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	<title>Sónia Andrade, autor em Duas Linhas</title>
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	<title>Sónia Andrade, autor em Duas Linhas</title>
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		<title>Quimera</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Sónia Andrade]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 27 Mar 2025 00:05:32 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>À direita da oficina, uma pilha de carros para abate, mas ali sossegados numa camada de pó. À esquerda, outros tantos, ainda a pedir vida, os assentos para os meus primos e eu. Não eram os carros que nos impressionavam, era a parede branca onde, assim que se ouvia o trrrtt trrrtt da máquina mágica [&#8230;]</p>
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<p>À direita da oficina, uma pilha de carros para abate, mas ali sossegados numa camada de pó. À esquerda, outros tantos, ainda a pedir vida, os assentos para os meus primos e eu. Não eram os carros que nos impressionavam, era a parede branca onde, assim que se ouvia o trrrtt trrrtt da máquina mágica do Sr. João, Charlot aparecia na parede! Riamos, chorávamos com as histórias do vagabundo, Charlot na primeira pessoa. Pedíamos sempre para repetir e o Sr. João fazia-nos sempre a vontade como um maestro perante uma ovação transcendental.</p>



<p>Hoje, desço a Avenida da Liberdade trauteando a música romântica. O filme, o vagabundo, o poder de uma orquestra ao vivo, a voz de um filme que nunca é mudo, traz a lágrima no canto do olho e a risada no canto da boca, “A Quimera de Ouro”. A orquestra é brutal, a sala do São Jorge também, é tudo absolutamente bonito. Saí encantada, princesa num conto de fadas.</p>



<p>O cinema é um milagre que tanto nos salva como destrói. Quando nenhuma dessas coisas acontece, é porque foi assim-assim, de mastigar e deitar fora. Vivemos tempos modernos onde as imagens e os instantâneos de histórias só contribuem para a estupidificação. Tempos de pastilha elástica…</p>



<p>E vou trauteando pela Avenida da Liberdade a música que Charlie Chaplin compôs, Charlot interpretou, e a orquestra tocou com mestria. Acabou-se a quimera, descobriu-se o ouro. Puro cinema.</p>



<p>Numa outra noite, entrei no Salão Nobre da Voz do Operário que faz justiça ao nome. Um ecrã pequeno, mas suficiente, cadeiras de plástico, a espera pelo início da sessão.</p>



<p>Desde o primeiro frame que não há nada de assim-assim ou pastilha elástica. Ele prende-nos de imediato e atrás dele seguimos pelas ruas de Paris em busca do que parece ser apenas uma quimera.</p>



<p>Começo a mexer-me na cadeira, perdi a postura confortável que não recuperarei. E a história vai piorando e por ele nos apaixonamos cada vez mais, é uma genuinidade galopante.</p>



<p>Não chorei, estava demasiado incomodada para isso. É isso mesmo “A História de Souleymane”, um incómodo insistente maior do que um soco no estômago. Não dá lugar a lágrimas, é seco, não nos deixa olhar para o lado.</p>



<p>Quando finalmente conhecemos a história escondida de Souleymane rendemo-nos, não apenas à dureza do que relata, mas à estonteante interpretação de um ator no seu primeiro papel, inspirado na sua própria vida.</p>



<p>Saí encantada e sofrida, não trauteei nenhuma canção, não fui princesa, mas saí feliz porque pude escolher sair feliz. O cinema é um milagre que tanto nos salva como destrói.</p>



<p>Caminho pelo bairro da Graça sem chuva, o elétrico 28 passa por mim. A rua está molhada, as luzes refletem-se esborratadas nas poças de água, o super-mercado ainda está aberto.</p>



<p>Charlot é a mais bonita recordação que tenho do cinema. A “Vida de Souleymane” restaurou-me a fé nele. É um dos filmes mais duros e encantadores que vivi. Puro cinema.</p>
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		<title>A conversa</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Sónia Andrade]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 07 Feb 2025 19:16:18 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>O estômago serenou, a cabeça foi parar à conversa, a tal, em que deixei cair defesas, em parte porque ela também. Voltei a um assunto miseravelmente sagrado, falei sem filtros e falei também de quem penso ser, da farsa que penso ser. Há muito que não metia os dedos nestas feridas e isso incomodou-me sem [&#8230;]</p>
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<p>O estômago serenou, a cabeça foi parar à conversa, a tal, em que deixei cair defesas, em parte porque ela também. Voltei a um assunto miseravelmente sagrado, falei sem filtros e falei também de quem penso ser, da farsa que penso ser. Há muito que não metia os dedos nestas feridas e isso incomodou-me sem que, na altura, tenha reparado.</p>



<p>Foi só quando cheguei a casa que recapitulei a conversa e ainda estou sem saber ao certo porque abri o livro da minha tumultuosa existência. Em parte porque ela também o fez, em parte…</p>



<p>Com o silêncio da sala senti que as feridas não estão assim tão abertas afinal, que falar de assuntos escondidos não fez assim tanta mossa.&nbsp; Doer, dói sempre, mas não rasgou nenhum bocado de carne. Foi mais como esfolar os joelhos. Estão mais no passado do que acreditava. Sim, foi bom falar em voz alta de assuntos escondidos, doridos, com demasiado…demasiados.</p>



<p>Voltei ao silêncio da sala e abri portátil. Precisei de algo absolutamente perfeito. A perfeição está bem escondida no popular como escancarada no “intelectual”. E lembrei-me do Piçarra, mais do que me lembrar do meu Benfica. Ouvi o hino três vezes, alto e em bom som, literalmente. Escrevi. Gravei, fechei a folha e fui ver o noticiário.</p>



<p>Ainda vou voltar ao Piçarra esta noite, beleza precisa-se para balançar o escondido e dorido demais… ou, afinal, se calhar de menos.</p>



<p>O tempo passa e o YouTube vai passando. Chega a outra perfeição. “Haja o que houver… espero por ti”. Não sabia na altura como esta música seria tão literal na minha vida. Ele não voltou no vento, mesmo que tenha pedido por favor. Mesmo que sinta sempre um nó na garganta outro no coração, eu sei quem ele é para mim. Haja o que houver espero por ti. Para além da história de amor sofrida, tudo é perfeito por aqui e a voz dela faz-me sempre chorar. A perfeição tem este efeito em mim. Ele será sempre, sem dor, um amor intemporal.</p>



<p>Fui buscar água oxigenada e limpei as feridas ligeiras, a betadine ardeu um bocadinho, só um bocadinho. As feridas não estão saradas, ainda, mas não é o coração que as fará sarar, não, esse é o que as mantém abertas. É a cabeça, é o racional que irá sará-las com a mesma rapidez que se arranca um penso rápido. De uma só vez.</p>



