MATA-SE O BICHO, ACABA A PEÇONHA

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Do conflito fanático entre as crenças resultam amiúde destruições inúteis e lamentáveis. Em todos os tempos e lugares.  Desnecessário será falar de estátuas que se apeiam, de monumentos que se espedaçam – na presunção de que, assim se mata o bicho, se acaba a peçonha e mais facilmente tudo se leva de vencida.

No tempo dos Romanos, condenava-se a memória do imperador indigno martelando-lhe o nome nas inscrições em sua honra: era a damnatio memoriae.

Vieram os Cristãos e deceparam-se as estátuas de imperadores, de nobres e de divindades e – não raro! – esse mármore no forno viria a ser transformado em cal.

Mostra-se no Centro de Interpretação de Penedono, em lugar de destaque – e com razão! –  tosco baixo-relevo de uma figura humana, adossada ao que sabemos ser, pela tipologia, um altar romano. Pedro Manuel Sobral de Carvalho, no Roteiro Arqueológico do Concelho de Penedono, editado pela Câmara Municipal de Penedono em 1989, diz (p. 79) que a peça estava «num pequeno casebre, junto à Quinta da Arca, a cerca de 1 km a sul da aldeia de Arcas», freguesia de Granja, informando que a imagem era «localmente adorada como Santa Apolónia». «Tem uma veste visível ao cobrir as ancas», adianta Pedro Carvalho, «a cabeça possui orelhas salientes, olhos bem cavados e boca; não tem cabelo nem nariz; os braços acompanham o corpo até ao ventre, onde inflectem e unem. As pernas, sem pés, assentam numa base».

Não se explica a razão da escolha de Santa Apolónia – que a haverá – mas o certo é que, na verdade, segundo o Hagiológio, esta virgem e mártir que viveu em Alexandria, no século III, celebrada a 9 de Fevereiro, é invocada como a padroeira dos dentistas, da cirurgia dentária e de quem sofre de dores de dentes, pelo que é frequentemente iconograficamente representada a segurar uma tenaz ou um alicate com um dente. Na Península Ibérica, o culto à santa está fortemente disseminado em paróquias rurais e urbanas de comunidades do Norte (Galiza, Astúrias, País Basco, Castela e Leão); recorde-se que a designação de Santa Apolónia para a conhecida estação de Lisboa deriva do facto de ter sido construída no local onde existia um convento com esse nome.

Pese embora essa crença, o baixo-relevo nada tem a ver com a mártir, porque faz parte integrante de um altar (votivo ou funerário) romano. Votivo, se dedicado a uma divindade, que, nesse caso, podia ter sido representada no baixo-relevo; se funerário, a imagem seria a do defunto.

Nesse âmbito, porém, o fanatismo (ou a ignorância) entraram em acção, pois que todo o texto original romano em latim, gravado na face dianteira do altar foi integralmente picado, para que do período pagão vestígio agora não restasse mais.

A palavra TURIIVS que, por estar inscrita no capitel, milagrosamente escapou ao camartelo aí está a denunciar a origem: Tureus, ou Tureius como tem sido amiudadamente assinalado dos livros da especialidade, é um antropónimo da época romana, que etimologicamente remonta, todavia, ao período pré-romano.

É bem sabido que às pedras – sobretudo as que ostentam letreiros – foi dado o privilégio de terem uma mensagem a transmitir. Esta, da Quinta da Arca, Granja, Penedono, na sua singeleza, tem, na verdade, uma história para contar.

(em co-autoria com José Carlos Santos)

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