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	<title>Arquivo de CONTRA(o)TEMPO - Duas Linhas</title>
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	<title>Arquivo de CONTRA(o)TEMPO - Duas Linhas</title>
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		<title>CONTA-ME HISTÓRIAS</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Alice Marques]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 04 Jul 2023 23:00:04 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Deixa-me aninhar no teu colo e ouvir as tuas histórias de criança. Fala-me daquele menino que vejo quando olho dentro dos teus olhos. Diz-me a cor do teu primeiro triciclo, conta-me quantas vezes caíste, mostra-me os teus joelhos esmurrados, as calças rasgadas, os “galos” na cabeça. Deixa-me ver a tua primeira bicicleta reluzente, leva-me pelos [&#8230;]</p>
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<p>Deixa-me aninhar no teu colo e ouvir as tuas histórias de criança. Fala-me daquele menino que vejo quando olho dentro dos teus olhos. Diz-me a cor do teu primeiro triciclo, conta-me quantas vezes caíste, mostra-me os teus joelhos esmurrados, as calças rasgadas, os “galos” na cabeça. Deixa-me ver a tua primeira bicicleta reluzente, leva-me pelos caminhos por onde andaste. Mostra-me as ruas onde brincaste na tua primeira infância. Conta-me o teu primeiro dia de escola, deixa-me espreitar a tua mochila, os teus lápis, os teus livros, os teus cadernos, as tuas primeiras letras, o teu nome escrito pela primeira vez. Diz-me como era a primeira prenda que deste à tua mãe no dia da mãe e ao teu pai no dia do pai. Apresenta-me a tua irmã, fala-me das brigas que tiveram, dos brinquedos que partilharam, do quarto onde dormiam, dos teus carrinhos, do teu primeiro bibe. Mostra-me os teus retratos de família em cima da cómoda, o da tua primeira namorada, aquele que guardas numa carteira velha. Diz-me a que sabia o teu primeiro beijo, quão forte foi o teu primeiro desejo, o que sentiste na tua primeira vez. Deixa-me ver os retratos que guardas em caixas de sapatos, aqueles em que estás de mão dada com uma das namoradas, aqueles em que estão os dois estendidos na areia da praia. Deixa-me ler as cartas de amor que te escreveram e as que lhes escreveste, e elas, zangadas, te devolveram. Deixa-me cheirar as pétalas de rosa que puseste a secar dentro dos livros, vasculhar as tuas gavetas, tocar os destroços dos objectos que amaste.</p>



<p>Conta-me, com a memória que te deu a tua mãe, quando te nasceu o primeiro dente, quando pegaste sozinho na colher, quando deste o primeiro passo, qual foi a primeira palavra que disseste.</p>
</div></div>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<p>Quando te ouço falar da tua vida antes de mim, dou-me conta de quão pouco sei de ti! Como eram o teu pai, a tua mãe, os teus avós? Já morreram? Onde estão enterrados? Que sonhos sonharam para ti? Conta-me as histórias que um teu avô te contava.</p>



<p>Nas memórias destes momentos de partilha, eu não sei nomear o que sinto, olho para dentro de mim e mal consigo distinguir o que vejo. Lembro-me vagamente de ser menina, de alguns dias de escola, do meu vestido do dia do exame da 4ª classe, do que sonhava ser: artista de circo, depois hospedeira de aviões, depois escritora, depois jornalista! Lembro-me do meu avô materno. Ele queria que eu fosse escritora, por isso, ainda menininha, já eu ia com ele requisitar livros à biblioteca itinerante. Deu-me um mundo fantástico a descobrir, com heróis que se chamavam Ulisses e Aquiles e outros mais estranhos, como Agamémnon, Eneias e Ajax, e com a sua infinita sabedoria foi-me deixando penetrar nos romances de amor de Camilo Castelo Branco, antes de os professores de português torturarem na escola os versos de Camões. Já não estás cá para saber, avô, mas ainda assim deixa-me dizer-te: eu tornei-me uma jornalista, mas continuo a querer ser escritora e ensaio grandes romances nestes fragmentos de discurso amoroso. Sinto-me iluminada por uma luz que me guia na memória da minha vida distante, onde recupero aquilo que tu me dizias: “não percas a capacidade de sentir”. Por isso este texto que agora escrevo é para homens que amei e também para ti.</p>
</div></div>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<p>O circo e os livros foram as minhas primeiras paixões. Percorrendo as veredas e encruzilhadas da memória, revejo-me ainda criança, correndo atrás dos comediantes, o circo dos pobres da minha aldeia, que de tempos a tempos vinha instalar-se no largo da capela da Senhora da Saúde. Fascinavam-me os comedores de fogo, as trapezistas de fatos brilhantes, muito mais do que os palhaços, que nunca me fizeram rir. Gostava do perigo de ser incendiada, do risco de trabalhar sem rede. Nos dias de circo, perder-me a achar-me era na casa do meu avô, ali mesmo no largo, sempre tentando escapulir-me ao seu zelo de professor para me ensinar as contas de multiplicar, aquelas grandes, enormes, que ocupavam a folha inteira do caderno quadriculado e me faziam chorar baba e ranho se a prova dos nove não desse certo. E quando o circo levantava arraiais e partia para outras paragens, era eu que, às escondidas da minha mãe, me pendurava numa escada ou na cancela que dava para o pátio, treinando os exercícios de trapezista, perante o olhar inquieto das ovelhas e o cacarejar das galinhas. Foi num exercício de equilibrismo mal sucedido – guiar uma bicicleta sem mãos – como tantas vezes vira fazer no circo, que parti gravemente a cabeça e fui parar ao hospital. No regresso, as semanas de convalescença proporcionaram-me a descoberta dos livros. Nem o saco de gelo na cabeça, nem a incómoda posição em que me mantinha durante horas, me dissuadiam de mergulhar nos romances de cordel, a literatura sempre disponível lá por casa. Lembro-me de chorar muito com o romance da Ceguinha, um livro em fascículos que a minha mãe guardava longe dos meus olhares indiscretos, mas que eu sempre soube onde estava. Ficava horas a fio, devorando as páginas, até que a sua voz viesse despertar-me daquele torpor ou a noite me impedisse de ver as letras.</p>



<p>-Vem jantar, Alice, deixa o livro – chamava ela.</p>



<p>Mas quando à noite regressava à cama, num quarto sem luz elétrica e num tempo em que o magro salário do meu pai mal dava para o petróleo, regressava também aos caminhos ermos da vida da triste ceguinha que, por nunca ter podido ver o mundo, inventou um para ela, onde todas as pessoas a amavam sem compaixão.</p>
</div></div>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<p>O meu avô, adivinhando em mim um desmesurado gosto pelas letras, continuava a orientar as minhas leituras e a acalentar a esperança de que eu pudesse vir a ser uma escritora, daquelas que ganhavam prémios e tinham a fotografia nos jornais. Só me contou este sonho no leito de morte, tinha eu vinte anos, mas enquanto viveu e eu fui menina, foi-me dando livros emocionantes, para alimentar os meus sonhos e os dele. Foi com os olhos do meu avô que aprendi a ver mundos imaginários e, com a sua voz, que comecei a entender o poder mágico das palavras, que ainda hoje me espanta. Não fiz promessas quando o ouvi contar o sonho que tinha para mim. Mas quando senti a vida dele escoar-se por entre os últimos murmúrios, quando as suas mãos largaram as minhas e eu, já debulhada em lágrimas, só consegui dizer-lhe “adeus avô”, quando senti o arrepio da morte percorrer-lhe o corpo, reentrei, em silêncio, dentro de mim e pensei: não sei se realizarei o teu sonho, mas vou continuar a sonhá-lo.</p>



<p>Depois eu cresci, tornei-me uma jovem rebelde, tive uma primeira vez que não foi, e fiquei grávida, fui mãe aos dezoito anos e fui perdendo o que o meu avô me tinha pedido para não perder – a capacidade de sentir. Nada mais me interessava a não ser ler e aprender, para ter ldeias com I grande, fui-me afastando da terra, da alegria de acordar de manhã, abrir a janela e ver o canavial.</p>
</div></div>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<p>Estive, há algum tempo, sentada num degrau da escada exterior que dava acesso ao sótão da velha casa, onde, às vezes, às escondidas, devorava páginas do romance da Ceguinha. Como me pareceu pequena aquela casinha! E o canavial … afinal meia dúzia de canas da Índia à beira do fio de água que corre ao fundo do quintal. Mas à volta parece que nada mudou – as terras de castanho profundo, num verão ardente. as árvores cheias de frutas, pêras, maçãs, ameixas, pêssegos, que convidam a comer debaixo da sua generosa sombra.</p>



<p>Há quantos anos não me sentava ali? Passaram 40? 50? O que andei a fazer durante todo esse tempo? A ensinar a ler, a pensar, a escrever? A esquecer-me de mim?</p>
</div></div>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<p>Como é possível ter passado tanto tempo sem encontrar um homem que compreendesse o que se passava dento de mim? Um homem com quem pudesse falar de tudo com verdade: dos sonhos (ser isto, ser aquilo, quando for grande), das frustrações (o que não consegui ser), dos medos (de ficar sozinha, de envelhecer, de morrer), das esperanças (amar, ser amada, ser feliz). Mas eu sempre pensei que o tinha encontrado, naquele, no outro, em muitos deles. Dormi com eles, entreguei-lhes o corpo, mas fechei a alma. Apesar de ter gostado deles. Lembro-me de momentos de quase intimidade, de instantes breves de prazer. Quem sabe, de ter sido feliz! Lembro-me da cama, do sexo, umas vezes bom, outras mau, mas nunca senti que umas horas pudessem ser a eternidade. Queria que se fossem embora quando já não havia nada para partilhar. Satisfeito o desejo do corpo eu só queria ficar sozinha e foi assim que comecei a construir a tese do “podem vir, mas não podem ficar para o pequeno-almoço”, embora, de vez em quando até tenha acordado com eles em quartos estranhos de hotel.</p>



