Sonhei que voltava a caminhar

Conformada com a vida sentada no cadeirão, os passos com o meu fiel andarilho e os passeios em cadeira de rodas, como tenho escrito, o inconsciente se encarrega de desmascarar-me. Mas com a memória, a linguagem e a imaginação a salvo, posso continuar a contar histórias, escritas letra a letra, pacientemente. A história de hoje é a de um sonho. Tão emocionante como se fosse real.

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Era uma tarde de outono, como pude perceber por todos os sinais da natureza. O sol descendo rapidamente no horizonte, a luz e as sombras, o vento assobiando nas árvores, as cores da terra, das folhas caídas, misturando-se numa paleta sombria.

Caminhava pelos pinhais, na companhia dos meus fiéis amigos caninos. Percorri caminhos velhos, com saudades de pisar descalça  a terra húmida, deixando marcas indeléveis, que se confundissem com as dos animais que por ali passaram. Caminhos que são também sinuosas veredas que me levam à memória da minha infância, esse tempo de maravilhar-me com as pequenas coisas. Enchi os pulmões com o cheiro forte dos pinheiros e dos eucaliptos, comovi-me com a beleza do outono da natureza – folhas castanhas, apodrecendo na terra, musgos verdes, resistentes, brotando nos muros velhos e rente ao caminho, feito  como genuíno corta mato, pelo pisar de muitas gerações, chão atapetado de agulhas de pinheiro e longas folhas de eucalipto,  pequenos charcos, na terra molhada pelas últimas chuvas.

Encontrei-me mulher naqueles caminhos, imaginei alguém a caminhar a meu lado, uma mão na minha mão, senti a ternura percorrer-me até ao embargo da voz. Era tanto o silêncio, que conseguia ouvir os meus pensamentos. “Voltei a caminhar”- pensava.

Num caminho tantas vezes percorrido, encontrei três mulheres sentadas no muro centenário, numa clareira do pinhal. Recolhiam os últimos raios do sol, aqueciam as mãos no calor imaginário. Três mulheres velhas, vestidas de negro, viúvas de marido, de amor e de alegria. Aproximei-me delas e ouvi-as. Chamaram-me pelo nome, disseram-me que eu lhes fazia lembrar a sua juventude, a energia que perderam, a vontade de viver que partira com os corpos frios dos seus homens quando desceram à terra.

Subitamente fui assaltada por uma onda de calor, quando me pareceu ter apertado a  mão de alguém. Apressei o passo, subi aqueles caminhos velhos já a correr. A tarde caía e a floresta é assustadora quando tudo se transforma em sombras. Cheguei a casa ofegante e ansiosa. A precisar de dizer a esse alguém que me acompanhara na caminhada :“obrigada por trazeres de volta à minha vida aquela luz que transforma em beleza tudo o que olho. És uma criatura da luz.” A boca abriu-se e fechou-se, permanecendo em silêncio. Afinal era só um sonho.  Durou uma hora? Uns minutos? Nunca saberei. Apenas sei que o vivi como sonho, mas o recordo como se fosse real.

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