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	<title>Arquivo de africanismo - Duas Linhas</title>
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	<description>Informação online</description>
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	<title>Arquivo de africanismo - Duas Linhas</title>
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		<title>A MEMÓRIA EXIGE VERDADE E COMPROMISSO</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Óscar Barbosa "Cancan"]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 19 Oct 2026 08:13:25 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[JUSTIÇA]]></category>
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		<category><![CDATA[Samora Machel]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Quarenta anos depois da tragédia, Samora Machel permanece uma referência incontornável da história de Moçambique e das lutas africanas de libertação.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Neste 19 de Outubro de 2026, completam-se quarenta anos sobre a tragédia de Mbuzini, em território sul-africano, onde se despenhou o avião que transportava o primeiro Presidente de Moçambique independente. Com ele morreram outras 34 pessoas. Recordar esta data é homenagear todas as vítimas e reconhecer a dimensão humana e política de uma perda que ultrapassou as fronteiras moçambicanas.</p>



<p>Samora pertencia à geração de dirigentes africanos para quem a liberdade era uma tarefa concreta, conquistada com organização, coragem e sacrifício. À frente da FRELIMO, participou na condução da luta contra o colonialismo português e tornou-se, em 1975, o primeiro Presidente do país independente. A sua trajectória ficou igualmente ligada à solidariedade com os povos da África Austral que ainda enfrentavam a dominação racial e colonial.</p>



<p>Para nós, guineenses, essa história tem uma ressonância particular. Reconhecemos nela as aspirações de uma geração que ousou desafiar a ordem colonial e afirmar o direito dos nossos povos a governarem o seu próprio destino. A Guiné-Bissau e Moçambique partilham essa memória de resistência, de sofrimento e de esperança.</p>



<p>Mas a memória da libertação coloca-nos uma pergunta exigente: o que fizemos, e o que continuamos a fazer, da liberdade conquistada?</p>



<p>A independência abriu o caminho à soberania. Cabe às sucessivas gerações transformar essa soberania em escolas que ensinem, hospitais que tratem, justiça que proteja e instituições que sirvam. O valor da liberdade mede-se também na vida quotidiana de quem trabalha, de quem procura cuidados médicos e de quem espera uma oportunidade para os seus filhos. É nesta exigência que a evocação de Samora pode encontrar a sua maior actualidade.</p>



<p>A sua dimensão africana manifestou-se particularmente no apoio à luta contra o apartheid. Moçambique acolheu combatentes sul-africanos e associou a sua própria liberdade à libertação dos povos vizinhos. Essa solidariedade permanece reconhecida na memória oficial da África do Sul democrática.</p>



<p>Era uma escolha de grande alcance: compreender que a segurança e a dignidade de um povo não se consolidam com indiferença perante a opressão do outro. Num continente tantas vezes dividido por interesses externos, rivalidades e fronteiras herdadas, esse sentido de responsabilidade comum merece ser preservado.</p>



<p>A homenagem, contudo, exige rigor. Samora Machel foi um dirigente histórico, com uma obra que deve ser estudada nas suas realizações e nas suas contradições. O seu período de governação conheceu também práticas repressivas, incluindo detenções e abusos associados aos chamados centros de reeducação. Reconhecer esta realidade permite uma reflexão mais séria sobre a distância que pode surgir entre os ideais de emancipação e o exercício do poder.</p>



<p>Os heróis da libertação não precisam de uma história sem perguntas. Precisam de uma história honesta, capaz de transmitir às novas gerações tanto a coragem das suas escolhas como as consequências dos seus erros. Também por isso, quarenta anos depois, Mbuzini continua a exigir esclarecimento.</p>



<p>A Comissão Margo atribuiu o desastre a erro dos pilotos. Uma investigação soviética sustentou a hipótese de um falso radiofarol ter desviado o avião da sua rota. Posteriormente, a Comissão de Verdade e Reconciliação sul-africana declarou não ter encontrado provas conclusivas que confirmassem qualquer dessas explicações, assinalando elementos circunstanciais que punham em causa as conclusões da Comissão Margo.</p>



<p>Estas divergências obrigam-nos a distinguir suspeita, hipótese e prova. Não permitem apresentar como definitivamente demonstrada uma responsabilidade que as investigações citadas não estabeleceram. Sustentam, porém, a legitimidade de continuar a procurar respostas. As famílias das vítimas merecem essas respostas. Moçambique merece-as. A história africana também.</p>



<p>O tempo decorrido deve reforçar o compromisso com a preservação dos arquivos, o exame rigoroso dos testemunhos e o acesso à documentação relevante. A verdade histórica exige trabalho paciente, independência e coragem para enfrentar aquilo que os documentos possam revelar.</p>



<p>Na Guiné-Bissau, esta evocação deve igualmente levar-nos a olhar para as nossas responsabilidades. A melhor forma de respeitar os combatentes da liberdade é cuidar do país que ajudaram a tornar possível. É impedir que o Estado seja apropriado por interesses particulares. É defender a dignidade dos cidadãos, respeitar a divergência e fazer da autoridade pública um instrumento de serviço.</p>