<p>Tu não és nenhum deles e contigo quero ser totalmente verdadeira: eu quis que viesses para a minha cama e que acordasses aqui todas as manhãs para o pequeno-almoço. Eu amei ir contigo ao cinema, ver filmes de mão dada e comer pipocas. Eu quis viajar contigo, mostrar-te os lugares que conheço, conhecer os lugares que tu conheces, descobrir contigo lugares desconhecidos.</p>



<p>Foste os meus olhos que de novo se espantaram, os meus dedos que reaprenderam a tactear. Quero viver para continuar a reescrever estas memórias.</p>



<p>Agora estou a lembrar-me dos momentos em que me sentei a olhar o canavial e me vieram à memória fragmentos daquele belo texto, a Nau Catrineta:</p>



<p>Mais enxergo três meninas debaixo dum laranjal</p>



<p>Uma sentada a coser</p>



<p>Outra na roca a fiar</p>



<p>E a outra?</p>



<p>Não me lembro.</p>



<p>Talvez seja eu</p>



<p>A escrever e a chorar.</p>
</div></div>
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		<title>NÃO OS DEIXAREI MORRER</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Alice Marques]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 25 Jun 2023 23:00:24 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Foi há muitos, muitos anos. Num dia 22 de Maio. Eu colaborava então num semanário marinhense, O Correio, onde comecei por escrever crónicas, um género mais de opinião e menos jornalístico. Primeiro as Crónicas de Maldizer, uma espécie de olhar crítico sobre o quotidiano nacional, depois as Crónicas da Revolução Francesa, por altura do 200º [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Foi há muitos, muitos anos. Num dia 22 de Maio. Eu colaborava então num semanário marinhense, O Correio, onde comecei por escrever crónicas, um género mais de opinião e menos jornalístico. Primeiro as <em>Crónicas de Maldizer</em>, uma espécie de olhar crítico sobre o quotidiano nacional, depois as <em>Crónicas da Revolução Francesa</em>, por altura do 200º aniversário da revolução, em 1989. Entre a história e o jornalismo, estes últimos textos valeram-me a elevada estima do então diretor do semanário, o advogado e político, Osvaldo de Castro, que viu neles uma promessa de grande jornalismo. Mas arrancar-lhe um elogio era mais improvável do que cair-me um meteorito em cima da cabeça. Meia dúzia de anos a trabalhar com ele deram direito, apenas, a um quase rogado “excelente”, a propósito da crónica sobre Robespierre, depois eu a rever e corrigir meia dúzia de vezes, à atitude insólita de publicar uma nota pessoalíssima que o filósofo Agostinho da Silva escrevera para mim. E também à promessa de escrevermos, a quatro mãos, as nossas memórias do 25 de Abril. A sua morte precoce aos 67 anos (em 20 de Junho de 2013) inviabilizou este projeto.</p>



<p>A insólita atitude deste exigente diretor, que me ofereceu o meu primeiro livro de jornalismo, começa, como disse, a 22 de Maio dum ano longínquo, dia da cidade de Leiria. Comuniquei na redação que o professor Agostinho da Silva estaria em Leiria , a propósito das comemorações do dia&nbsp; da cidade e, embora soubesse que notícias do distrito estavam fora do nosso âmbito, eu iria até lá, e, se fosse importante, escreveria qualquer coisa. Fui. Havia um batalhão de repórteres dos jornais locais e regionais, como era de esperar.&nbsp; Agostinho da Silva tinha sido recentemente redescoberto pelo faro apurado de Miguel Esteves Cardoso, que fez com ele uma série televisiva, “Conversas Vadias”, e o filósofo, até então menor, tinha-se tornado, em poucas semanas, uma <em>TV Star</em>.</p>



<p>Vi-o chegar, sair de um carro preto, acompanhado, ou melhor, amparado, por dois “seguranças”, entrar no Teatro José Lúcio da Silva e dirigir-se ao palco. Pisava o chão com cautela. De fato preto e camisa branca, um rosto miúdo desaparecendo entre os cabelos de neve, ele subiu ao palco como quem pede desculpa por existir. Aquela figura, quase insignificante, no meio de um friso de notáveis (o bispo, o comandante da região militar, o presidente da câmara), começou então a falar. Lembro-me vagamente: uma conversa completamente “vadia”. Saltava do reinado de D. Dinis para Fernando Pessoa e Eduardo Lourenço, da ponta de Sagres para o Brasil, a tentar dar consistência à tese do Quinto Império. Mas recordo-me bem do que pensei: “agora ele está mesmo perdido, não vai encontrar o fio da meada”. Mas qual quê? Habituado ao pensamento caótico, mas abrangente e conceptualizado, mesmo quando parecia totalmente perdido, ele voltava sempre ao ponto de onde partira, tecendo um discurso coerente, consistente, poético e fascinante. Foi assim que o vi. Cá fora falei com dois jornalistas que conhecia. Estavam decepcionados. Não sei muito bem o que esperavam, mas eu, que não esperava nada, só estava decepcionada com eles. Vim para casa e pus-me imediatamente a escrever. À noite, fui ao jornal e entreguei a peça ao diretor. Ele leu e, sem um único comentário, limitou-se a dizer: “pomo-la na última página, não temos mais espaço e não vou desmanchar a maquete para inserir isso noutro sítio”.</p>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<p>Quando o jornal apareceu nas bancas, dei-me conta de que valorizara a peça ao mandar publicá-la em negrito. O texto teve algum impacto entre o escasso clube de fãs do filósofo &#8220;menor&#8221; Agostinho da Silva. Mas eu estava tão orgulhosa dele (tinha lido tudo o que saíra nos jornais de Leiria e eram todas peças breves, noticiosas, com destaque fotográfico e pouco mais, sinal evidente de que o discurso não fora compreendido, ou, no mínimo, não fora possível aos repórteres transformar aquele delírio numa peça jornalística interessante) que considerei a hipótese de enviar a minha ao filósofo.&nbsp;</p>



<p>E assim fiz. Escrevi uma pequena nota, dizendo quem era e com as breves palavras: &#8220;Professor, ouvi-o em Leiria e fiquei fascinada. O senhor é um visionário”, e enviei-lha com o jornal.</p>



<p class="has-black-color has-text-color">Na semana seguinte recebi um cartão escrito e assinado pela mão de Agostinho da Silva, cujas palavras nunca esqueci:</p>



<p class="has-vivid-cyan-blue-color has-text-color" style="max-width:439px">“<em>Minha senhora: recebi o artigo que publicou sobre mim no jornal da sua cidade. Foi a coisa mais inteligente, mais verdadeira e sensível que alguém escreveu sobre mim. Feliz o jornal que a tem, feliz a escola que a tem, feliz o país que a tem”.</em></p>



<p>Inchei de orgulho, como podem imaginar. E, embora com algum receio, não resisti a mostrar o cartão ao diretor Osvaldo de Castro. Com aquele sorriso entre a ironia e o sarcasmo, que o caracterizavam e que nunca consegui distinguir muito bem, ele pegou no cartão, fotocopiou-o e afixou na parede. Era um louvor e dignificava o jornal, disse. E, na semana seguinte, sem que nada o fizesse prever, dou de caras com o cartão reproduzido no jornal, acompanhado de uma pequena nota elogiosa. Discutimos, acusei-o de violação de privacidade, mas ele, com o seu traquejo de advogado e político, neutralizou-me em segundos, como sempre acontecia quando discutíamos.</p>



<figure class="wp-block-image size-full"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="1920" height="1080" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2023/06/agostinho-da-silva-gato.jpg" alt="" class="wp-image-27100"/></figure>



<p>Começou assim uma relação entre mim e Agostinho da Silva, que havia de prolongar-se até à sua morte, uns anos depois (3 de Abril de 1994). Trocámos muita correspondência e visitei-o várias vezes na sua casa no Príncipe Real.</p>
</div></div>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<p>Lembro-me da primeira vez que o procurei. Recebeu-me à porta uma vizinha, cujo nome não recordo, que, quando ouviu o meu nome, abriu o rosto num sorriso franco, dizendo:</p>



<p>&#8211; Entre, o senhor professor está à sua espera.</p>



<p>Lá dentro, numa sala abarrotada de livros e papéis, e onde dois gatos enormes encavalitados numa estante, pareciam prestes a atacar-me, o professor olhava o Tejo através da janela. Fez menção de se levantar, mas eu acudi dizendo: “deixe-se estar, professor, eu sento-me aí ao seu lado”. Disse-lhe quem era, puxei uma cadeira para junto dele, peguei-lhe nas mãos e ficámos os dois em silêncio durante uns breves minutos. Depois ele acariciou-me o cabelo e começou a falar: &#8211; eu sei quem você é, você é uma menina muito inteligente. (Eu já não era propriamente uma menina!). Veja o Tejo ali ao fundo. Quantos séculos a olhar o Tejo, ali onde ele se encontra com o mar?! Os sonhos nascem assim. Os homens sentam-se em frente ao mar e sonham.</p>
</div></div>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<p>Falámos dele, dos grandes projetos que concretizou (a Universidade da Baía, a Universidade Popular em S. João do Campo, perto de Ançã), do que já não sonhava fazer: &#8211; já há pouco que eu possa fazer, mas há por aí um batalhão de gente que vai fazer muito comigo.</p>