<p></p>
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		<title>De Vez</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Sónia Andrade]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 01 Sep 2024 23:00:52 +0000</pubDate>
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		<category><![CDATA[a vida tal como ela é]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Amo-te Quando já não queria sonhos nem cavaleiros, tropecei literalmente em ti, cai, fiquei com os joelhos esfolados. Limpaste as feridas com água oxigenada que não arde. Deixaste-me em casa, pousaste um CD embrulhado em papel de jornal, o Público, penso. Saíste. Ficou um mês no mesmo sítio. Num dia de tédio asfixiante acabei por [&#8230;]</p>
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<p>Amo-te</p>



<p>Quando já não queria sonhos nem cavaleiros, tropecei literalmente em ti, cai, fiquei com os joelhos esfolados. Limpaste as feridas com água oxigenada que não arde.</p>



<p>Deixaste-me em casa, pousaste um CD embrulhado em papel de jornal, o Público, penso. Saíste. Ficou um mês no mesmo sítio.</p>



<p>Num dia de tédio asfixiante acabei por pegar no CD. Era doce. <em>Air, Moon Safari</em>. Deitei-me no sofá, dormi uma hora. Depois deixei-o encher a sala, pouco a pouco encheu-me de ternura.</p>



<p>Ri quando apareceste no jardim. Como sabias que estava ali? Não respondeste e pediste uma água. Não dissemos muito, mas falámos imenso. Convenceste-me a ir ao cinema. Chorei o tempo todo e tu fingiste que não reparaste.</p>



<p>Pedi-te para me levares a casa, mas argumentaste que estava tão bonita que tinhas de me levar a jantar naquele restaurante de cozinha de fusão, eu que não me preocupasse que era o cartão Visa da empresa que pagava. Ri de novo.</p>



<p>Era deliciosa a comida. Passeámos junto ao rio. Voltei para casa, para a melancolia que me habita. Ao lavar os dentes percebi que ri por duas vezes. Depois deitei-me. Vim-me várias vezes. Liguei-te a pedir para vires. Vieste.</p>



<p>Amo-te</p>



<p>Soube da morte do Ricardo naquela noite. Tinha saído para a festa de despedida de solteira da Ana, trajava um vestido azul acetinado. Alargava um pouco da cintura para baixo até ao joelho onde caía em duas rosas, também elas de cetim. Era lindo, sentia-me bonita, até ao sms. Tudo rodou à minha volta, um buraco deu lugar ao estômago, perdi-me do grupo, perdi o telemóvel.</p>



<p>Vi um bar que não conhecia, pedi uma tequila ao barman que retorquiu: quer um shot de tequila? Não, quero uma tequila. E traga outra sempre que o copo estiver vazio.</p>



<p>Entraste no bar, olhaste-me nos olhos, eu vi-te a dobrar. Perguntaste ao barman o que estava a beber e, apesar do ar consternado deste, ofereceste-me outra tequila. Virei-a num instante e corri para a casa de banho. Estavas à porta quando saí, pegaste-me no cabelo enquanto lavava a cara, deste-me o teu lenço para a secar, depois de me recompor perguntaste-me o nome. Fomos de braço dado para eu apanhar ar num passeio pela baixa de Lisboa. Mal falámos. Despediste-te sem pedir qualquer contacto. Ainda bem, queria chorar o Ricardo em vez de conhecer alguém. Passou o funeral, passou um pouco da dor, resolvi passar pelo bar. Ali estavas. Conversámos a noite inteira, os dias inteiros até àquele em que fomos morar juntos. Vinha-mo-nos em catadupa, todos os dias, até casarmos.</p>



<p>Depois, tivemos dois filhos, fomos felizes para sempre. Com as crianças passámos a vir-mo-nos de quando em vez.</p>



<p>Amo-te</p>



<p>Não tive hipótese, encantei-me por ti. Dei-te tudo, trouxe ao de cima tudo o que tinhas e nem sequer sabias, dei-te a família onde faltava a mulher. Ganhaste um amor próprio infinito, excessivo, que desequilibrou aquele que davas, deste cada vez menos, até acabar. Tanta falta te fiz, e do nada, deixei de fazer.</p>



<p>Jogaste um jogo mauzinho, mesquinho. No dia que bati com o carro foste ver o jogo de futebol, no dia da entrevista com aquela pessoa tão importante, esqueceste-te de perguntar como correu. Querias que fosse eu a acabar. Cobarde. Uma noite, pus-me em cima de ti e fiz-te vir três vezes em três tempos. Deixei-te de vez.</p>



<p>Amo-te</p>



<p>Fiquei imóvel a olhar para o quadro, o quadro de que Van Gogh disse ter sido o mais feio que pintou. Não sei quanto tempo estive ali dentro, do quadro, com as lâmpadas esborratadas de amarelo-torrado, a mesa de snooker mal dimensionada, os corpos sem vida por ali sentados. O vermelho que ali reina. Não sei quanto tempo estive ali dentro até um olhar observador, persistente, me fazer desviar do quadro. Cabelo negro, curto, roupa sóbria, um olhar profundo que me fez sentir nua. Voltei a olhar para o quadro, acercaste-te de mim. Partilhaste comigo o amor que se tem àquele quadro, à angústia da noite.</p>



<p>Devemos ter corrido todos os canais de Amesterdão, era de madrugada quando parámos. Convidaste-me para tomar o pequeno-almoço na tua <em>house boat</em>. Querias mostrar como a mesa no deck baloiça com a pequena ondulação da água, mas nada em cima dela cai ou parte. É magia, dizias. Agradeci uma e outra vez, mas não podia ficar. Argumentaste que já tinhas companhia para dormir, o teu grande amor esperava-te, eu tinha sorte em ficar no sofá. De tanto rir consenti, tomámos um pequeno-almoço ondulante, deste-me uma manta fofa para me deitar. Nery, o teu grande amor, um podengo preto, meio salsicha, há muito que te esperava no quarto. Ao final do dia meti-me com vocês na cama, o Nery saiu. Juntos éramos bombásticos, eras o grande amor da minha vida, o melhor amante.</p>



<p>Mudei-me para Amesterdão, mudámo-nos para uma <em>house boat</em> maior, adoptámos a Lady. A cadela, preta também, o Nery, nós&#8230; nós éramos todos absolutamente felizes. Até àquele jantar.</p>



<p>Fomos a casa de amigos e conhecemos o Anthony, artista plástico, giraço, culto, com um humor que me fez soltar gargalhadas a noite toda. Nunca te aproximaste de nós, não reparei na altura.</p>



<p>Já em casa, perguntaste tudo e mais alguma coisa sobre ele. Primeiro achei piada, depois assustei-me. Respondi a tudo o que sabia, mas foi nas perguntas para as quais não tive resposta que elevaste a voz, aproximaste-me de mim, chegaste a dar-me um encontrão e depois fez-se negro.</p>



<p>Acordei contigo a pôr-me compressas no olho inchado, já era dia. Pediste desculpas mil vezes, andavas stressado com o trabalho, foste um idiota que teve ciúmes de outro idiota à conversa com a mulher mais poderosa do mundo. Desculpa, desculpa, não volta a acontecer.</p>



