O NOVO XERIFE

Quando, no início de 2025, J.D. Vance declarou aos líderes europeus que “há um novo xerife na cidade”, estava a fazer mais do que retórica política. Estava a anunciar, sem rodeios, o regresso da lei do mais forte às relações internacionais.

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colagem fotográfica

O alvo desse discurso de fevereiro de 2025 foi a Europa. Vance acusou os governos europeus de laxismo migratório, fragilidade militar e de tentativas de limitar o crescimento político da extrema-direita. Falava em nome de Donald Trump, para quem a imigração é uma ameaça existencial e a soberania europeia um assunto a gerir a partir de Washington.

Um discurso que escondeu a verdadeira origem do mal: o principal fator de instabilidade global não são as políticas europeias, mas a própria administração norte-americana.

O rapto do Presidente da Venezuela e da sua esposa por forças dos Estados Unidos, sob acusações formuladas por juizes norte-americanos, constitui uma violação grave do direito internacional. Trata-se da detenção de um chefe de Estado soberano, sem mandato internacional e à margem das Nações Unidas.

Este rapto insere-se num padrão mais amplo. As ameaças dirigidas a países da América Latina, Colômbia e Cuba, ao Canadá, ao Irão, e até à Dinamarca revelam uma estratégia de intimidação política, pressão militar e controlo de recursos estratégicos. O discurso da segurança serve apenas de cobertura a uma lógica de dominação.

A apreensão de petroleiros em águas internacionais, com base exclusiva em sanções impostas por Washington, confirma esse desvio. Não há legalidade, não há consenso jurídico, não há respeito pela soberania de terceiros. Há imposição de poder. São atos de pirataria.

Perante este quadro, a reação internacional é débil. A União Europeia limita-se a declarações cautelosas, a NATO finge que não se passa nada e as Nações Unidas assistem à erosão da sua própria autoridade. A ordem internacional baseada em regras está a ser substituída, sem resistência séria, por uma ordem baseada na força.

O “novo xerife” não protege a lei. Suspende-a quando lhe convém. “Governa” por ameaça e transforma o abuso de poder em política externa.

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