<p>Falei-lhe também de alguns projetos meus (ser uma jornalista a sério era então o meu projeto) e fomos ficando, ocupando as horas como quem suspende o tempo. E a tarde foi caindo, mansa, sobre a cidade, sobre nós. Veio a vizinha, trouxe-nos um chá e os gatos, confiantes, acasalaram em cima da estante, apesar da censura do professor “não se faz isso diante das visitas”.</p>



<p>Perguntei-lhe se os livros eram tudo o que tinha para se manter ligado ao mundo, pois não vira sinais de um rádio, uma televisão ou um simples gira-discos. Respondeu-me que não precisava de nada disso, porque as notícias lhas levavam os jornalistas que o visitavam e a música… ouvia-a dentro dele e em todos os sons da cidade quando abria a janela. Quando me despedi dele, prometendo voltar em breve, ele chamou-me pelo nome e disse-me: Alice, não faça planos para a vida, para não atrapalhar os que a vida tem para si.</p>
</div></div>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<p>Este conselho de um velho sábio havia de bailar na minha cabeça durante muitos anos. Voltei algumas vezes àquele apartamento no Príncipe Real, ouvi-o muito, sempre fascinada com aquele contar como quem pede desculpa. Custou-me vê-lo partir. Um funeral mediático para um homem que a televisão tinha tornado uma estrela. A sua obra foi quase toda publicada imediatamente após o seu desaparecimento. Digo quase toda, porque eu mesma sou depositária de dezenas de cartas, que qualquer jornalista abutre teria incluído num volume.</p>



<p>Nestes meus dias de silêncio, pensando nos mortos da semana, os anónimos e os que foram tratados pelos nomes, tenho recordado algumas vezes aquelas tardes a olhar o Tejo, aqueles voos nas asas da imaginação do filósofo da liberdade. E compreendi que a sua profecia se cumpria: quando deixei de fazer planos para a vida, a vida presenteou-me com muitas surpresas.&nbsp; Nem todas boas, mas é uma honra&nbsp; poder recordar estes encontros e partilhá-los, nesta crónica que é a memória da ausência.</p>
</div></div>
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		<title>O PAÍS QUE TEMOS</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Alice Marques]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 20 Jun 2023 23:05:15 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>A avaliar por algumas notícias que passaram durante a semana, de raspão, nos media nacionais, em breve Portugal será só um país de curtas passagens para turistas ricos, para os novos turistas de caracol e para os nómadas digitais, que vão expulsando os moradores das grandes cidades. E cada vez mais, também um país para [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>A avaliar por algumas notícias que passaram durante a semana, de raspão, nos media nacionais, em breve Portugal será só um país de curtas passagens para turistas ricos, para os novos turistas de caracol e para os nómadas digitais, que vão expulsando os moradores das grandes cidades. E cada vez mais, também um país para as hordas de asiáticos que cuidam da nossa agricultura industrial, mas só daquilo que os herbicidas e as máquinas não fazem.</p>



<p>Quase a secar a fonte das notícias que nos mantiveram entretidos, distraídos ou adormecidos &#8211; casos periféricos da TAP- durante dezenas de horas, depois de ouvidos um ex-ministro e outro no ativo, ainda houve ilustres comentadores que espremeram o caso, no domingo à noite, mas já só saíram previsões não consensuais sobre o futuro do ex-ministro das infraestruturas. Onde arranjar um caso que substituísse esta série?</p>



<p>A caricatura do primeiro ministro nas comemorações do 10 de Junho deu sinais de gerar algum sururu, que se esgotou entre a liberdade de expressão, o mau gosto do cartaz e a perda de credibilidade da luta dos professores. A oposição ainda tentou, no limite do desespero, transformar num caso escandaloso, uma escapadela, à socapa, do primeiro-ministro a Budapeste, a caminho da Moldova, e a duvidosa companhia do homólogo húngaro num jogo de futebol. Mas foi um mero casinho, neutralizado por outro jogo, Portugal X Bósnia Herzegovina, com Costa e Marcelo a torcerem juntos por Portugal.</p>



<p>Sem alarde &#8211; e se precisava! &#8211; foi notícia, na semana passada, a diminuição da diferença de salário entre jovens com formação superior e só com formação secundária, que nos últimos 10 anos desceu de 57% para 27%.</p>



<p>Como era previsível, os pivots limitaram-se a debitar estatísticas que não suscitaram qualquer debate. Não fora o comentador mor da SIC, LMM, com a sua pedagogia &#8220;explica-me como se eu tivesse 4 anos&#8221; e teria passado despercebida, como notícia de rodapé! Mas fez questão de acrescentar o óbvio à notícia, o comentador de serviço ao domingo a noite: repetiu os números e concluiu, pasme-se! &#8211; que com estes salários, os jovens continuarão a deixar o país, esvaziando-se assim a pátria, da &#8220;geração mais qualificada de sempre&#8221;.&nbsp; Senti (eu e milhões de portugueses) a falta do Ricardo Araújo Pereira, porque a questão dos salários é por excelência um programa em cheio &#8216;Isto é gozar com quem trabalha&#8217;<strong>.</strong></p>



<p>Também sem alarde nem comentários dignos de nota, (nem sequer do LMM) soubemos que no ano 2021/2022, no ranking das boas escolas, é preciso percorrer não o top 10, não o top 20, não o top 30, mas o top 40, para encontrarmos o nome de uma escola pública.&nbsp; Acresce a isto que 40% das classificações atribuídas nos colégios privados foram 19 e 20 valores. E, é claro, soubemos que este insólito facto dará origem, como tantos outros, a uma rigorosa investigação, &#8220;até às últimas consequências&#8221;, ou seja, nenhumas.</p>



<p>De tão naturalizado, este pseudo facto de os alunos do ensino privado terem melhores resultados, como se os profs destes tivessem uma ética do trabalho e no público fosse uma bandalheira, a notícia já não suscita perguntas, indignação, protestos, manifestações, ou sequer um comentário. Nem da tutela (que promete averiguar o fenómeno dos muitos 19 e 20), nem de sindicalistas, nem de professores, porque tal conclusão é de tal forma insultuosa para estes que os deixa tolhidos de indignação. E logo neste ano em que a luta da classe atingiu níveis nunca antes alcançados.</p>



<p>Para quem só ouve ou lê as gordas, tendo por certo que muitos são pais e mães, a ideia que fica é que na educação, como na saúde, é preciso acabar com este &#8220;socialismo&#8221;, como dizem alguns betos da política, e privatizar tudo!</p>



<p>Mas ter 19 e 20 valores para quê?</p>



<p>Para entrar num curso de medicina, de engenharia aeroespacial ou de arquitetura, endividarem-se os pais para pagarem o alojamento e as propinas e meia dúzia de anos depois terem filhos graduados, pós-graduados, que conseguiram um bom emprego, mas não um salário que lhes permita arrendar ou comprar uma casa, casar, ter filhos, a menos que emigrem?!</p>



<p>Portugal tornou-se um país onde é preciso ser milionário para comprar uma casa, onde a classe média de jovens doutores e engenheiros recebe subsídios de renda de casa, onde acontece que até se pode ganhar melhor num call center do que num atelier de arquitetura!</p>



<p>Quem teve tempo para ouvir rádio, ficou também a saber que as profissões do futuro próximo, com emprego assegurado em qualquer parte do mundo, segundo dados do Fórum Económico Mundial, serão ligadas à digitalização, inteligência artificial, robótica e sustentabilidade.</p>



<p>Então, força aí, nos testes vocacionais! Orientemos todos os jovens para as tecnologias de ponta. Para quê as sociologias, as filosofias, as filologias, as artes, as humanidades…?</p>



<p>Para quê ensinar jovens a pensar a história, a cidadania, a democracia, a justiça, a solidariedade, a igualdade, a sobrevivência do planeta, se nada disto lhes assegurará, no futuro, uma agenda de trabalho digno?</p>



<p>E para garantir que teremos hortaliças para a sopa, tomares para a salada e frutos vermelhos para a sobremesa, poderemos, cada vez mais, contar com indianos, nepaleses, afegãos e outros asiáticos, para quem uma camarata num contentor é uma moradia de luxo (também a autoridade para as condições no trabalho irá averiguar até às últimas consequências).</p>



<p>&#8220;Deixem-se dessas tretas pedagógicas. Isto é para dar dinheiro” &#8211; dizia despudoradamente um diretor de uma escola privada, que tive o desprazer de conhecer.</p>



<p>Se os jovens, médicos, professores, jornalistas e dezenas de outros profissionais não têm hipótese, a curto prazo, de viver em casa própria, e se seguramente não haverá daqui a meia dúzia de anos, só experts em robótica, IA e afins, tenho uma ideia melhor: estimulemos as nossas crianças, em idade bem precoce, para serem influencers! Dizem-me que se ganha uma pipa de massa. Mas não se trata de influenciar com ideias. Ter ideias é um desperdício de tempo. Basta mostrar como usar um bâton, um cabelo de corte invulgar, umas calças que parecem saídas das lixeiras de roupa, fazer uns vídeos engraçados, divulgar nas redes e em breve será um/uma influencer de renome. Não digo que não sejam precisos uns meses para se tornar uma Kardashian ou uma Gio!&nbsp; Mas sejamos claros: também não precisa de começar exibindo carteiras de dezenas de milhares de euros ou joias de milhões. Para isso talvez precise de um ano ou dois.</p>