<p>Fui em silêncio para a casa de banho, olhei o meu rosto, chorei, o meu íntimo disse para fugir, mas eu amava-te, foi só aquela vez. Fiquei, melhorei, viemo-nos o fim- de- semana inteiro.</p>



<p>Na 2ª feira saí para trabalhar, mas apanhei antes um táxi para o aeroporto. Fugi de ti, nunca mais me viste.</p>
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		<title>Dois</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Sónia Andrade]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 07 Aug 2024 23:00:28 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>O teu cabelo é dourado, cai-te numa pele bronzeada que enquadra o sorriso franco. Pareces bem com a vida e fazes-me sentir bem comigo. Sentamo-nos na esplanada, rimos com as patetices anteriores. Preciso de ir à casa de banho. Dizes que esperas, tranquilamente. Entro no restaurante. É feito de madeira, tem mesas e bancos corridos, [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>O teu cabelo é dourado, cai-te numa pele bronzeada que enquadra o sorriso franco. Pareces bem com a vida e fazes-me sentir bem comigo. Sentamo-nos na esplanada, rimos com as patetices anteriores. Preciso de ir à casa de banho. Dizes que esperas, tranquilamente. Entro no restaurante. É feito de madeira, tem mesas e bancos corridos, toalhas de papel, mesa posta. Ao fundo, uma enorme cristaleira com tampo de mármore. O que há para almoçar, pergunto. Bacalhau e Bifes de Boi. É isso mesmo. Reservo a mesa do fundo e saio para te comunicar que vamos almoçar ali. Levantas-te, achas bem. Almoçamos entre brindes e beijos e o meu refilar com o senhor do lado que me respondeu mal e acabou por mudar de mesa por causa dos beijos. Levanto-me para ir de novo à casa de banho enquanto pagas. Chego à rua, o sol eléctrico fere-me os olhos, não te vejo em lado nenhum. Nem acredito que desapareceste. A senhora do carrapito e óculos que nos serviu chama-me: o seu amigo foi à casa de banho. Sorrio, agradeço. Sento-me cá dentro à tua espera. Sais disparado, a senhora do carrapito e óculos sai atrás de ti para te dizer que estou cá dentro. Olhe, então não leva os martelinhos? Volto mais uma vez atrás. Ao pegar neles, derrubo um bibelot de loiça, acho que era um sapo verde. Mas olhe, eu pago. Deixe estar, deixe estar, diz a outra senhora encolhendo os ombros.</p>



<p>Pedes-me a mão, perguntas: queres fazer amor comigo? Olho-te nos olhos, beijo-te os lábios grossos.</p>



<p>Pegamos um táxi, dizes que conheces um sítio bonito ao pé da mítica discoteca. O taxista é velhote, simpático. Quando chegamos diz-nos: ainda vão dançar, não é? Rimos, eu respondo: não, isso é para os mais novos, nós, é mais cama. Bom dia, bom trabalho!</p>



<p>Olhamos para a porta. Olhamos um para o outro. Entramos de novo na festa, na noite do santo padroeiro. O barman faz-me uma pequena festa, a ti já te conhecem. Estás em casa, eu continuo na minha festa de anos. É quando me puxas para dançar e tiras a sweatshirt que vejo bem o teu tronco. É meticulosamente delineado. Já foste bailarino, és perfeito. Deixo-te na pista e fico a ver-te dançar para mim. Danças bem, mais do que nunca desejo-te. Quando voltas ao bar encosto-me a ti, beijo-te e procuro com a mão o teu sexo. Rimos e decidimos ir embora, mas pedes mais uma cerveja, eu amuo e bebo mais um shot com o barman, tu amuas.</p>



<p>Subimos, enquanto vais à recepção fico à conversa com o porteiro. E estamos em festa, outra vez. O rapaz da recepção não se livra dos meus martelinhos, nem os hóspedes que vão a sair. Depois de, pela enésima vez naquela noite dizer que faço anos, desejam-me os parabéns e um dia feliz. Subimos ao quarto. Gosto do quarto. Fechamos as cortinas. Deitamo-nos atravessados na cama. Olho para ti, levanto-me e tiro a camisa. Os teus olhos brilham e rapidamente me imitas.</p>



<p>Acordo envolta em ti, o meu corpo nu não tem pudor do teu. Olho para os teus cabelos, escondem-te o rosto, estás virado de costa. Fazes-me festas, quase que adormeço no toque dos teus dedos. Voltas a beijar-me, a abraçar-me e fazemos amor. O telefone toca, mas desligo, não quero falar com ninguém, não quero saber de mais nada para além do que se passa neste quarto.</p>



<p>Acordo com o telefone. Onde estás? Sabes que horas são? Ia agora a tua casa, a tua mãe comprou um bolo. Opa, já não voltas hoje? Pelo menos avisa a tua mãe. Desligo com o peso que ela fez questão em largar. Anoiteceu outra vez. Tomo um duche bem forte, ligo à minha mãe. Já não vou hoje, estou em casa de um amigo. Até amanhã. Deito-me na cama. Vês as horas. Perguntas se está tudo bem. Dizes que amanhã de manhã me levas à estação. Digo-te que preciso dum chá. Telefonas para a recepção, pedes o serviço de despertar e um chá, mas o bar está fechado. Suspiro. Com um sorriso perguntas se te vou obrigar a ir à rua buscar um chá. Solto uma gargalhada, abano a cabeça e a má disposição física passa. Conto-te que a minha mãe disse que estava tudo ok e que a minha amiga parecia a minha mãe. Rimos. Recordamos mais pormenores da tarde, da chegada ali, da noite, do sexo. Contas-me histórias enquanto me tocas. Falas da tua vida. Não acredito na tua idade, pareces tão mais novo. Perguntas se esta é uma daquelas situações em que acordei, olhei para o lado e não me lembro nem gosto do homem que vejo nu na cama. Beijo-te outra vez. Dizes para encostar a cabeça em cima do teu peito. Estou quase para te dizer que esta é a minha posição preferida mas, no último instante, resolvo não o fazer. Viro-me de costas e abraças-te a mim. Viras-te de costas, mas tocas-me na perna. Passamos uma noite assim, a abraçarmo-nos, a tocarmo-nos, a rir, a conversar, a fazer amor.</p>



<p>Às seis da manhã, quando estou quase, quase a adormecer, dizes ternamente que temos de ir, que irei perder o comboio. Peço-te cinco minutos. Quando te levantas e vestes as calças com ar resignado dizes que temos de voltar à realidade.</p>



<p>A avenida está deserta. Procuramos um táxi, sem grande sorte, mas também sem grande preocupação. Pões-me a mão no ombro, na mão levo um dos martelinhos, deixei o outro. Caminhamos serenamente pelo cinza da manhã quieta. Lá aparece um táxi que mais parece uma discoteca ambulante de música da santa terrinha. Ia eu tão romântica e apanho com o folclore da realidade. Não consigo olhar para ti, senão desmancho-me a rir.</p>



