Há cerca de 42 anos fui com a minha filha assistir, no velho Estádio de Alvalade, a um jogo do SCP e o comentário mais violento que se ouviu – e que a minha filha ainda hoje recorda – foi a de um adepto do SCP chamar ao fiscal de linha ‘aeroporto de moscas’, pois ele era calvo com dois tufos de cabelo a enquadrar a careca.
Este texto, que será sobre a violência no futebol, ou melhor sobre a violência à margem do futebol, começa por dois fait-divers, sendo um deles o mais importante, a ‘sessão de Carnaval’ da reunião do Conselho da Paz com a presença de Infantino, porque, na verdade, é esta estrutura do poder que reúne autocratas e líderes mundiais, subservientes a um poder que se quer transformar numa autocracia, que nos pode ajudar a perceber os movimentos dos chamados ultras ou casuals (a sub-secção dos hooligans, que teve origem, no final dos anos 70, no Reino Unido, e conhecidos por usarem roupas de griffe, por forma a não serem reconhecidos como adeptos de um clube).
No Reino Unido colocaram na ordem esta gente – cheguei a assistir, para aí em 1976, à forma dura e eficaz como a polícia os identificava e os impedia de actuar.

A extrema-direita viu nestes grupos e nas claques de futebol um campo fértil para captar adeptos e não a desperdiçou. Há mais de 20 anos que grupos neonazis espanhóis aliciavam jovens das claques dos clubes portugueses para se inscreverem nesses movimentos. A Polícia Judiciária e o SIS têm conhecimento desses movimentos e vão monitorizando a sua actuação, embora seja cada vez mais difícil, porque aumentou o grau de violência e o número de membros dessas organizações terroristas.
Sabemos que o futebol gera paixões, emoções descontroladas e irracionais. Mas aquilo a que estamos a assistir é mais do que esse exacerbamento da paixão clubista, é um claro crescendo da violência que se instalou na sociedade, que se agravou com a radicalização de grupos ligados à extrema-direita, com um único objectivo: causar perturbação social e lançar o caos.
Cunha Rodrigues, ex-PGR, escrevia, há uns 15 anos, que a ‘sociedade estava doente’, e a verdade é que não só está doente como foi tomada de assalto por radicais de direita, que apenas pretendem causar perturbação social com o objectivo de justificar a necessidade de um aparelho repressivo, liderado, claro, por essas forças políticas.
O que se passou, há dias, à porta do Pavilhão João Rocha não foi um mero confronto entre adeptos, mas sim um confronto entre grupos terroristas, que têm de ser tratados como aquilo que são, sem receio de ‘chamar os bois pelos nomes’, terroristas à ordem de organizações de extrema-direita, com o objectivo de causar a desordem e o medo.