<p>Disse-me uma amiga, muito entendida em redes sociais, que há mulheres a ganhar muito dinheiro a ‘postar’ fotografias dos pés. Parece que alimentam fantasias sexuais de muitos homens. E afinal, se tantas postam diariamente milhões de fotografias, do seu melhor ângulo, da sua melhor curva, do seu mais recente botox, o que há de extraordinário em mostrar, nas redes próprias para fetichistas sexuais, um belo pé de deusa grega, descalço ou em sapato de salto de agulha e ganhar dinheiro com isso?! Afinal são só pés! Pés livres… até do mau cheiro!</p>
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		<title>O amor que era sexta feira</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Alice Marques]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 08 Jun 2023 10:42:46 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Era uma relação clandestina, permanentemente ameaçada de ser descoberta, com consequências imprevisíveis. Um risco de que tinham consciência e mesmo assim corriam, porque não há como proibir para que uma relação se fortaleça. À sexta feira, a ausência da &#8220;legítima&#8221; tornava possível um longo encontro. Num local familiar, longe dos olhares acusadores, sem risco de [&#8230;]</p>
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<p>Era uma relação clandestina, permanentemente ameaçada de ser descoberta, com consequências imprevisíveis. Um risco de que tinham consciência e mesmo assim corriam, porque não há como proibir para que uma relação se fortaleça. À sexta feira, a ausência da &#8220;legítima&#8221; tornava possível um longo encontro. Num local familiar, longe dos olhares acusadores, sem risco de denúncia. Por isso lhe chamavam o amor que era sexta feira.</p>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<p>O riso ocasional, por certo de uma piada tola, talvez carnal, como ele costumava chamar às piadas dela, era, em certa hora, interrompido pelo silvo de um comboio, que suspendia a cena tão familiar das sextas-feiras. Ele pousava a colher, levantava o indicador e perguntava:</p>



<p>&#8211; Ouves? Ouves este som? Eu adoro este som.</p>



<p>E ela, encantada:</p>



<p>&#8211; O comboio? Eu também adoro. Traz-me muitas memórias!</p>



<p><a></a>Depois, o silvo do comboio tornava-se distante, ele voltava a saborear a comida e a cena continuava. Dentro dos dois circulavam comboios, ou talvez tivessem parado nalguma estação. Desciam da carruagem e voltavam à sombra do Pinheiro dos Abraços.</p>
</div></div>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<p>Eram quase nove horas da noite. Há várias horas que não ouvia a sua voz. Ia até à estação de serviço tomar um café, a escassos metros da linha do comboio. Voltava a ouvir o silvo. E voltava a magia da sexta feira! Entre a saudade, a ansiedade e a verdade das horas à espera de o ver, de o ouvir, de o ler, aquele comboio acordava nela estranhas memórias. De um passado vivido. De um futuro inventado no passado. (Como cantava Pedro Barroso: um homem fica parvo com força do futuro contida no passado).</p>



<p>O sinal sonoro de sms chegava com o som do silvo do comboio. Imaginava-se então num tempo sem tempo, viajando pelo espaço etéreo, desaparecendo num raio de luz.</p>



<p>Tentava muitas vezes dizer-lhe isto, em palavras a juntar à tarde de sexta-feira, passados vividos e futuros imaginados, num interminável texto que era urgente escrever.&nbsp; E escreveu. Três centenas de páginas, impressas, que vão amarelecendo numa gaveta, as palavras perdendo a cor e o sentido.</p>
</div></div>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<p>Vagueava pela noite, bebia<em> gingerales</em> no bar de sempre, ouvia histórias das mesmas pessoas de sempre, voltava a casa.&nbsp; Revisitava a vida que passara em comboios, em estações de chegar e de partir, em tempos e lugares próximos e distantes.</p>



<p>Assim se vivem amores proibidos, que na clandestinidade se fortalecem.&nbsp; Mais poderosos que as relações amorosas ditas legítimas, sexual e emocionalmente mais intensas e compensadoras. Os/as amantes ficam sempre com o melhor. Só porque não vivem o cansaço das rotinas e os muitos problemas domésticos. Diz quem sabe, porque na vida foi <strong>a</strong> e também <strong>a outra</strong>. Valem bem cada sobressalto, cada susto, cada ameaça. Mas também estas histórias acabam e já nem lembramos como nem porquê.</p>



<p>A vida continua, ainda há flashes de memórias, que de tão vagas se vão tornando esquecimento.&nbsp; Já nem ouve o silvo do comboio, que em tempos anunciava a cena familiar do amor que era sexta feira.</p>
</div></div>
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		<title>MAIO, UM MÊS EM CHEIO !</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Alice Marques]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 01 Jun 2023 23:05:12 +0000</pubDate>
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		<category><![CDATA[jornalismo]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Decorrente deste ensaio, o conceito mais popularizado, mesmo por não leitores de McLuhan, é o de Aldeia Global. Com efeito, estes meios de comunicação, ao mostrarem o mundo das muitas latitudes e longitudes, davam a impressão de que este estava cada vez mais pequeno, de que vivíamos afinal em relações de vizinhança. Também eu interiorizei [&#8230;]</p>
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<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<p>Decorrente deste ensaio, o conceito mais popularizado, mesmo por não leitores de <strong><a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Marshall_McLuhan">McLuhan</a></strong>, é o de Aldeia Global. Com efeito, estes meios de comunicação, ao mostrarem o mundo das muitas latitudes e longitudes, davam a impressão de que este estava cada vez mais pequeno, de que vivíamos afinal em relações de vizinhança. Também eu interiorizei esta conceção e seguramente a repeti.</p>



<p>E contudo, esta ideia entrava em choque com a perceção de mundo grande, lugares distantes e estranhos, que desenvolvi quando comecei a viajar.</p>



<p>Por mais &#8220;familiares&#8221; que me parecessem, lugares que &#8220;conhecia&#8221; das imagens televisivas, eu mantinha a noção do distante, do tempo que demorava a chegar, cruzando o céu a uma velocidade quase impercetível. Entretanto, os modelos socioeconómicos também iam tornando mais iguais as cidades, a ocidente e a oriente: a mesma arquitetura, os mesmos meios de transporte, os mesmos anúncios, as marcas, o vestuário, os restaurantes de fast food, a uniformidade da aparência, polvilhado aqui e ali por vestígios de outros tempos, de gentes e culturas diferentes.</p>



<p>Ser turista é uma condição cheia de contradições! Procuramos em todo lado as nossas zonas de conforto, mas também o genuinamente diferente, o exótico…</p>
</div></div>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<p>A Internet e tudo o que esta tornou possível em termos comunicacionais, suscitam-me também perguntas e respostas contraditórias. A galáxia de McLuhan pode parecer cada vez mais uma aldeia, mas a proximidade, a vizinhança, a amizade, e muito do que era genuinamente humano, torna-se cada vez mais artificial. Por outro lado, e apesar da transformação dos media tradicionais, impressos e audiovisuais, estes mantêm, na sua dimensão informativa, uma visão de proximidade artificial, construída pelos critérios de noticiabilidade.</p>



<p>Tudo nos indica que o critério audiências domina a agenda mediática. Mas como se define essa agenda? Dar ao público o que o público quer versus o público só pode querer o que lhe dermos, eis a história interminável desta polémica das audiências.</p>
</div></div>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Maio de 2023 foi um mês prodigioso para a agenda mediática portuguesa</strong></h3>



<p>Começou com a peregrinação anual a Fátima, a comoção da fé dos milhares de pessoas, dramatizada na procissão das velas e nos lenços brancos a acenar em &#8220;oh Fátima, Adeus!&#8221;</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-full"><img decoding="async" width="500" height="333" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2023/06/Mw-1920.jpg" alt="" class="wp-image-26685"/></figure></div>


<p>Tivemos o caso Galamba, que era para ser sobre a TAP, mas que se foi tornando “O caso do computador do quarto andar&#8221; e daí passou para um diálogo monótono de perguntas sem resposta, sobre quem disse, o que disse, em que dia e a que horas, espremendo até já não haver mais sumo, no &#8220;caso das secretas”!</p>



<figure class="wp-block-image size-full"><img decoding="async" width="1703" height="1004" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2023/06/galamba-na-artv.jpg" alt="" class="wp-image-26686"/></figure>



<p>É um prodígio de duração em agenda, embora seja muito provável que já poucos estejam interessados em saber, exceção feita para os comentadores, que esperam ansiosamente que alguma resposta surja, para não repetirem diariamente os mesmos comentários, que, sejamos honestos, pouco ou nada acrescentam. São quase sempre redundantes. Mas é suposto servirem para nos ajudar a compreender melhor as notícias, como se as imagens e a fala dos jornalistas fossem linguagens obscuras. Ah! Dão credibilidade. O seu lugar de enunciação, de especialistas, credibiliza os factos. Há quem precise disso para ter opinião. As direções de informação sabem bem quanto valem os comentadores. Por isso os disputam e lhes pagam melhor do que à maioria dos jornalistas. No caso em apreço, estes atropelam-se e repetem as perguntas, cada vez mais desesperados por continuarem a não ter notícia. Já se contentavam com um sim ou um não, senhor Secretário de Estado, senhor Ministro, senhor Presidente.</p>



<p>Por ordem sabe-se lá de quem, voltou a ser não notícia o caso Maddie, o fenómeno mediático em duas décadas do século XXI.</p>



<p>Montou-se o arraial na albufeira da barragem do Arade, a 50 km da Praia da Luz, com tendas, dispositivo policial internacional, (polícia portuguesa, alemã e inglesa) cães pisteiros, pás e picaretas para procurar não sabíamos o quê e vários dias e serviços noticiosos depois, continuávamos a não saber.&nbsp;</p>



<figure class="wp-block-image size-full"><img loading="lazy" decoding="async" width="1068" height="347" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2023/06/maddie.jpg" alt="" class="wp-image-26687"/></figure>