<p>Pedes-me o número de telefone. Dou-te quando chegar ao carro, está bem? Olho para o lado, sinto um vazio. Como que a pressenti-lo, pões-me a mão na perna. Gosto de ti, repetia tudo outra vez.</p>



<p>Deixas-me na estação, pedes desculpa por não me levares ao apeadeiro. Durmo mal no comboio. Acordo e adormeço a pensar que estou nos teus braços que não estou. Chego a casa, descalço-me. Aqueço qualquer coisa para comer. O telefone toca, és tu a perguntar se cheguei bem. Adormeço desta noite de São João.</p>
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		<title>Pirata &#038; Motard</title>
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		<pubDate>Fri, 28 Jun 2024 23:41:46 +0000</pubDate>
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		<category><![CDATA[gatos]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>&#8211; Bem vindo pá! &#160;&#8211; Olá&#8230; &#160;&#8211; Que focinho é esse? &#160;&#8211; É difícil deixá-la&#8230;  &#8211; Nada disso, nunca estiveste tão perto como agora. Sentes-lhe o coração, o pensamento, todos os sentimentos. Podes sempre falar-lhe ao coração. Ela nem sempre ouve, é certo&#8230; &#8211; Pois&#8230; &#8211; Ai! Continuas no leite tónico? &#8211; Não, quero um shot [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<p>&#8211; Bem vindo pá!</p>



<p>&nbsp;&#8211; Olá&#8230;</p>



<p>&nbsp;&#8211; Que focinho é esse?</p>



<p>&nbsp;&#8211; É difícil deixá-la&#8230;</p>



<p> &#8211; Nada disso, nunca estiveste tão perto como agora. Sentes-lhe o coração, o pensamento, todos os sentimentos. Podes sempre falar-lhe      ao coração. Ela nem sempre ouve, é certo&#8230;</p>



<p>&#8211; Pois&#8230;</p>



<p>&#8211; Ai! Continuas no leite tónico?</p>



<p>&#8211; Não, quero um shot de tequila. Bonito este lugar.</p>



<p>&#8211; Muito obrigado!</p>



<p>&#8211; É teu&#8230;?</p>



<p>&#8211; Yap!</p>



<p>&#8211; Mas isto parece ser feito de diamantes!</p>



<p>&#8211; Quando largas a Terra todas as lágrimas que vertem por ti são diamantes aqui, eu vim coberto deles. Vai daí, resolvi fazer um hotel para cães e gatos, não sou racista.</p>



<p>&#8211; Ai que saudades.. Sabes que me cantou canções de embalar antes de eu sair?</p>



<p>&#8211; Claro que sei, peguei nos dois ao colo enquanto ela desafinava com toda a alma. Foi bonito. Repito, estás sempre com ela porque ela traz-nos sempre com ela. Nunca nos deixará. Mas olha, vens sem diamantes? Muita gente chorou por ti&#8230;</p>



<p>&#8211; O porteiro disse para os deixar à entrada&#8230;</p>



<p>&#8211; Ah, ah ah, ainda não te conhece. Agora o que precisas é de um projecto!</p>



<p>&#8211; Tens alguma coisa em mente?</p>



<p>&#8211; Yap, quero abrir uma cadeia de hotéis para cães e gatos, tu ficas com os cães eu com os gatos. O desafio é maior.</p>



<p>&#8211; Hum&#8230; boa. Como se vai chamar?</p>



<p>&#8211; Pirata &amp; Companhia.</p>



<p>&#8211; Então e eu?</p>



<p>&#8211; Ok, ok. Pirata &amp; Motard!</p>



<p>&#8211; Se vamos ser sócios&#8230; Motard &amp; Pirata!</p>



<p>&#8211; Eu cheguei primeiro!</p>



<p>&#8211; Os últimos são sempre os primeiros!</p>



<p>&#8211; Grrrrrrrrrr</p>



<p>&#8211; Fssssss</p>



<p>&#8211; Grrrrrrrrr</p>



<p>&#8211; Fssssss.</p>
</div></div>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<p>Silêncio&#8230;.</p>



<p>Pegam nos copos, olham-se nos olhos, dizem ao mesmo tempo:</p>



<p>&nbsp;&#8211; Companhia Ilimitada!</p>



<p>&nbsp;&#8211; Companhia Ilimitada!</p>



<p>&nbsp;&#8211; Grande nome, grande ideia!</p>



<p>&nbsp;&#8211; A ideia foi tua pá!</p>



<p>&nbsp;&#8211; Népia, foi tua!</p>
</div></div>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<p>Silêncio&#8230;</p>



<p>Viram-se para o balcão, pedem mais dois shots. Tchim, tchim!</p>



<p>&nbsp;&#8211; Sacana, a ideia foi dela!</p>



<p> &#8211; Sacanita&#8230;</p>



<p>&#8211; Que saudades&#8230;</p>



<p>&#8211; <a href="https://www.facebook.com/photo/?fbid=456561772929790&amp;set=a.106083677977603">Yap..</a>&nbsp;</p>
</div></div>
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		<title>Esparguete fininho</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Sónia Andrade]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 19 Jun 2024 19:06:23 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Lifestyle & Gadgets]]></category>
		<category><![CDATA[SOCIEDADE]]></category>
		<category><![CDATA[aletria]]></category>
		<category><![CDATA[amor]]></category>
		<category><![CDATA[família]]></category>
		<category><![CDATA[receita de aletria]]></category>
		<category><![CDATA[reuniões de família]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Aletria é aquele doce que está sempre nos almoços e jantares intermináveis de família. E tanto está na mesa de um rico como na de um pobre. Não passa de uma massa, leite, açúcar ou leite condensado, ovos, canela, uma casca de limão, uma pitada de sal, outra de amor. Aletria não se despeja em [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Aletria é aquele doce que está sempre nos almoços e jantares intermináveis de família. E tanto está na mesa de um rico como na de um pobre. Não passa de uma massa, leite, açúcar ou leite condensado, ovos, canela, uma casca de limão, uma pitada de sal, outra de amor.</p>



<p>Aletria não se despeja em pires ou tacinhas, como às vezes se faz com o arroz-doce. Não, aletria é uma travessa grande, polvilhada com canela e tradição.&nbsp; Aletria é para todos. É família.</p>



<p>Respondi ao pai que não, mas que faria uma ao filho, o pistautira, como gosto de lhe chamar. Na primeira vez, disse-o com um ar falsamente indiferente, com uma pontinha de provocação, de nariz empinado. Resultou. Devolveu-me, alto e em bom som: “Não me chames pistautira”! E disfarçou um sorriso.</p>



<p>Num plano que saiu trocado, fiz duas travessas de aletria em casa e levei uma para casa do pistautira, que foi para a cama cedo. O arroz de polvo do anfitrião não deixou qualquer espaço para sobremesas. Já depois de café e cigarros fui prová-la. Repeti, mas às escondidas na cozinha. Depois saí à rua e fui deambular com amigos.</p>



