CEIREIROS, A ARTE DE TRABALHAR A JUNÇA

Em memória de minha avó ceireira.

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A Beselga, freguesia do concelho de Penedono, é hoje, como as demais freguesias que a envolvem numas poucas léguas de distância, uma aldeia cativa desse funesto destino que foi a emigração, de que retorno se não apercebe e o abandono se revela no casario fechado, nos chãos abandonados de onde vinha, antigamente, o pão que os lavradores carreavam para as eiras, pão de centeio na fartura das eiras ou de milho maís que alegrava a gente com as desfolhadas. Abandono que se sente, ao olhar os alpendres desertos, as ruas sem caminheiros, as lameiras sem gado, sem cantos de lavadeiras as margens da ribeira.

Pão que, verdadeiramente, não era bastante para matar a fome da gente, fome de pão que traçou um novo destino para tanta, tanta gente!…

Da terra vinha esse pão de um tempo de memória, do centeio, de algum trigo, do milhão, do linho, da castanha, do feijão, que assim ditam os corógrafos antigos, o Padre Manuel de Azevedo que escreve em 1758 e D. Joaquim de Azevedo, um pouco mais de cem anos mais tarde.

O primeiro, no relatório que integra as Memórias Paroquiais de 1758, não fala das ceiras, essa “indústria” caseira a que D. Joaquim de Azevedo, na História Eclesiástica da Cidade e Bispado de Lamego, datada de 1877, dá relevo maior:

«Tem fábrica de esteiras de esparto, ceirões e outras obras, que vendem para os engenhos de azeite e para esteirar as casas, ou para assentos, o que tem grande consumo nos lugares da comarca”.

Nessa época, e vai mais de um século e meio, os ceireiros moviam-se já por léguas, que iam do Minho à Estremadura, com seus burricos carregados de ceiras para as azenhas das redondezas e os demais artefactos com que se esteiravam chãos de cozinha, lojas de serão, capachos de alindar soleiras de porta de lavrador ou mais fidalgas, frios soalhos de quartos de dormir, bancos de igreja, assentos de confessor.

Voltavam, depois da carga vendida, avaras moedas e, algumas vezes, o pagamento em frutos da terra, medidas de milho ou de feijão.

Trabalhar a junça ainda hoje é um saber que resiste aos tempos, em Beselga, Penedono.

É por essa época, com o ofício já enraizado, que o bom do Padre Cristóvão de Nossa Senhora do Patrocínio, a aceitarmos a legenda, introduz na Beselga o culto de Nosso Senhor dos Passos, devoto desse Senhor da Paixão assim invocado, e estabelece-o na antiga Capela da Senhora da Encarnação ou da Lameira, a um tiro de pedra do centro da aldeia, como se dizia e daí se enraíza, como o ofício, a devoção.

Os passos dos ceireiros alargavam-se, entretanto, para além da comarca. Machitos tropeteiros, como o do Malhadinhas, lá arcavam com a carga. Azenhas apetrechadas, pregões à boca de uma rua, uma porteira aberta sobre o entardecer, o machito acolhido em casa de lavrador conhecido, a manjedoura com feno, duas mantas no cabanal, a malga de caldo, pão e vinho que trouxe a lavradeira, e a rota batida ao outro dia, até poder regressar, montado agora no machito.

E a mulher, que ficara rezando com os filhos pequenos, sobre a noite vazia – “Senhor dos Passos te guie!…”. E a promessa de fazer, de joelhos, as voltas à capela, verão findo e o óbolo na bandeja, que o ceireiro regressara em paz, duas moedas que foram juntando para comprar um chão, levantar sobrado. Esquecidos, por um tempo, os passos sofridos, feridas saradas, as da saudade e tantas outras, quem sabe!…

Talvez o ceireiro, mais esses vagamundos de caminho vário, sentissem o Senhor dos Passos como seu irmão. Feridas que demoravam a sarar, suor de sangue, as quedas repetidas, um cireneu que sempre há, uma promessa que Ele ouvia, a mão estendida sobre a mão calejada do irmão.

Talvez se tenham afeiçoado assim, os ceireiros e o Senhor dos Passos; talvez, por isso, o carreguem agora no andor, em procissão, poupando-lhe assim algumas dores.

Talvez por isso o tenham escolhido para patrono. Que ninguém mais os compreenderia assim!…

Procissão do Senhor dos Passos em Beselga, Penedono

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