O contra-ataque linguístico

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O abusivo recurso à terminologia inglesa está a gerar mui louvável contra-ataque linguístico. Ainda há dias, a local de um jornalista algarvio me obrigou a ir ao dicionário. Hugo Rodrigues não esteve com meias medidas e atirou: «Pode ver nesta reportagem não só vídeos que provam a força da bezaranha que atingiu Faro, mas também fotografias dos estragos que esta causou».

Claro, fui informar-me do significado: «vento forte e incomodativo». Mais: vim a saber que, durante a pandemia, os municípios da região algarvia criaram um programa cultural local que veio dar alento ao sector. E chamava-se… Bezaranha!

Já sugeri a inclusão do termo no Dicionário online da Academia das Ciências de Lisboa e estou certo de que estamos felizmente a assistir ao saudável contra-ataque das línguas locais contra esta bárbara invasão linguística, qual epidemia.

E como, em relação a questões pertinentes não é raro termos a Real Academia Sueca de Ciências a dar prémios Nobel ex aequo a dois ou mais cientistas, que, sem saberem uns dos outros, chegaram a conclusões idênticas, também neste caso acabei por conhecer duas curiosas reacções linguísticas, uma na região saloia e outra nos arredores de Castelo Branco.

Celestino Costa (já aqui o referimos) escreveu A Fala da Minha Gente (Associação Cultural de Cascais, 2024) a mostrar como, foneticamente, as frases e palavras dos saloios assumiam formas estranhas, de acordo com a oralidade:

Ora acontece que, nas suas crónicas, o Doutor João Lourenço Roque vai pelo mesmo caminho. Assim, no mais recente volume Digressões Interiores 4, editado por Palimage (Coimbra, 2025) incluiu mais duas crónicas dedicadas a essa «Linguagem à moda antiga». E se Celestino Costa quis documentar, como se viu, o uso dessas expressões. o mesmo intuito teve João Lourenço Roque. Não me escuso, pois, a transcrever duas dessas suas expressões, não apenas pelo seu tipicismo, mas também porque facilmente imaginamos as cenas referidas, que não deixam de nos fazer sorrir – função que muito nos agrada quando para tal, por toda a parte, bem escasseiam motivos:

2 COMENTÁRIOS

  1. Texto muito engraçado, José d’Encarnação, em que aprendi uns vocábulos com força para arremessar contra o que vem de fora.
    Há expressões em inglês cujo significado desconheço. E há quem use essa “ignorância” para se vangloriar de saberes, sobretudo em definições de matéria informática, que não domino.
    Pois não. Mas se for ver a tradução, logo consigo (conseguimos todos) arranjar a expressão portuguesa que, entre todas, traduza fielmente o significado. Então, toca a usá-la.
    Quanto às usadas em Portugal, bezaranha não chegava lá.
    Quando mudei de escola em criança, ouvia muito os rapazes oferecerem uns aos outros galhetas (entendia-se, bolachas) e lamparinas. Esta nunca entendi. Talvez porque havia estaladas, diziam, que faziam ver estrelas…
    E uma vez numa briga um dos mais velhos sugeria “dar-lhe com um pau de sabugueiro”.Verdadeiros meninos das cavernas, mas com um léxico próprio e “estimulante”, Um abraço.
    Grata pelo texto.

  2. Caro José, questo articolo si può applicare tale e quale alla realtà italiana. Usare termini in lingue Estere sembra che conferisca “un tono superiore” al relatore in un convegno o in una presentazione letteraria o culturale in genere!….
    Figuriamoci!
    Poi l’uso delle parole angloamericane per la tecnologia è spropositato! Nel connettermi alle app o alla rete sono costretta personalmente, a consultare il significato nell’uso tecnologico specifico e come me tante persone.
    Dovremmo fare come i francesi che traducono tutto e USANO LA TERMINILOGIA NELLA LORO LINGUA.
    Hai fatto bene a trattare questa tematica.
    Buona giornata e buon lavoro.
    Eugenia Serafini 💐

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