<p>Nunca soube se tinham comido e gostado, não houve um único comentário, o que, apesar de fingir que não, como qualquer cozinheiro amador que se preze, beliscou o meu ego culinário.</p>



<p>Mas, no final de outra jantarada, o pistautira perguntou ao pai se ainda havia “esparguete fininho”.&nbsp; O pai sorriu, disse que não, que já tinha acabado, que estava muito boa. O pistautira olhou para mim, fez o seu melhor ar “ó pra mim tão querido e amoroso” e perguntou: fazes outra? Recapitulei rapidamente a agenda e respondi-lhe que amanhã seria difícil, tinha muito trabalho, mas que faria noutro dia. Ele não disse mais nada e seguiu para a brincadeira com o primo.</p>



<p>Na manhã seguinte consegui despachar o pequeno-almoço, loiça, banho e afins até às onze. Consegui até beber uma bica e comprar o jornal! Depois despachei emails, telefonemas e apontamentos. Sairia de casa às três e faria o trabalho todo seguido até às seis. Depois havia futebol.</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="alignright size-full is-resized"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="1023" height="947" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2024/06/aletria-2.jpg" alt="" class="wp-image-34705" style="width:137px;height:auto" srcset="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2024/06/aletria-2.jpg 1023w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2024/06/aletria-2-300x278.jpg 300w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2024/06/aletria-2-768x711.jpg 768w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2024/06/aletria-2-696x644.jpg 696w" sizes="(max-width: 1023px) 100vw, 1023px" /></figure></div>


<p>Mas quando fui ao frigorifico para preparar o almoço lembrei-me do pistautira. Olhei para o relógio, eram vinte para as duas. Havia aletria, leite, limão e canela. Saí, com passo apressado para o minimercado da esquina que estava fechado. Desci à mercearia chinesa, sem sorte alguma. Hora de almoço. Uma transeunte sugeriu-me o LIDL que era logo ali ao virar da esquina. Não era, era mais um bocadinho. Comecei a pensar que me iria atrasar e apressei o passo. Trouxe uma lata de leite condensado, das pequenas, meia dúzia de ovos e voltei num ápice.</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="alignright size-full is-resized"><img decoding="async" width="254" height="199" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2023/04/ovos.jpg" alt="" class="wp-image-25499" style="width:150px;height:auto"/></figure></div>


<p>Uma panela com água a ferver, com uma pitada de sal. Separei as claras das gemas. Quatro gemas. Pus a Elis Regina a fazer-me companhia e mandei para dentro da panela seis novelos de aletria. Separei-os com calma, com a ajuda de um garfo e assim que se soltaram, desliguei o lume e escorri a massa. Abri a lata de leite condensado, e tive pena de não ter o pistautira ali ao lado para a rapar. Há coisa mais gira do que ver um puto a fazer isso? A seguir, depois de engolir uma colherada de leite condensado de que não abdico, despejei-o para a panela, enchi por duas vezes a lata de leite condensado com leite, misturei tudo e acrescentei duas cascas de limão e um pau de canela. Pus a aletria, o lume no mínimo e a colher de pau a rodar na panela. Não pode haver pressa a fazer este doce. Tem de se ter paciência, tem de haver vagar. Fiquei por ali, com a Elis a cantar “o nosso mais que perfeito está desfeito” e a pensar no pistautira. Nas frases bonitas que disse só a mim, só para mim. Nas nossas partidas, que só nós é que achávamos um piadão. Nos nossos segredos, selados com um piscar de olhos. Sacana do pistautira, é giro que se farta!</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="alignright size-full is-resized"><img decoding="async" width="756" height="739" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2024/06/leite-condensado3.jpg" alt="" class="wp-image-34706" style="width:134px;height:auto" srcset="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2024/06/leite-condensado3.jpg 756w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2024/06/leite-condensado3-300x293.jpg 300w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2024/06/leite-condensado3-696x680.jpg 696w" sizes="(max-width: 756px) 100vw, 756px" /></figure></div>


<p>Tirei a aletria do lume, pois há muito que o leite fervera, a rir-me com o seu paladar de adulto e apetite devorador. O pistautira come bem, mais do que muitos crescidos que conheço, gosta de tudo, e comigo rendeu-se aos <em>cornichons</em>, aqueles pepinos pequeninos, avinagrados, crocantes, deliciosos, saborosos, irresistíveis.</p>



<p>Dei tempo à aletria para arrefecer, só um bocadinho, e juntei as gemas batidas. Despejei-a numa travessa redonda, depois de retirar as cascas de limão e o pau de canela que serviram para decoração. Na mão coloquei canela que fui espalhando aleatoriamente. Quando, ainda miúda, fazia&nbsp; arroz-doce com a minha mãe, tinha um verdadeiro prazer em humedecer a borda de um cálice de vinho do Porto, passá-lo por canela e fazer desenhos com bolas por cima do arroz, tipo carimbo.</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="alignright size-full is-resized"><img loading="lazy" decoding="async" width="679" height="418" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2024/06/canela.jpg" alt="" class="wp-image-34708" style="width:136px;height:auto" srcset="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2024/06/canela.jpg 679w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2024/06/canela-300x185.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 679px) 100vw, 679px" /></figure></div>


<p>Agora adulta, gosto de polvilhar até cobrir completamente a travessa. Tem de saber a canela.</p>



<p>Almocei, arrumei a cozinha e antes de sair deixei um bilhete: “Foi feita meio à pressa, mas com carinho”. Assinei e acrescentei uma nota: “Coloquem no frigorifico”.</p>



<p>Eu gosto mais de aletria fria.</p>



<p>À mão de semear: massa de aletria, sal, leite condensado, canela em pó, leite, cascas de limão, ovos. Carinho.</p>
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		<title>Cem gramas para experimentar</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Sónia Andrade]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 03 Jun 2024 23:00:43 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Lifestyle & Gadgets]]></category>
		<category><![CDATA[SOCIEDADE]]></category>
		<category><![CDATA[a vida tal como ela é]]></category>
		<category><![CDATA[guloseimas]]></category>
		<category><![CDATA[preguiça]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Decidi que não ia pegar em tachos e panelas. Estava como o tempo: cinzento, invernoso, preguiçoso. Dei-me ao luxo de comer na esplanada, pedi um clássico, bitoque de vaca grelhado, mal passado. Mas ela, que andou a manhã toda comigo, obrigou-me a recolher ao café para degustar um pastel de Tentúgal. Não consigo resistir a [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Decidi que não ia pegar em tachos e panelas. Estava como o tempo: cinzento, invernoso, preguiçoso. Dei-me ao luxo de comer na esplanada, pedi um clássico, bitoque de vaca grelhado, mal passado. Mas ela, que andou a manhã toda comigo, obrigou-me a recolher ao café para degustar um pastel de Tentúgal. Não consigo resistir a este doce. Fiz o trabalho e conduzi muito devagar para casa, ela está sempre a provocar-me. Sacana! A caixa de correio estava cheia. Entre os trinta panfletos de publicidade, descobri o correio do vizinho. A mim, ninguém escreveu.</p>