<p>É impressionante como o desaparecimento de uma criança de 4 anos, já lá vão 16, tenha tal capacidade de ressurreição ao longo de todos estes anos! Incompreensível o poder daqueles pais que moveram montanhas, quase chegaram a Deus (afinal foram ao Papa que é Deus na terra!) e comoveram o mundo.</p>



<p>Procuram a filha? É a dor da perda? Mas não têm sequer um remorso por terem deixado 3 crianças sozinhas à noite, com 2 e 4 anos? Ou será a sua expiação? Quem são estes pais? Por muito menos, na zelosa Inglaterra, já terão as instituições tirado muitos filhos aos pais!</p>



<p>Nestes 16 anos, quantas crianças desapareceram no Mundo? Quantas foram violentadas? Quantas morreram de fome? Milhares, de quem só os parentes próximos se lembrarão. A maioria dos vizinhos da aldeia global, não chegou sequer a saber que desapareceram.</p>



<p>A chegar ao fim, a agenda mediática do mês ainda nos presenteou com muitas horas de onda vermelha. No estádio, no Marquês, na Câmara Municipal e na Praça do Município de Lisboa, por todo o país e mesmo lá fora, a festa Benfica aproximou-se da insanidade.</p>



<figure class="wp-block-image size-full"><img loading="lazy" decoding="async" width="1001" height="545" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2023/06/benfica-faixas.jpg" alt="" class="wp-image-26688"/></figure>



<p>Quis saber em que radica este fanatismo clubista, ou melhor, esta clubite. Fui ignorada, insultada, amigos zangaram-se comigo por não compreender o que é a paixão, por supostamente tê-los ofendido, chamando tribalismo à euforia da multidão, a roçar a insanidade.</p>



<p>Retirei-me para o meu canto, recordei “A tribo do futebol”, de Desmond Morris, a &#8220;Psicologia das massas&#8221; de Gustave le Bon, a &#8220;Psicologia de massas do fascismo” de Wilhelm Reich e fiquei na minha, que é também a deles: impulsividade, pobreza de razão, irracionalidade das massas em conjunto, estado de hipnose do inconsciente coletivo (&#8230;).</p>



<p>Os media apenas amplificam estes estados.</p>



<p>E entre &#8220;casos e casinhos&#8221;, as não notícias sobre a Maddie e a euforia benfiquista, fomos sabendo que a guerra Rússia /Ucrânia continua, contamos os mortos pelos dedos, percebemos o que são drones, sob orientação sempre zelosa dos comentadores da nossa praça. Fecham maternidades, faltam médicos no SNS, sobem os lucros dos bancos para valores obscenos, das empresas de comunicação e energia, grupos distribuidores/ hipermercados idem, milhões de portugueses vivem de dádivas alimentares, sobem as prestações da casa, os preços de tudo… Mas quem se importa.?! Nada desta causa indignação às massas, ainda que as bravas combatentes da esquerda bloquista não se cansem de denunciar. A política há muito que se tornou mais um entretenimento.</p>



<p>Não há causa política ou social capaz da mobilização de massas dum Benfica!</p>



<p>Afinal sempre houve ricos e pobres, como diria a minha prima Cremilde, do alto da sua sabedoria!</p>



<p>Não há mortos das guerras, das cheias, dos furacões, dos terramotos, de fome, capazes de nos arrancar uma lágrima tão sentida, como a dor daqueles pais que há 16 anos perderam a filha de 4, num instantinho, enquanto saíram para jantar com os amigos ali mesmo ao lado.</p>



<p>Fazemos zapping e é mais do mesmo, desistimos do grande ecrã e voltamo-nos para o minúsculo ecrã do telemóvel, procuramos, no mundo dos blogues, versões alternativas à narrativa única que as notícias diárias da TV nos impingem. Adormecemos cansados, anestesiados com tanto entretenimento.</p>



<p>Ou voltamos ao mundinho das nossas redes, a transbordar de narcisismo, dos nossos melhores ângulos, de como éramos há muitos anos, das fotos dos filhos, dos netos, dos amigos, das viagens de sonho, dos emojis, dos memes e dos textos pré feitos da famigerada IA (Inteligência Artificial): &#8220;que giro! que fofo! Linda! Parabéns! Adorável!&#8230;&#8221;. É esta agora a galáxia de McLuhan!</p>



<figure class="wp-block-image size-full"><img loading="lazy" decoding="async" width="1920" height="280" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2023/06/emojis-3.jpg" alt="" class="wp-image-26689"/></figure>
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		<title>&#8220;QUEM NÃO SABE LER, VÊ OS BONECOS&#8221;</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Alice Marques]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 26 May 2023 23:01:23 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>A invenção da escrita esteve inicialmente ligada à religião, e a ela acedia apenas uma escassa minoria de privilegiados na escala social, os escribas, que dominavam os pictogramas. Essas primeiras escritas eram, digamos, &#8220;os bonecos&#8221;. Mas, ao contrário de mais acessíveis do que os desenhos simplificados, abstratos, os alfabetos, a sua descodificação era inacessível às [&#8230;]</p>
<p>O conteúdo <a href="https://duaslinhas.pt/2023/05/quem-nao-sabe-ler-ve-os-bonecos/">&#8220;QUEM NÃO SABE LER, VÊ OS BONECOS&#8221;</a> aparece primeiro em <a href="https://duaslinhas.pt">Duas Linhas</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>A invenção da escrita esteve inicialmente ligada à religião, e a ela acedia apenas uma escassa minoria de privilegiados na escala social, os escribas, que dominavam os <strong><a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Hier%C3%B3glifo">pictogramas</a></strong>. Essas primeiras escritas eram, digamos, &#8220;os bonecos&#8221;. Mas, ao contrário de mais acessíveis do que os desenhos simplificados, abstratos, os alfabetos, a sua descodificação era inacessível às massas. O exemplo mais eloquente desta inacessibilidade é ilustrado pela famosa <strong><a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Pedra_de_Roseta">Pedra de Roseta</a></strong> que só com 3 sistemas de escrita permitiu finalmente descodificar os hieróglifos. O dito comum, &#8220;quem não sabe ler vê os bonecos&#8221; manteve forte religiosidade, como pode deduzir-se da exuberante decoração dos templos, nos milhares de anos de analfabetismo das massas.</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-full"><img loading="lazy" decoding="async" width="1600" height="1200" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2023/05/StFranciscoChurch1-CCBY.jpg" alt="" class="wp-image-26558"/><figcaption class="wp-element-caption">Igreja de São Francisco, Salvador da Baía, Brasil</figcaption></figure></div>


<p>Nasci na segunda metade do século XX, numa aldeia beirã, no distrito de Coimbra. Aí vivi até aos 17 anos, idade com que mudei para Coimbra. Daí, após dois anos, parti para a longa caminhada profissional, percorri vilas e cidades, das Beiras ao Ribatejo, até me fixar na Marinha Grande, há 37 anos.</p>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<p>No início dos anos 60, quando comecei a conhecer as letras, havia 3 escolas na minha aldeia, para umas largas dezenas de miúdos.</p>



<p>Quatro dezenas de anos antes, na geração dos meus pais, a escola era uma raridade. A escolaridade mínima era de 2 anos, mas poucas eram as famílias que, percebendo a importância de saber ler e escrever, punham as crianças na escola, mesmo onde as havia.</p>



<p>Contudo, tive um avô, materno, muito à frente do seu tempo. Com duas filhas e um filho, os três frequentaram a escola, sendo a minha mãe a primeira rapariga da aldeia a ir além da escolaridade mínima e fazer a 4a classe.</p>



<figure class="wp-block-image size-full"><img loading="lazy" decoding="async" width="891" height="255" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2023/05/mafalda.jpg" alt="" class="wp-image-26551"/></figure>



<p>Fui uma felizarda por ter este avô. Muitas mulheres e homens da minha aldeia, da geração dos meus pais, aprenderam a ler e a escrever com ele, professor até ao tutano, exceto no diploma, que nunca teve. De tudo o que devo a este avô, (que já homenageei no livro, &#8220;Volta a vida em vinte livros&#8221;), ficou-me também a vontade de ensinar. E foi assim que aos 13/14 anos me tornei também &#8220;professora&#8221; de algumas mulheres da geração da minha mãe. Já adulta, fui professora de História em escolas secundárias, quarenta e cinco anos, mas pensando, amiúde, que preferia ser professora das primeiras letras.</p>
</div></div>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<p>Das várias mulheres às quais consegui ensinar as letras para escrever o nome, recordo a minha tia Irene, hoje com 92 anos, há muito a viver no Canadá.</p>



<p>Tecnicamente analfabeta, isso não a impediu de ser uma passageira frequente da TAP, entre Porto e Toronto, viajando mesmo sozinha até há bem poucos anos. Admiro a sua capacidade de viver sem saber ler, ainda por cima num mundo onde mal-entende o que ouve, por ser outra a língua a que diariamente está exposta.</p>
</div></div>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<p>Esta situação, na era do audiovisual, faz jus ao dito popular &#8220;Quem não sabe ler, vê os bonecos&#8221; e à equivalente, muito citada no meio jornalístico, &#8220;uma imagem vale mais que mil palavras&#8221;.</p>



<p>Foi o meu filho que me fez compreender que ler é, em primeiro lugar, ver, como aliás vem nos dicionários. Tinha ele os seus 3 anos e adorava os bonecos de banda desenhada. Adormecia, muitas vezes comigo a ler-lhe as histórias dos almanaques do Patinhas. Mas não lhe bastava a voz. Mantinha-se de olhos bem abertos&nbsp; e insistia comigo:- &#8220;Os desenhos, mãe! Tens de ver os desenhos, não só as letras. Os desenhos é que têm piada.&#8221;</p>



