PEDRAS ROMANAS

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Via romana com miliário (montagem fotográfica)

Uma coluna perdida? Dá-me jeito aqui!

Certamente terá sido este o destino provável de muitos miliários romanos do território nacional: o seu aproveitamento para colunas de alpendres ou telheiros. Este conseguiu-se recuperar!

Como a designação indica, miliário era a coluna de pedra que, numa via, dava informação da distância, em milhas, a partir da cidade principal onde essa via começara. Em princípio, postular-se-ia que fosse colocado um em cada milha; pensa-se, no entanto, que, por razões óbvias, designadamente financeiras e logísticas, mas também por não ser, de facto, necessário, poder-se-ia, por vezes, dispensar o letreiro, dado ser dispendiosa a gravação e mera coluna assinalaria o trajeto.

Importará, no entanto, acentuar que o traçado de vias constituía, sem dúvida, uma das principais preocupações dos Romanos, dadas as implicações político-económicas e militares que daí advinham. Por isso também que, do ponto de vista histórico, seja importante o estudo e a preservação desses monumentos.

Um miliário preservado

Escapou a eventual reutilização o miliário romano, de granito, que se mostra na Quinta de Antepaço, freguesia de Arcozelo, concelho de Ponte de Lima, distrito de Viana do Castelo. Integrava, aliás, uma série de mais quatro, oportunamente levados para a Quinta de Faldejães, conjunto que está classificado como «monumento nacional» (Decreto de 16-06-1910, DG, n.º 136, de 23-06-1910), dada a sua ligação à via romana que ia de Braga a Tuy.

Este miliário – embora já tenha sido dado a conhecer e figure, portanto, nos livros de especialidade – merece uma palavra mais. Primeiro porque é propriedade particular e o proprietário, Gonçalo Abreu Lima (a quem agradecemos as facilidades concedidas para a elaboração desta nota) faz questão de, orgulhosamente, o preservar e dar a conhecer.

Apresenta a coluna seis orifícios, mede 130 cm de altura acima do solo, 48-52 cm de diâmetro e é de 173,5 cm o perímetro na parte superior.

Sucede, porém, que, como amiúde acontecia, está o letreiro muito mal conservado, devido à erosão climatérica e aos maus tratos por que indubitavelmente passou. As poucas letras de que nos apercebemos dão-nos a entender que nele se mencionava o nome do imperador em cujo reinado se gizou a via para que foi pensado. O nome e os títulos que lhe haviam sido atribuídos. Sabemos, todavia, apesar de tudo, que o D inicial, felizmente bem conservado, indicará a palavra domino, que se traduz por «ao senhor» ou, numa acepção cronológica, «no tempo do Senhor». E deveria seguir-se a identificação do imperador em exercício.

miliário na Qta de Antepaço

Tão singular letra detém, no entanto, uma importância maior do ponto de vista cronológico, porque tal atributo imperial apenas se tornou comum a partir de finais do século III, quando o chefe supremo dos Romanos, para melhor concitar o agrado do povo começou a ser chamado de Senhor, «o Nosso Senhor», dominus noster. Ou seja, através dessa forma aparentemente inocente de trato, escondia-se o aumento do poder, correspondendo ao que se tem designado a «dominização do poder»: pouco a pouco, o imperador deixou de ser o primus inter pares – ‘o primeiro entre os iguais’ – para ser «o senhor» e, consequentemente, os cidadãos passaram a ser ‘súbditos’, na medida em que também o senhor assumia características divinas. Nas moedas, o seu busto aparece ornado de uma auréola, como Justiniano está representado no conhecido mosaico de Ravena.

Na imagem da esquerda, recorte da figura do Imperador Justiniano, nesta imagem o plano geral do mosaico onde se vê Justiniano e a sua corte

Não deixa também de ser curioso verificar que, embora num contexto bem diferente, os Cristãos passem a identificar Deus como Nosso Senhor, invocação que permanece até aos nossos dias. Aliás, nessa já longínqua época, não era raro uma comunidade declarar-se devota do númen e da majestade do imperador, sintoma claro de que o poder político estava envolvido numa auréola religiosa…

(em colaboração com José Carlos Santos)

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