<p>Não me apetecia trabalhar, cozinhar, ir ao cinema, passear. Não me apetecia nada de nada. Ela faz-me isto de vez em quando.</p>



<p>Voltei a calçar as botas, coloquei um cachecol rubi para contrariar a tarde cinzenta e saí. As refeições congeladas não me seduziram, os restaurantes também não. Fiz compras de trazer por casa e continuei a deambular pela rua como se não tivesse trabalho para fazer até dizer chega.</p>



<p>Parei à frente da montra. Já a tinha visto, mas nunca reparado. Havia café de Timor, Café Selvagem, de Mistura Forte … tinha cafeteiras de saco e de pressão, latas de chás daqui e dali, bolos secos e bombons.</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="alignright size-full is-resized"><img decoding="async" src="https://i.imgur.com/R9x6uXd.jpeg" alt="" class="wp-image-34345" style="width:203px;height:auto"/></figure></div>


<p>Entrei na loja e recuei ao tempo em que não era nascida e as lojas eram&nbsp; todas assim, cheias de pormenores, de artigos irrepetíveis, elegantes. Atrás do balcão, o casal parecia estar ali desde sempre. Hesito entre o de Timor e aquele que “mais se vende”, leva o nome e o carimbo do bairro. Opto pelo segundo. A senhora das faces rosadas dá-me um saquinho de papel-manteiga com “cem gramas para experimentar”. Pago e, sem grande expectativa, pergunto se tem de plantas secas para infusões. Com toda a naturalidade diz que sim senhora, que há lúcia-lima, camomila, cidreira… chás à vontade do freguês. Arregalo os olhos, dou um passo atrás: tem chá príncipe? Diz sim senhora, informa-me que cada saco custa um euro. Pode ser, claro que pode ser. Pago. Lembro-me ainda da hortelã-pimenta. Também tem. Abro o porta-moedas à procura de outro euro. Largo a loja com um saco de plástico moderno e vulgar e com três pacotes antigos e invulgares lá dentro. Vou direitinha à pastelaria do bairro. Quero três roscas de ovo, dois corações de chocolate, quatro de coco – dois redondos e dois rectangulares – e duas roscas de manteiga com açúcar em cima.</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="alignright size-full is-resized"><img decoding="async" src="https://i.imgur.com/49MNxh0.jpeg" alt="" class="wp-image-34347" style="width:221px;height:auto"/></figure></div>


<p>Ela faz-me companhia até casa. Bato-lhe com a porta na cara, penduro o cachecol e abro o pacote de hortelã-pimenta. Está generosamente bem servido. Cheira tão bem. Fervo água, coloco os bolinhos num prato. Resisto à segunda volta de bolinhos, mas não à terceira chávena de chá. É aconchegante, faz-me perceber que o Inverno até pode ter coisas boas.</p>



<p>Janto o atum com feijão-frade do almoço: atum aos bocados, feijão-frade, cebola e <em>cornichons</em> picados, ovos cozidos cortados às rodelas, coentros picados, que me sabem muito melhor do que a salsa. Azeite, vinagre, uma pitada de sal e pronto, já jantei.</p>



<p>Provo o café. É perfeito. Deixo a loiça para lavar amanhã, abro um novo documento do Word e entrego-me contrariada à obrigação do trabalho.</p>



<p>Olho para a janela. Ela continua lá fora.</p>



<p></p>
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		<title>Colinho</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Sónia Andrade]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 15 May 2024 21:37:17 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Lifestyle & Gadgets]]></category>
		<category><![CDATA[Saúde]]></category>
		<category><![CDATA[SOCIEDADE]]></category>
		<category><![CDATA[a vida tal como ela é]]></category>
		<category><![CDATA[canja de galinha]]></category>
		<category><![CDATA[gripe]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Pouca coisa para fazer no job, conversa no chat com o amigo da velha-guarda. Hoje, desencontramo-nos nas palavras, ficámos pelos “nins”, sem falar do carinho que nos vai juntando no quadradinho virtual. Fui almoçar com o cansaço a pesar cada vez mais. Tinha dormido pouco, fiquei perdida por entre filmes e orgasmos, sempre a pensar [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Pouca coisa para fazer no <em>job</em>, conversa no <em>chat</em> com o amigo da velha-guarda. Hoje, desencontramo-nos nas palavras, ficámos pelos “nins”, sem falar do carinho que nos vai juntando no quadradinho virtual.</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="alignright size-full is-resized"><img decoding="async" src="https://i.imgur.com/SDfAWdX.jpeg" alt="" class="wp-image-34050" style="width:180px;height:auto"/></figure></div>


<p>Fui almoçar com o cansaço a pesar cada vez mais. Tinha dormido pouco, fiquei perdida por entre filmes e orgasmos, sempre a pensar nele. No que não interessa, no que tem sexo para dar e vender, mas nenhum amor.</p>



<p>Voltei à secretária, reclamei da porta do terraço que os coleguinhas não quiseram abrir. Estava cheia de calor, desconfortável, transpirada. Fui aos cigarros e café com a colega preferida, sempre, sempre com calor. Chovia torrencialmente.</p>



<p>Ai, o meu guarda-chuva Mary Poppins, cheio de bolinhas coloridas, que me faz flutuar para longe do mau tempo. Onde o terei deixado? Não posso ter guarda-chuvas de que goste, é meu fado perdê-los e são objectos bonitos, tão simples, gigantes contra os moinhos de chuva.</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="alignright size-full is-resized"><img decoding="async" src="https://i.imgur.com/1XQ8yde.png" alt="" class="wp-image-34052" style="width:166px;height:auto"/></figure></div>


<p>Continuava cheia de calor, finalmente percebi que se aproximava uma gripe. Imaginei-me no metro, apinhado de gente, saí sem pestanejar, uma hora e meia mais cedo. Não escapei à inundação de gente no metro. Doía-me o corpo, o contacto com os outros agredia-me. Quando saí e vi o autocarro, também ele à pinha, nem hesitei, fui a pé.</p>



<p>Desde o <em>job</em> que pensava nela, a única que me reconforta o corpo, o espírito e a esperança, canja de galinha.</p>



<p>Enquanto caminhava cheia de frio, lembrei-me de ti. Era mais simples telefonar-te a pedir para passares pelo talho e apanhares o puto na escola. Não tinha forças para tanto. Mas, depois lembrei-me que ainda não te encontrei, ainda não te amei e gerei um filho nosso. As lágrimas caíram, a chuva. também. Abri o guarda-chuva, este também é colorido, mas não me faz flutuar para longe do mau tempo. Tentei convencer-me de que o desalento era apenas da gripe, da chuva, da emotividade que vem toda ao de cima cada vez que o maldito vírus se mete comigo.</p>



<p>Entrei no talho, comprei uma perna de galinha, a senhora desejou-me as melhoras, o que me deu um pequeno conforto.</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="alignright size-full is-resized"><img decoding="async" src="https://i.imgur.com/oncZDV9.jpeg" alt="" class="wp-image-34054" style="width:162px;height:auto"/></figure></div>


