizada ameaçava comprometer esse percurso.
O verdadeiro desafio
A questão central não é glorificar soluções de exceção. Nenhum patriota deseja que intervenções militares se tornem norma política.
O desafio consiste em transformar o episódio de 26 de Novembro numa oportunidade de auditoria transparente ao processo eleitoral, esclarecimento das alegações de instrumentalização identitária, garantias públicas de neutralidade das Forças Armadas, compromisso formal de todas as forças políticas com a paz civil e construção de um pacto republicano duradouro.
Sem resolver as causas estruturais da instabilidade, novas eleições poderão apenas reproduzir as mesmas tensões. A Guiné-Bissau esteve perigosamente próxima de uma fratura interna profunda. Reduzir o 26 de Novembro a uma leitura simplista ignora os fatores que precipitaram a crise.
A democracia exige mais do que eleições; exige instituições sólidas, cultura republicana e responsabilidade coletiva. O momento atual não deve ser explorado para polarizações adicionais, mas para uma reconstrução séria do consenso nacional.
O país precisa menos de narrativas parciais e mais de compromisso histórico. A alternativa é regressar ao ciclo vicioso que todos afirmam querer evitar.



