INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL: O FUTURO AINDA É HUMANO

Há momentos na História em que uma sociedade percebe que alguma coisa mudou antes mesmo de conseguir explicar exactamente o que mudou. Estamos a viver um desses momentos.

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A Inteligência Artificial entrou nas nossas vidas sem pedir licença. Está nas empresas, nas universidades, nos hospitais, nas redacções, nas escolas e nos serviços públicos. Escreve, traduz, calcula, investiga, programa e responde. Faz em segundos tarefas que, até há pouco, exigiam horas de trabalho humano.
Mas a questão decisiva não é saber até onde chegarão as máquinas. É perceber o que acontecerá ao homem quando uma máquina começar a fazer coisas que, durante séculos, considerámos manifestações da inteligência humana.
A história da tecnologia é também a história da transformação do trabalho, das sociedades e das relações entre as pessoas. A diferença, agora, é que não estamos apenas a automatizar a força física ou tarefas repetitivas. Estamos a entrar no território do pensamento, da linguagem, da criação e da decisão. O que está em causa não é apenas uma revolução tecnológica. É uma questão de civilização.

O trabalho e a condição humana

A Inteligência Artificial pode libertar-nos de tarefas inúteis, melhorar os cuidados de saúde, democratizar o acesso ao conhecimento e ajudar a resolver problemas que ultrapassam a capacidade individual. Seria absurdo ignorar estas possibilidades ou recear toda a inovação.
Mas seria igualmente ingénuo acreditar que o progresso tecnológico produz, por si só, progresso humano.
Quem beneficiará desta transformação? Quem controlará os instrumentos, os dados e a riqueza que eles geram? Que acontecerá aos trabalhadores cujas competências deixem de ser necessárias? E que sociedade construiremos se a eficiência económica se tornar o principal critério para avaliar o valor das pessoas?
Uma sociedade não pode medir a dignidade humana pela produtividade de cada um. O ser humano vale mais do que aquilo que produz, mais do que a sua utilidade económica e infinitamente mais do que a sua capacidade de competir com uma máquina.
A tecnologia deve servir as pessoas. Não são as pessoas que devem ser reduzidas às exigências da tecnologia.

Pensar continua a ser indispensável

Há outro risco, talvez menos visível: o de começarmos a delegar nas máquinas não apenas o trabalho, mas também o esforço de pensar.
Quando uma resposta aparece imediatamente, podemos esquecer a importância de formular a pergunta. Quando um sistema apresenta uma conclusão convincente, podemos deixar de a interrogar. Quando tudo parece acessível, corremos o risco de confundir informação com conhecimento e conhecimento com sabedoria. Mas informação não é conhecimento. E conhecimento não é sabedoria.
Pensar exige tempo, dúvida, confronto de ideias, experiência e capacidade de reconhecer os próprios erros. Exige também responsabilidade: alguém tem de responder pelas decisões tomadas e pelas consequências que delas resultam.
É por isso que a educação assume uma importância decisiva. Não basta ensinar as novas gerações a utilizar ferramentas de Inteligência Artificial. É necessário ensiná-las a questionar, verificar, distinguir, argumentar e pensar pela própria cabeça.
Uma escola que forme utilizadores competentes, mas dispense cidadãos capazes de julgar criticamente, poderá preparar pessoas para o mercado de trabalho e falhar na preparação para a liberdade.
E Portugal?
Portugal não pode limitar-se a assistir a esta transformação, consumindo tecnologias concebidas noutros lugares e aceitando, como inevitáveis, as decisões de quem as controla.
Precisamos de investir no conhecimento, na ciência, na educação e na qualificação dos trabalhadores. Precisamos de empresas capazes de inovar, de instituições públicas preparadas e de políticas que não deixem para trás os mais vulneráveis. E precisamos de participar, com pensamento próprio, na discussão europeia sobre os limites e as responsabilidades desta nova era. Não temos de disputar com as grandes potências todos os instrumentos tecnológicos. Temos, porém, de saber que sociedade queremos construir com eles.
A dimensão de um país não se mede apenas pela sua capacidade de produzir tecnologia, mas também pela inteligência com que a utiliza, pela cultura que preserva, pela justiça que pratica e pela liberdade que garante.
A Inteligência Artificial pode ajudar-nos a construir um país mais informado, mais eficiente e mais capaz. Mas não substituirá a vontade política, a responsabilidade colectiva nem a coragem de enfrentar os problemas que há demasiado tempo adiamos.

O futuro não é uma fatalidade

A tecnologia não escolhe os valores em nome dos quais é utilizada. Essa escolha continua a pertencer-nos. Podemos construir um mundo em que a Inteligência Artificial amplie as capacidades humanas, reduza desigualdades e nos devolva tempo para aquilo que verdadeiramente importa. Ou podemos permitir que concentre poder, fragilize direitos e transforme cada pessoa num conjunto de dados, previsões e resultados.
A diferença não estará apenas nas máquinas que formos capazes de criar. Estará nas escolhas que fizermos, nas regras que estabelecermos e na humanidade que estivermos dispostos a defender.
É por isso que esta discussão não pertence apenas aos engenheiros, aos empresários ou aos governantes. Pertence a todos nós. Porque o futuro não será verdadeiramente nosso se deixarmos de participar na sua construção.
A Inteligência Artificial poderá tornar-se cada vez mais poderosa. Caberá aos seres humanos decidir ao serviço de quem estará esse poder e de que valores será instrumento.
No fim, a pergunta essencial continuará a ser a mesma: não apenas que mundo queremos construir com a Inteligência Artificial, mas que humanidade queremos preservar dentro dele. O futuro ainda é humano. Mas não está garantido. Temos de o construir.

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