<p>Em casa passei da roupa húmida para o pijama dos ursinhos verdes. Na panela, água e sal, a perna demorou a cozer. Juntei mais tarde as massinhas. Esqueci-me da hortelã. Paciência.</p>



<p>Mas, assim que o cheirinho do caldo invadiu o meu palacete, chegou a minha mãe. Aquela mãe novinha, de cabelo curto, todo modernaço, calças de ganga e camisolas justas. Aquela que me levava canja à cama, avisava que estava quente, que me dizia que tudo ia ficar bem. Lembro-me da mobília alentejana branca, com rosas cor de rosa. O quadro do Marco na parede, aquele rapaz dos desenhos animados que corria o mundo atrás da mãe doente. Era uma tragédia pegada, mas todas as crianças o seguiam fielmente. E eu ali deitada, a pensar que não ia sobreviver à febre, às dores de corpo, aos suores frios. Mas, quando a mãe me fazia festas no cabelo e repetia com um sorriso terno que tudo ia ficar bem, tudo ficava. A chuva parou.</p>
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		<title>Xeque-mate da rainha</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Sónia Andrade]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 23 Apr 2024 00:10:43 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Lifestyle & Gadgets]]></category>
		<category><![CDATA[SOCIEDADE]]></category>
		<category><![CDATA[história de uma mulher]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A mãe da Maria era muito dinâmica, sempre para cá e para lá, nos seus negócios de roupa, profissão que abraçou desde sempre. Havia ainda o café da Maria e do marido que, sem ninguém a autorizar,se punha a gerir. Mandar, baralhar e distribuir era tudo natural nela. Queria saber tudo, era impossível estar quieta. [&#8230;]</p>
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<p>A mãe da Maria era muito dinâmica, sempre para cá e para lá, nos seus negócios de roupa, profissão que abraçou desde sempre.</p>



<p>Havia ainda o café da Maria e do marido que, sem ninguém a autorizar,se punha a gerir. Mandar, baralhar e distribuir era tudo natural nela. Queria saber tudo, era impossível estar quieta.</p>



<p>Mulher viajada, bastava-lhe rodar com o indicador o globo terrestre, parava-o, acendia-lhe a luz e partia sem malas para aquele pontinho do planeta. Voltava, isso sim, cheia de bagagem com pedaços do mundo que largou&nbsp;&nbsp; para&nbsp; partilhar com todos.</p>



<p>Era uma fervorosa amante de música contemporânea. Acreditava que um músico/banda se revela ao vivo e tirou as teimas indo a concertos, uns atrás dos outros com a filha.</p>



<p>&#8220;Santana, Chico Buarque, James Brown&#8230; fomos a todos, pulámos e cantámos até ficarmos roucas! Ali na multidão, éramos companheiras, fora dela também&#8221;, recorda Maria.</p>



<p>Nunca me ligou muito até àquela tarde na mesa redonda do café. Falou das ganadarias e dos muitos amigos que tinha no meio, conheceu o prazer de ver os toiros e touros correr no prado. Sentava-se na mesa de madeira comprida, cheia de gente, os caçadores já tinham voltado, era a hora do convívio.</p>



<p>Falava com entusiasmo, revivia com deleite as intermináveis tardes. Fui atrás dela e acabámos a beber um copo de vinho tinto, outro de branco, ribatejanos, pois claro. Estávamos no Colete Encarnado, três dias de festa rija! <strong></strong></p>



<p><strong>V</strong>oltando à mesa redonda do café, lá estava o marido da Maria que não é nenhuma flor que se cheire, um sapo que nunca se transformou em príncipe.</p>



<p>A mãe da Maria engoliu muitas vezes o sapo, mais do que deveria, mas que remédio. Todos nós o engolíamos, gostávamos da Maria, era o preço a pagar para estarmos com ela.</p>



<p>Um dia, finalmente, a Maria deixou de engolir sapos. Foi doloroso, passou&nbsp; um mau bocado. Perdeu o sono, a fome, não as lágrimas, essas foram intermináveis. Até ao dia em que crashou. Tinha de acontecer, era o princípio do fim da saparia.</p>



<p>Eu e a mãe levamo-la para o centro de saúde e aguardamos cá fora. Só aí descobriu que nunca engoli muitos sapos, e muito menos gostava do sapo. &#8220;Aquela pele viscosa e verde agoniava-me&#8221;, disse e repeti ao ver a admiração na sua cara.</p>



<p>Sapo para aqui, sapo para ali, rók rók para a frente, rók rók para trás e eis que começam a cair sapos do céu. Imensos! Protegemo-nos debaixo da beira do telhado e era vê-los cair e estatelarem-se no chão no seu crók final. Ploff!&nbsp; A saparia rebentou, sapo a sapo, à nossa frente. Sapa nisso!</p>



<p>Foi aí que começou uma ténue amizade que teve muita coisa boa sim, mas percalços também. Nenhuma gosta de engolir sapos e, às vezes, confrontávamo-nos, nada que fizesse mossa, era até bom sinal. Secretamente pensava que também sou uma rainha e duas&nbsp; rainhas juntas entram em choque. É isso!&nbsp; Humm, nop.. É tudo culpa do meu mau feitio, isso sim!</p>



<p>Poucos anos depois, a mãe da Maria ficou semi-acamada, uma máquina por perto, o corpo debilitado, sugado pela doença. Mas nada a impedia de dar instruções, fazer pedidos sucessivos à filha e ao neto, os seus cuidadores.&nbsp; Refilava, perguntava, queria estar a par de tudo. Que nem uma rainha, pois claro!</p>



<p>A mãe da Maria morreu. Disse na ultima visita dos filhos ao hospital que queria descansar. Eles saíram e ela descansou. Era como se tivesse marcado a hora da despedida, &nbsp;há muito que &nbsp;tinha escolhido a música.</p>



<p>A Maria falou sobre a mãe e aguentou as lágrimas, até não conseguir mais. Era por ela que ali estava, para ela.</p>



<p>O neto ligou a coluna, ele entrou e arrebatou todos. A sua música mais conhecida, com mais substrato, tão bonita, ecoou pela sala como se num concerto estivéssemos. Mesmo na sua morte, em jeito de celebração da vida,&nbsp; a mãe da Maria conseguiu ter a última palavra.</p>



