Os apelos ao voto, em tempo de eleições, insistem na necessidade de “votar em consciência”. A expressão pressupõe que os cidadãos se informem previamente sobre os programas das candidaturas, sobre as promessas eleitorais e sobre a viabilidade dessas promessas. A realidade, porém, é bem diferente: a grande, grande maioria das pessoas nunca leu um programa eleitoral, seja de partidos políticos, seja de candidatos individuais, como sucede nas eleições presidenciais. As pessoas votam por simpatia ou por clubite partidária.
Depois do ato eleitoral, o problema agrava-se. Ninguém verifica de forma sistemática se as promessas foram cumpridas, se os eleitos ultrapassaram o âmbito daquilo que prometeram ou se, pura e simplesmente, mentiram, substituindo compromissos sufragados por agendas ocultas que nunca foram apresentadas aos eleitores. Não existem mecanismos democráticos eficazes que penalizem este tipo de fraude política. Esta impunidade é, talvez, uma das maiores fragilidades dos regimes democráticos. Enganar o eleitorado não tem consequências reais.
Na atual eleição presidencial, multiplicam-se os casos de candidatos que mentiram abertamente durante a campanha, prometendo fazer aquilo que nem sequer se enquadra nas competências constitucionais do Presidente da República. Tudo isto é triste, tudo isto é fado, diria Amália Rodrigues. E apenas a sátira do candidato que promete vinho tinto nas torneiras, Ferraris para todos e uma dançarina cubana para mim, consegue fazer-me sorrir.