<p>Percebo hoje o quão difícil deve ser viver sem saber ler, quando vejo na TV legendas em línguas de alfabetos não latino. &#8220;Os bonecos&#8221;, sem palavras que lhe delimitem o sentido, entram numa deriva polissémica que, ao contrário do que vulgarmente se diz, é preciso “ver para crer&#8221;, gera uma infinitude de significados que tornam as imagens incompreensíveis. &#8220;<strong><a href="https://youtu.be/BYj1fKEThFE">No comment</a></strong>&#8221; é o maior desafio interpretativo, como modelo de noticias sobre as quais não tenhamos qualquer informação para além das imagens.</p>



<figure class="wp-block-image size-full"><img loading="lazy" decoding="async" width="1200" height="538" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2023/05/photo_2023-05-26_07-48-23.jpg" alt="" class="wp-image-26555"/></figure>
</div></div>



<p>Saber ler é infinitamente mais complexo do que conhecer o alfabeto, nível elementar da relação entre a fala e o código linguístico. É também muito mais do que ler mensagens do Facebook.&nbsp; Mas isso é tema para muitos tratados, dos quais evocou e recomendo apenas um, incomparável: &#8220;Uma História da Leitura&#8221;, de <strong><a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Alberto_Manguel">Alberto Manguel</a></strong>.</p>
</div></div>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<p>Os humanos habitam o planeta há mais de um milhão de anos, não são os únicos seres vivos com capacidade comunicacional, mas são os únicos que fixaram em registo escrito os códigos que designamos por línguas. E isso foi apenas há uns escassos milhares de anos.</p>



<p>O fogo e a roda permitiram grandes saltos na evolução humana, mas nada se compara ao que a língua escrita tornou possível. A leitura decorre naturalmente da escrita, mas o inverso não é verdadeiro. A imensa maioria de leitores nunca se tornará escritor. É certamente uma condição necessária, mas não suficiente.</p>



<p>Por isso sempre me indigno quando ouço desvalorizar a escola, onde a leitura e a escrita não podem deixar de ser o mais importante objetivo. E é sem surpresa que, ao consultar pela enésima vez as taxas de alfabetização no mundo, verifico que a fome e toda a miséria dos povos coincidem com as taxas de analfabetismo.</p>



<p>Também sem surpresa confirmo que os países com maiores taxas de analfabetismo são no continente africano. Disputam estes lugares &#8220;de topo&#8221; com alguns da Ásia. A Índia, dita a maior democracia do mundo, tem uma taxa de 25,4% de analfabetismo (dados de 2020), só superada, no distante oriente, pelo Afeganistão, Bangladesh e Nepal. É o 132º país no índice de desenvolvimento humano, num total de 191 países classificados nesta lista.&nbsp; Essa &#8220;grande democracia&#8221; é uma potência nuclear e faz parte dos G20. Mas a dura realidade está fora das estatísticas. Imagens fugazes da Índia, que não chegam para nos estragar o jantar, antecipam como esta democracia se tornará em breve um país inviável para muitos milhões, no qual, em pleno século XXI também milhões de mulheres e crianças fazem diariamente vários quilómetros a pé para se abastecerem de água. País mais populoso do Mundo, a Índia tem mais miseráveis do que todo o continente africano. Terras que a civilizada Europa colonizou! Não deixa de ser chocante o contraste com as taxas de alfabetização (entre os 95% e os 99%) e índice de desenvolvimento humano na China e nas duas Coreias.</p>



<p>Há, porém, uma diferença fundamental: na Índia todos têm direito a falar. A comer, nem tanto. Mas, convenhamos, … é sabido que não se deve falar com a boca cheia!</p>



<figure class="wp-block-image size-full"><img loading="lazy" decoding="async" width="900" height="600" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2023/05/31A7543_RED.jpg" alt="" class="wp-image-26560"/></figure>
</div></div>
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		<title>Sonhei que voltava a caminhar</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Alice Marques]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 19 May 2023 23:02:15 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Era uma tarde de outono, como pude perceber por todos os sinais da natureza. O sol descendo rapidamente no horizonte, a luz e as sombras, o vento assobiando nas árvores, as cores da terra, das folhas caídas, misturando-se numa paleta sombria. Caminhava pelos pinhais, na companhia dos meus fiéis amigos caninos. Percorri caminhos velhos, com [&#8230;]</p>
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<p>Era uma tarde de outono, como pude perceber por todos os sinais da natureza. O sol descendo rapidamente no horizonte, a luz e as sombras, o vento assobiando nas árvores, as cores da terra, das folhas caídas, misturando-se numa paleta sombria.</p>



<p>Caminhava pelos pinhais, na companhia dos meus fiéis amigos caninos. Percorri caminhos velhos, com saudades de pisar descalça&nbsp; a terra húmida, deixando marcas indeléveis, que se confundissem com as dos animais que por ali passaram. Caminhos que são também sinuosas veredas que me levam à memória da minha infância, esse tempo de maravilhar-me com as pequenas coisas. Enchi os pulmões com o cheiro forte dos pinheiros e dos eucaliptos, comovi-me com a beleza do outono da natureza – folhas castanhas, apodrecendo na terra, musgos verdes, resistentes, brotando nos muros velhos e rente ao caminho, feito&nbsp; como genuíno corta mato, pelo pisar de muitas gerações, chão atapetado de agulhas de pinheiro e longas folhas de eucalipto,&nbsp; pequenos charcos, na terra molhada pelas últimas chuvas.</p>



<p>Encontrei-me mulher naqueles caminhos, imaginei alguém a caminhar a meu lado, uma mão na minha mão, senti a ternura percorrer-me até ao embargo da voz. Era tanto o silêncio, que conseguia ouvir os meus pensamentos. &#8220;Voltei a caminhar&#8221;- pensava.</p>



<p>Num caminho tantas vezes percorrido, encontrei três mulheres sentadas no muro centenário, numa clareira do pinhal. Recolhiam os últimos raios do sol, aqueciam as mãos no calor imaginário. Três mulheres velhas, vestidas de negro, viúvas de marido, de amor e de alegria. Aproximei-me delas e ouvi-as. Chamaram-me pelo nome, disseram-me que eu lhes fazia lembrar a sua juventude, a energia que perderam, a vontade de viver que partira com os corpos frios dos seus homens quando desceram à terra.</p>



<p>Subitamente fui assaltada por uma onda de calor, quando me pareceu ter apertado a&nbsp; mão de alguém. Apressei o passo, subi aqueles caminhos velhos já a correr. A tarde caía e a floresta é assustadora quando tudo se transforma em sombras. Cheguei a casa ofegante e ansiosa. A precisar de dizer a esse alguém que me acompanhara na caminhada :“obrigada por trazeres de volta à minha vida aquela luz que transforma em beleza tudo o que olho. És uma criatura da luz.” A boca abriu-se e fechou-se, permanecendo em silêncio. Afinal era só um sonho.&nbsp; Durou uma hora? Uns minutos? Nunca saberei. Apenas sei que o vivi como sonho, mas o recordo como se fosse real.</p>
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		<title>O tempo branqueia tudo</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Alice Marques]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 12 May 2023 23:05:44 +0000</pubDate>
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		<category><![CDATA[Império Austro-Húngaro]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Carlos V, imperador do Sacro Império Romano-Germânico, terminou os seus dias no mosteiro de São Jerónimo de Yuste, Espanha, território de que também foi rei, com o nome de Carlos I. Mas não só. Carlos V foi senhor dos Países Baixos, como duque de Borgonha e Arquiduque da Áustria. Chefe da crescente casa dos Habsburgos, [&#8230;]</p>
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<p>Carlos V, imperador do Sacro Império Romano-Germânico, terminou os seus dias no mosteiro de São Jerónimo de Yuste, Espanha, território de que também foi rei, com o nome de Carlos I. Mas não só. Carlos V foi senhor dos Países Baixos, como duque de Borgonha e Arquiduque da Áustria.</p>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<p>Chefe da crescente casa dos Habsburgos, também chamada Casa d&#8217;Áustria (que remonta ao século XIII, foi a base do império austro-húngaro e uma das mais poderosas famílias europeias até ao séc. XX) os seus domínios incluíam territórios da Alemanha, Áustria, Itália, Espanha, Sicília e Sardenha. E foi através do impulso da sua política imperialista, que se consolidou a colonização espanhola das Américas. A extensão dos territórios e reinos que dominou, granjeou-lhe tamanho prestígio que ficou conhecido como &#8220;senhor dum império onde o sol nunca se põe”. Com apenas 19 anos era considerado o homem mais poderoso do mundo.</p>



<figure class="wp-block-image size-full"><img loading="lazy" decoding="async" width="1654" height="1029" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2023/05/Dominions_House_Habsburg_abdication_Charles_V.jpg" alt="" class="wp-image-26309"/><figcaption class="wp-element-caption">Domínios dos Habsburgos na época da abdicação de Carlos V</figcaption></figure>
</div></div>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained"><div class="wp-block-image">
<figure class="alignright size-full is-resized"><img loading="lazy" decoding="async" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2023/05/581px-Elderly_Karl_V.jpg" alt="" class="wp-image-26312" width="326" height="404"/><figcaption class="wp-element-caption">Carlos V</figcaption></figure></div>


<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<p>Foi, portanto, com perplexidade, que vi associar o prémio Carlos V ao ideal da Europa, ao ser entregue no dia em que se comemora o fim da Segunda Guerra, a vitória dos Aliados sobre o&nbsp; nazi-fascismo e a declaração Schuman, um dos ideólogos desta nova Europa.</p>