<p>Cheque-mate da Rainha!</p>



<pre class="wp-block-verse"><em>And now, the end is near</em>
<em>And so I face the final curtain</em>
<em>My friends, I'll say it clear</em>
<em>I'll state my case of which I'm certain</em>
<em>I've lived a life that's full</em>
<em>I traveled each and every highway</em>
<em>But more, much more than this</em>
<em>I did it my way</em>
Regrets, I've had a few
But then again, too few to mention
I did what I had to do
And saw it through without exemption
I planned each chartered course
Each careful step along the byway
But more, much more than this
I did it my way
Yes, there were times, I'm sure you knew
When I bit off more than I could chew
But through it all, when there was doubt
I ate it up and spit it out
I faced it all and I stood tall
And did it my way
I've loved, laughed and cried
I've had my fill, my share of losing
And now, as tears subside
I find it all so amusing
To think I did all that
And may I say, not in a shy way
Oh no, no, not me
I did it my way
For what is a man, what has he got
If not himself then he has not
To say all the things he truly feels
And not the words of one who kneels
The record shows, I took the blows
But I did it my way</pre>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-4-3 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe loading="lazy" title="Frank Sinatra - My Way (Live At Madison Square Garden, New York City / 1974 / 2019 Edit)" width="696" height="522" src="https://www.youtube.com/embed/w019MzRosmk?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div><figcaption class="wp-element-caption">vídeo</figcaption></figure>
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		<title>Laranja</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Sónia Andrade]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 22 Feb 2024 00:00:22 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Lifestyle & Gadgets]]></category>
		<category><![CDATA[SOCIEDADE]]></category>
		<category><![CDATA[a vida tal como ela é]]></category>
		<category><![CDATA[amizade]]></category>
		<category><![CDATA[lombo de porco assado]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Coloquei na tábua meia dúzia de alhos. Ao esmagá-los com a faca, vieram-me à cabeça as críticas acutilantes que fizeste ao longo do tempo, por vezes magoaram, mas sempre agradeci a sinceridade. A situação também se invertia muitas vezes. Poucas vezes na realidade, mas era sempre a aprender sobre nós, sobre o mundo. Sempre te [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<div class="wp-block-image">
<figure class="alignright size-full is-resized"><img loading="lazy" decoding="async" width="225" height="225" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2023/04/alho-1.jpg" alt="" class="wp-image-25848" style="width:190px;height:auto"/></figure></div>


<p>Coloquei na tábua meia dúzia de alhos. Ao esmagá-los com a faca, vieram-me à cabeça as críticas acutilantes que fizeste ao longo do tempo, por vezes magoaram, mas sempre agradeci a sinceridade. </p>



<p>A situação também se invertia muitas vezes. Poucas vezes na realidade, mas era sempre a aprender sobre nós, sobre o mundo.</p>



<p>Sempre te achei perfeita (ninguém o é) mas o teu sentido critico, a tua cultura geral, o humor inteligente, a forma como desmanchas algo complicado em simples, seja a conversar comigo, ou a fazer um desenho a um energúmeno qualquer, são qualidades raras de encontrar numa só pessoa.</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="alignright size-full is-resized"><img loading="lazy" decoding="async" width="225" height="225" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2023/04/coentros.jpg" alt="" class="wp-image-25605" style="width:190px;height:auto"/></figure></div>


<p>És um poço de carinho que, sabe-se lá porquê, pões uma tampa em cima. Consegui abri-lo… mas só às vezes.</p>



<p>Foste a melhor amiga durante anos, cresci tanto contigo, tanto. Dancei ainda mais!&nbsp; Somos diferentes, sim, mas metades de laranjas diferentes.</p>



<p>Juntei massa de pimentão, erva de <em>provenc</em>e, cominhos, coentros mais um <em>mix</em> de temperos que comprei na mercearia da senhora de Viseu, vinho branco e muito gindungo. Tu, tal como eu, gostas de emoções fortes.</p>



<p>Cortei ao meio batatas de ir ao forno, duas ou três cenouras para reforçar a cor do prato. Laranja, tal como a nossa amizade, alegre!</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="alignright size-full is-resized"><img decoding="async" src="https://i.imgur.com/zhIDobN.jpeg" alt="" class="wp-image-32329" style="width:181px;height:auto"/></figure></div>


<p>Sal grosso e o sumo de três laranjas. Peguei na varinha mágica, desfiz tudo enquanto recordei as intermináveis caminhadas, jantaradas, as noites e os dias, as conversas estimulantes, a nossa interminável vida juntas. Rimos tanto com inteligência e absoluta falta dela!</p>



<p>No <em>pirex</em> reguei o molho em cima do lombo, acrescentei batatas e cenouras a contornar. O <em>pirex</em> ficou com uma cor eléctrica. Sempre disseste que eu era assim, eléctrica, nunca soube ao certo se era um elogio ou uma crítica. Era capaz de ser ambos. Tapei o<em> pirex</em> com uma folha de alumínio, deixei a marinar no frigorífico.</p>



<p>Foi pela língua portuguesa, como se diz e escreve, que a nossa amizade começou. Pela fonia que diferencia &#8220;molhos&#8221; de mesa e &#8220;mólhos&#8221; de brócolos.</p>



<p>&#8220;That&#8217;s when the cookie crumbels&#8221;, mandou para o microfone o jogador de rugby. Tinha de legendar a entrevista e pedi-te ajuda. Entendíamos a ideia, mas andámos às voltas para encontrar a expressão idiomática portuguesa.</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="alignright size-large is-resized"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="576" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2024/02/lombo-de-porco-1024x576.jpg" alt="" class="wp-image-32330" style="width:188px;height:auto" srcset="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2024/02/lombo-de-porco-1024x576.jpg 1024w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2024/02/lombo-de-porco-300x169.jpg 300w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2024/02/lombo-de-porco-768x432.jpg 768w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2024/02/lombo-de-porco-1536x864.jpg 1536w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2024/02/lombo-de-porco-696x392.jpg 696w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2024/02/lombo-de-porco-1392x783.jpg 1392w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2024/02/lombo-de-porco-1068x601.jpg 1068w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2024/02/lombo-de-porco.jpg 1920w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></figure></div>


<p>Lembro-me como se fosse hoje. Estávamos naquele bar religioso quando o atravessaste direita a mim, com um sorriso triunfante: &#8220;É quando a porca torce o rabo!&#8221; Rimos, tornei-me tua <em>groupie</em>, fiz a legendagem.</p>



<p>Sempre nos imaginei velhinhas sentadas num banco de jardim, com cabelo branco, a rir, discutir política, cultura, o quotidiano, homens, claro, as aventuras, histórias e parvoíces do presente e do passado. Consegues imaginar-nos?</p>



<p>No dia seguinte, ao abrir o frigorifico, saiu de lá um forte aroma a laranja. Intenso, fresco. Meti o lombo no forno e fui para o portátil.</p>



<p>Às seis ainda não tinhas telefonado a perguntar a morada. Às sete percebi que não vinhas. Não te liguei. Não vieste.</p>



<p>Às nove servi-me de um pouco de lombo, batatas e cenouras que cortei previamente na bancada. Sentei-me no sofá com a mantinha e o aquecedor ligado. Não repeti. Às onze estava na cama.</p>



<p>No dia a seguir, ao abrir o frigorifico, o cheiro intenso a laranja enjoo-me. Coloquei-o num taparuer, tranquei-o no congelador e não pensei mais naquelas duas velhinhas.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Dedicado à minha amiga Madalena.</p>
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