O LOUREIRO DA QUINTA DO VALBOM DAS MINHAS MEMÓRIAS DE INFÂNCIA

A Quinta de Valbom era, na minha infância, uma espécie de paraíso.

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Ali nascia, como no Éden que os antigos Livros de Horas pintavam, um riozinho, na mina de água que, de tão fresca e tão límpida, se aproveitava para beber e logo se dividia, como o rio do Éden, em quatro braços que, de tão modestos ficaram sem nome, estes riozinhos, que iam regar pelo estio fora quartéis de feijões, hortas de morangos, milhos de hastes já arvoradas e os renques de macieiras e pessegueiros que bordejavam os caminhos dessa Quinta de memória e de sonho.

Também era terra de vinha e meloal, de figueiras, de castanheiros sem conto, de mato e pinhal, mais de pão, fartos centeais ondulando em Maio com o pendão, rolheiros grandes, na eira, no começo de Agosto, palheiros fartos por todo o ano e o pão na masseira levedando devagar.

No casario da Quinta morava a Tia Piedade. Ela e outros herdeiros partilhavam aquela herança de família.

Sobre um cômoro, perto da mina e dos cortiços das abelhas, crescia, nem a tia sabia desde quando, um loureiro que meus braços de menino nunca foram capazes de abraçar. Tinha uma copa redonda, de verde-escuro e era assim todo o ano, como as oliveiras.

No tempo certo, ao findar da Primavera, a mãe e a tia cortavam raminhos compridos de loureiro e punham-nos a secar, à sombra, na janela, sobre um largo tabuleiro e guardavam depois as folhas secas em saquinhos de linho e utilizavam-nas nessa delícia de cozinhados que elas inventaram e mais ninguém fez igual ainda. E, no Domingo de Ramos, também levavam para a igreja raminhos de loureiro que, depois, guardavam pendurados no frontal de madeira a espaldas da cozinha.

Mais tarde, quando fui estudar para a cidade, aprendi a história, que era ao mesmo tempo linda e triste, dessa árvore estranha que é o loureiro, de que se não colhiam frutos, só flores.

folha de louro

Era assim, como vinha nos livros:

Um dia, Cupido, o pequeno deus travesso que carregava ao ombro uma aljava cheia de flechas, resolve vingar qualquer antiga afronta de Apolo, filho de Zeus, Senhor dos Céus antigos. E despede, então, uma flecha de ouro ao coração de Apolo, que se enamorara perdidamente de Dafne, a belíssima filha de um rei que descuidadamente se banhava no rio.

Outra flecha, esta de chumbo, atinge o coração da ninfa, que se torna indiferente ao amor e a quem só apraz a liberdade da floresta.

Apolo, desesperado, bem persegue a ninfa por todos os caminhos. Mas ela se esquiva sempre. E quando já não pode, com seus recursos, escapar aos braços de Apolo, nem lhe chega a ajuda de seu pai nem de um qualquer deus protector, metamorfoseia-se em loureiro; e Apolo apenas pôde abraçar o tronco do loureiro, a árvore que se tornará a sua árvore, que se tornará o símbolo da eterna juventude, da força e da braveza e da frescura dos dias.

Dos seus ramos os reis antigos mandavam tecer as coroas com que coroavam, depois, as altivas frontes dos poetas e dos heróis. Os seus místicos ramos coroam ainda hoje as frontes de todos os vencedores.

Mas quem se lembra ainda desta história antiga?!…

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