<p>As guerras levadas a cabo por Carlos V e outros Habsburgos, ao longo de sete séculos, visaram tão só o poder, o domínio de territórios, a exploração de recursos e a pilhagem, como foi a colonização espanhola dos territórios americanos. Foram um projeto imperial distante do ideário que presidiu à progressiva construção duma Europa da paz, edificada sobre as ruínas da guerra, através de tratados longamente negociados. O poder dos Habsburgos foi forjado na ponta da espada, acrescido ainda pela herança legítima, decorrente dos cruzamentos/casamentos de que beneficiaram tantos poderosos ao longo da história. Razões de estado, dir-se-ia.</p>
</div></div>
</div></div>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<p>Mas eu ainda me permito acreditar que os ideais desta nova Europa, desde os fundadores às atuais instituições, estão longe das ambições dominadoras da casa dos Habsburgos. Ou será que simplesmente os processos de dominação evoluíram, sendo hoje apenas mais subtis e anónimos?!</p>



<p>O Banco Central Europeu não é a casa dos Habsburgos e as instituições europeias mantêm alguma aparência de democraticidade. Ou será este um pensamento ingénuo, de quem afinal não percebe nada de história?!</p>



<p class="has-text-align-justify has-vivid-red-color has-text-color" style="max-width:460px"><strong>Cada época escreve a história com os seus valores, o que é politicamente correto no tempo e a partir do lugar em que se encontram os seus escribas. Não há outra maneira de pensar a historiografia. Adam Schaff explicou cabalmente a diferença entre res<em> gestae</em> (as coisas que aconteceram) e <em>de rerum gestarum </em> (sobre as coisas que aconteceram, ou seja, a história) em &#8220;História e Verdade&#8221;, uma reflexão filosófica bem difícil de tragar, e Marc Ferro clarificou que &#8220;não há uma história, mas diversas versões&#8221;, em &#8220;Falsificações da História&#8221;, um eloquente e acessível ensaio escrito a partir da análise de manuais de história do ensino básico, de seis dezenas de países.</strong></p>
</div></div>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<p>Alexandre, o Grande, tornou-se mito, mas foi, segundo fontes históricas, um guerreiro, um general, com uma ambição maior do que o mundo conhecido por ele e pelo seu exército. Os Césares triunfaram sobre os “bárbaros&#8221;, matando, chacinando, em nome de Roma, da civilização. Ainda que os imperadores mais conhecidos e reconhecidos, sejam dignos dos adjetivos da mais sórdida barbárie. Calígula, Cláudio, Nero, Diocleciano, para citar só os que de imediato me vêm à memória, chefes do mundo civilizado, rejubilavam tanto com a chacina no campo de batalha como com os espetáculos de sangue nas arenas de Roma.</p>



<p>Mas isso foi há dois mil anos! O tempo branqueia tudo. Alexandre tem o seu lugar garantido na galeria dos heróis míticos, os Césares estão imortalizados nos arcos de triunfo. É desses que reza a história. Por mais que os estudos pós-coloniais já contem outras histórias, a escola continuará, por muito tempo, a contar uma história balizada por reis e imperadores.</p>



<p>Então, porque não há-de Carlos V ser a figura tutelar de um prémio, (miserável na quantia, por sinal: 30 mil euros) associado ao ideário de Jean Monet e Robert Schuman?! Afinal passaram cinco séculos!&nbsp; Quem se lembra que Carlos V, casado com a princesa portuguesa Isabel, filha do rei Manuel I, foi pai de Filipe II, e que a este Habsburgo e seus descendentes, de 1580 a 1640, nem Portugal escapou?!</p>
</div></div>
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		<title>&#8220;A nossa nobre missão civilizadora&#8221;</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Alice Marques]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 05 May 2023 23:02:32 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[CONTRA(o)TEMPO]]></category>
		<category><![CDATA[Economia e Empresas]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Abra as portas do roupeiro, conte as calças, vestidos, casacos, camisas, camisolas, sapatos, etc. Pergunte-se e responda: preciso de tudo isto para viver bem? Se por acaso está num centro comercial, basta caminhar olhando as montras, para cumprir, com sucesso, o exercício de reflexão que proponho nesta crónica. Quantas lojas de inutilidades!&#160; Se a leitura [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<p>Abra as portas do roupeiro, conte as calças, vestidos, casacos, camisas, camisolas, sapatos, etc. Pergunte-se e responda: preciso de tudo isto para viver bem?</p>



<p>Se por acaso está num centro comercial, basta caminhar olhando as montras, para cumprir, com sucesso, o exercício de reflexão que proponho nesta crónica. Quantas lojas de inutilidades!&nbsp;</p>



<p>Se a leitura lhe provocou algum incómodo, refugie-se no pensamento habitual: eu não! Eu não sou consumista, só compro o que preciso, separo os lixos, entrego sempre as roupas que não visto, na igreja, nas lojas sociais ou nos pontos de recolha. Eu não!</p>



<p>Pois eu digo: todos nós SIM e esse é O PROBLEMA.</p>
</div></div>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<p>A obsessão produtivista e a febre consumista, os dois pilares do capitalismo, o modelo de desenvolvimento que diariamente nos é vendido, serão, a curto prazo, a nossa sepultura.</p>



<p>A produção infinita de mercadorias é o modelo económico que grassa por todo o mundo, graças à globalização feliz, que os países do G7, G8, ou G20, festejam nas cimeiras.</p>



<p>O absolutismo económico do capitalismo, num mundo cada vez mais ameaçado de acabar, tem uma história curiosa. Depois de séculos de pilhagem de recursos do sul pela civilizada Europa, vieram os anos das trocas desiguais, depois das independências, mantendo-se a desigualdade norte/sul. Seguindo o nosso exemplo de sucesso, o sul global adotou o mesmo modelo económico, reproduzindo a divisão da sociedade em classes, sob o guarda chuva da democracia política. A missão civilizadora da Europa traduziu-se, onde pode, na reprodução desse modelo. Pois não é a Índia, com os seus 1500 milhões de seres, designada como a maior democracia do mundo?!</p>
</div></div>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<p>Ensinamos um modelo da economia contra a natureza e contra a sociedade. Ignoramos as diferenças sociais, desdobramo-nos em organizações humanitárias, para apaziguar a nossa culpa, pugnamos pelas liberdades como valores supremos, escondemos as misérias em lugares onde não nos incomodem.</p>



<p>E não bastando séculos de exploração, seguidos dos tempos de trocas desiguais, nos últimos anos, exportamos para o sul global os nossos resíduos, tornando-o a lixeira dos excessos do produtivismo.</p>
</div></div>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<p>As <strong><a href="https://www.bbc.com/portuguese/internacional-60144656">imagens do deserto</a></strong> de Atacama, no Chile, são o reverso da imagem que lhe propus no início desta crónica: aí acabam os milhões de peças de roupa da moda, bem escondidos dos nossos olhares.</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-full is-resized"><img loading="lazy" decoding="async" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2023/05/atacama-desert2.jpg" alt="" class="wp-image-26134" width="349" height="196"/></figure></div></div></div>



<p>Nós? Nós não! Nós fazemos parte daqueles que têm direito a peças novas em cada estação. Daqueles que têm direito a um mundo limpo, aos paraísos nos mares do Sul, a gozar uma boa vida. Somos do norte, da Europa, cumprimos, na história, a nossa nobre missão civilizadora, ensinamos os bons modelos a povos que viviam em estado selvagem. Construímos-lhes igrejas, ensinamo-los a rezar.</p>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<p>Ensinamos-lhes o melhor do capitalismo e ainda os presenteamos com 11 milhões de toneladas de lixo diário (dados de 2016), criamos ilhas de resíduos de plástico, e jardins Gramacho (a ironia do nome desta enorme lixeira no Brasil é gritante) onde crianças e adultos vasculham lixo reutilizável. Nesta e noutras lixeiras, onde centenas de pessoas desmantelam resíduos tecnológicos, expostas a toda a espécie de toxicidade, para que nós possamos mudar de gadgets a toda a hora, atafulhar as casas com tralha fora de uso, para que as multinacionais tenham lucros obscenos, a máquina publicitária vendendo-nos continuamente inutilidades indispensáveis à nossa felicidade.</p>


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<figure class="aligncenter size-full is-resized"><img loading="lazy" decoding="async" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2023/05/jardim-gramacho.jpg" alt="" class="wp-image-26133" width="347" height="195"/></figure></div></div></div>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<p>Ah! nós não! Nós tratamos os nossos lixos, reaproveitamos tudo, transformamos em novos bens todos os lixos! Até fazemos obras de arte com lixo!</p>



<p>E enquanto transformamos o sul numa lixeira, destruímos habitats marinhos e fazemos desaparecer espécies à velocidade de 200 a 2000 por ano, vamos entretendo-nos com a encenação, minuciosamente preparada para os media, da coroação do rei britânico, e, nos intervalos, a máquina publicitária nos aguça o apetite para mais um produto desnecessário, mas que nos deixa tão felizes! Ou aborrecemo-nos até à náusea, com os comentários à notícia requentada vezes sem conta dum ministro e dum governo que afinal ficam, apesar do puxão de orelhas do presidente.</p>
</div></div>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<p>Com paciência e sorte, fazendo zapping, talvez possamos ver umas imagens chocantes do deserto de Atacama, dos jardins Gramacho, ou da lixeira geral da maior democracia do mundo, a Índia, dos esgotos a céu aberto, limpos pelos dálitas. Mas podemos sempre mudar de canal!</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-full is-resized"><img loading="lazy" decoding="async" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2023/05/bairro-de-dalitas.jpg" alt="" class="wp-image-26135" width="363" height="204"/></figure></div></div></div>



<p>Nós, que reivindicamos o direito a consumir cada vez mais, a gozar uma boa vida, a não sermos incomodados com lixeiras, que protestamos se não há recolha do lixo atempada na nossa rua, nunca assumimos a nossa quota de responsabilidade. E ainda olhamos com desdém toda uma humanidade condenada a fazer o trabalho de limpar o mundo. Uma humanidade, a quem calha o sujo, o lixo, as imundícies, os plásticos que invadem os oceanos, para que o norte tenha cidades limpas e jardins floridos onde possa viver serenamente.</p>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<p>Em vez do minuto verde, ou dos programas fora de horas na RTP 2, nos quais os coletores de lixo e toda a imundície é tratada com a dignidade de grande notícia, uma vez na vida gostava de ocupar um lugar no qual pudesse decidir que todos os telejornais de horário nobre passariam a abrir com notícias sobre o lixo. O nosso lixo, que continuamos a varrer para debaixo do tapete.</p>


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<figure class="aligncenter size-full is-resized"><img loading="lazy" decoding="async" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2023/05/modelo-de-desenvolvimento.jpg" alt="" class="wp-image-26138" width="350" height="197"/></figure></div></div></div>
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		<title>O século XXI será chinês</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Alice Marques]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 29 Apr 2023 23:05:04 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[CONTRA(o)TEMPO]]></category>
		<category><![CDATA[Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Economia e Empresas]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Li algures que o ex-presidente Bill Clinton terá tido consciência disso, quando, em 1995, (ainda a meia dúzia de anos da entrada formal da China na Organização Mundial de Comércio ) se apercebeu de que a árvore de natal da Casa Branca era um pinheiro de plástico, made in China. A agenda mediática inclui agora diariamente a [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Li algures que o ex-presidente Bill Clinton terá tido consciência disso, quando, em 1995, (ainda a meia dúzia de anos da entrada formal da China na Organização Mundial de Comércio ) se apercebeu de que a árvore de natal da Casa Branca era um pinheiro de plástico, <em>made in China.</em></p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="alignright size-full is-resized"><img loading="lazy" decoding="async" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2023/04/xi-jinping.jpg" alt="" class="wp-image-25961" width="225" height="106"/></figure></div>


<p>A agenda mediática inclui agora diariamente a China. Xi Jinping tornou-se uma estrela, mais brilhante que Mao Tse Tung.</p>



<p>E os chineses são mais de 1.400 milhões! São muitas formigas obreiras, ávidas de consumo dos bens que modelam o conforto da vida moderna. Os custos ambientais do estilo de vida que ambicionam… ora, pensam nisso depois. </p>



<p>Para já, a obsessão capitalista do crescimento económico convive bem com o regime político, do partido, único, autocrático, repressivo. A China está bem com o pior dos dois sistemas. O Ocidente bem pode esticar-se, estar alerta com Taiwan. Pequim estará de arsenal em riste, para o que der e vier.</p>



<p>Acontecimentos recentes (leia-se a guerra entre a Rússia e a Ucrânia), têm proporcionado à China um enorme protagonismo na disputa pelo lugar cimeiro na nova ordem mundial em construção.</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="alignright size-full is-resized"><img loading="lazy" decoding="async" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2023/04/aaaMystrySolvd-1382a.jpg" alt="" class="wp-image-25971" width="225" height="206"/></figure></div>


<p>Sempre que vejo, nas notícias, encenações de desfiles militares e o aparatoso  arsenal, vem-me à memória uma frase que a minha prima, emigrante em França durante décadas, ouviu de uma colega chinesa e me repetiu, em tom assustado, vezes sem conta: Madame X dizia sempre, &#8220;quand la Chine se reveillera, le monde entier tremblera&#8221; (quando a China acordar, o mundo inteiro tremerá).</p>



<p>Há uma década, tive uma oportunidade, única na vida, de visitar um bocadinho da imensa China.</p>



<p>Integrada numa missão económica, a convite de empresários da Marinha Grande, passei uma semana no nordeste da China, em Changchung, capital da província de Jilin. E tive direito a uns dias em Xangai, onde decorria, à época, a grande exposição mundial, a EXPOXANGAI.</p>



<p>Do que vivi nesses dias, compus um postal de emoções, que retornam sempre que imagens da China aparecem no ecrã.</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="alignright size-full is-resized"><img loading="lazy" decoding="async" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2023/04/DSC_7758_l.jpeg" alt="" class="wp-image-25972" width="225" height="176"/></figure></div>


<p>Onze horas depois de sair do aeroporto de Schiphol, Amesterdão, o 747 da KLM sobrevoa o céu de Xangai. É noite. Vista a uns quilómetros de altitude, aquela cidade, de mais de 15 milhões de habitantes, parece-se com qualquer outra, gigantesca, em qualquer ponto do mundo. Uma espécie de nebulosa de estrelas!</p>



<p>Em alguns minutos, o imponente Boeing aterra numa das pistas de Pudong, uma obra prima da engenharia, da arquitetura e da funcionalidade.</p>



<p>Rapidamente ultrapassadas as formalidades alfandegárias, encontramo-nos no imenso hall das chegadas. A luz branca de milhares de lâmpadas torna visível um espaço que me parece estranhamente familiar. A presença da língua inglesa nos anúncios de néon, das cadeias de lojas de marca e restaurantes de comida rápida, ajuda a construir esta estranha familiaridade. Enorme e bastante silencioso, àquela hora da noite, naquele espaço cosmopolita, como são todos os aeroportos, apenas os traços orientais dos rostos dos muitos que chegam tornam evidente que aterrei na Ásia.</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="alignright size-full is-resized"><img loading="lazy" decoding="async" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2023/04/images-67.jpg" alt="" class="wp-image-25973" width="225" height="157"/></figure></div>


<p>É impossível a qualquer ocidental partir para uma primeira viagem à China sem uma dúzia de ideias feitas, sem mil e uma imagens sobre o que vai encontrar. E é preciso desconstruir essas ideias e apagar essas imagens, para, de olhos bem abertos, olhar, ver e recuperar o espanto. Foi o que fiz.</p>



<p>Integrada numa missão empresarial europeia que se deslocou à província de Jilin, na Manchúria, lá nos confins do nordeste da China, para mais um Euro-Asia Business Meeting, eu sabia que não veria a Praça de Tiananmen, nem a Cidade Proibida, nem caminharia pela Grande Muralha, que continuariam no meu imaginário, míticas e intocadas, até uma hipotética próxima viagem.</p>



<p>Mas a Manchúria, que alfuía à minha memória, em flashes do romance épico de Lílian Lee &#8211; &#8220;A última princesa da Manchúria&#8221;- como uma montanha sagrada, onde princesas guerreiras viviam aventuras inenarráveis, foi uma enorme surpresa. No aeroporto de Changchung, comecei a recuperar o espanto. E conservei-o em cada esquina, em cada rua da cidade e em cada espaço noturno.</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="alignright size-full is-resized"><img loading="lazy" decoding="async" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2023/04/images-68.jpg" alt="" class="wp-image-25974" width="225" height="227"/></figure></div>


<p>O Ocidente penetrou nas profundezas da Ásia. Os edifícios, as ruas, os automóveis, os jovens, as discotecas, os centros comerciais, a presença massiva de produtos de consumo e referências simbólicas europeias e americanas transformaram a estranha familiaridade numa espécie de desencanto. Afinal eu estava na China, numa cidadezinha de 7 milhões de seres e, à exceção da comida, da escrita chinesa e das dificuldades (mais que muitas) em me fazer entender (não é verdade que muitos chineses falam inglês, e mesmo os que falam, não o falam como nós), eu começava a sentir que também aquele pedaço de mundo era a minha casa!</p>



<p>Onde esperava encontrar história e identidade, encontrei uma cidade moderníssima, com a linha do horizonte recortada por arranha-céus e pelo brilho metálico das gruas, ruas atulhadas não de bicicletas nem riquexós, mas de automóveis de marcas europeias, topo de gama, ouvi música latina mas não chinesa e até comi, com talheres, ovos e bacon ao pequeno almoço.</p>



<p>A enorme zona industrial Changchung &#8211; Jilin, em construção acelerada, constituiu uma surpresa ainda maior, não pelo planeamento (aqui sim, há uma tradição que se mantém), mas pela capacidade de concretizar tão rapidamente. O perfil urbano parecia mudar de um dia para o outro, com arranha céus a crescerem como cogumelos.</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="alignright size-full is-resized"><img loading="lazy" decoding="async" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2023/04/images-69.jpg" alt="" class="wp-image-25975" width="225" height="314"/></figure></div>


<p>Xangai trouxe-me outros espantos. Pelo gigantismo! É difícil conceber uma metrópole de 15 milhões de seres humanos (hoje mais de 25) quando se vive numa cidade de 35 mil, a vida inteira num país com pouco mais de 10 milhões. Pelo arrojo e beleza dos edifícios que recortam o céu azul desta cidade do futuro. Pela oportunidade excecional de viajar suavemente no Maglev, à velocidade de 430 km por hora.</p>



<p>Mas foi também em Xangai que pude descobrir a China que se estende em superfície, na sombra dos extravagantes arranha céus onde as grandes multinacionais se instalaram, a China  dos bairros operários, maoistas, das pequenas lojas e mercados de rua, das bicicletas, dos restaurantes com candeeiros vermelhos de papel, suspensos do tecto, onde não há talheres e nos recebem com chá.</p>



<p>Gostei dessa China onde tudo conserva a identidade, onde é impossível comunicar sem falar a língua deles, mas onde, apesar de tudo, nos entendemos. Nessa China, senti-me uma estranha numa terra estranha, num lugar que não era a minha casa, mas que me devolveu a consciência de que o mundo só continuará grande e extraordinário enquanto conservar a diversidade.</p>
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