<p>A juventude africana tem direito a conhecer os nomes e os percursos daqueles que lutaram pela independência. Tem também direito a exigir que essa herança se traduza em oportunidades, participação e condições de vida dignas.</p>



<p>Quarenta anos depois da tragédia, Samora Machel permanece uma referência incontornável da história de Moçambique e das lutas africanas de libertação. A sua memória interpela-nos sobre a solidariedade, a soberania e a responsabilidade de governar.</p>



<p>Neste aniversário, curvamo-nos perante Samora e perante todos os que perderam a vida em Mbuzini. Fazemo-lo com respeito pela sua memória, com exigência de verdade e com a consciência de que a liberdade precisa de ser cuidada todos os dias.</p>



<p>A luta continua: pela verdade, pela dignidade dos povos e por uma independência que se cumpra na vida de cada cidadão.</p>



<p>19 de Outubro de 2026</p>
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		<title>MORAR NA RUA KWAME NKRUMAH</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vanda Narciso]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 03 Jun 2026 08:00:59 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cultura]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Não apenas para homenagear o passado, mas para lembrar uma promessa ainda por cumprir.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Moro numa rua com o nome de Kwame Nkrumah, em Luanda. Durante algum tempo, esse detalhe pareceu-me apenas mais um elemento da paisagem urbana, daqueles que fazem parte da rotina e aos quais raramente prestamos atenção. Sabia vagamente quem foi Kwame Nkrumah; o nome estava lá, no GPS, nos documentos, nas indicações dadas aos taxistas: Rua Kwame Nkrumah. Simplesmente isso.</p>



<p>Mas as datas comemorativas, neste caso o Dia de África, celebrado no 25 de maio, têm essa particularidade: obrigam-nos a olhar novamente para detalhes e símbolos que a pressa do quotidiano teima em tornar invisíveis. Quem foi realmente Kwame Nkrumah para merecer ter ruas espalhadas por várias cidades africanas? E por que continua o seu nome presente, décadas depois da sua morte, no imaginário político do continente?<br>Nkrumah não foi apenas o primeiro presidente do Gana independente. Foi uma das principais figuras do Pan Africanismo, corrente política e intelectual que defendia a união dos povos africanos contra o colonialismo, a exploração e a fragmentação herdada da ocupação europeia.</p>



<p>Hoje fala-se muito de integração africana, livre circulação e cooperação regional. Mas Nkrumah defendeu isso numa época em que muitos países africanos ainda eram colónias. Para ele, a independência de um único país nunca seria suficiente enquanto o continente permanecesse dividido e submetido a interesses externos.<br>Talvez por isso o seu pensamento continue atual. Não por nostalgia revolucionária, mas como advertência. A unidade africana de que falava não significava uniformidade política, mas sim cooperação séria, autonomia económica e consciência histórica, objetivos que continuam longe de ser plenamente alcançados.</p>



<p>E Angola? Que ligação teve Nkrumah com a independência de Angola? Historicamente, não se pode afirmar que ele tenha tido um papel direto na independência de Angola. Não combateu nas matas, não liderou movimentos em Angola, nem participou diretamente nas negociações que conduziram à independência. Mas seria igualmente injusto negar a influência do seu pensamento.<br>O Pan-Africanismo ajudou a criar consciência continental em torno das lutas de libertação africanas. Numa época em que Portugal insistia em chamar “províncias ultramarinas” às suas colónias, vozes como a de Nkrumah ajudavam o mundo a perceber que o que existia em Angola era uma luta legítima pela autodeterminação. Mais do que apoio militar, Nkrumah ofereceu legitimidade política e inspiração ideológica. E isso também conta na História.</p>



<p>Mais de cinquenta anos depois da independência de Angola, o continente continua dividido entre enormes potencialidades e velhos desafios. África possui recursos naturais abundantes, uma juventude vibrante e uma riqueza cultural invejável. Ainda assim, permanece economicamente dependente, politicamente vulnerável e frequentemente fragmentada nos seus interesses estratégicos.<br>O continente africano continua distante do sonho pan africanista imaginado nos anos 60. As fronteiras permanecem difíceis para muitos africanos, as economias excessivamente dependentes do exterior e os conflitos internos persistem. Apesar disso, há uma ideia que resiste: a de que África ainda pode construir um destino comum. Talvez seja essa a verdadeira razão pela qual nomes como Kwame Nkrumah continuam gravados nas ruas de tantas cidades africanas. Não apenas para homenagear o passado, mas para lembrar uma promessa ainda por cumprir.</p>



<p>O Dia de África deveria servir precisamente para isso: menos pompa e circunstância, mais reflexão. Porque celebrar África não é apenas recordar a libertação do passado; é questionar se o continente conseguiu realmente libertar-se das novas formas de dependência que substituíram as antigas.<br>Ao caminhar pela rua que leva o seu nome, penso muitas vezes numa das grandes ironias africanas: homenageiam-se os defensores da unidade continental, mas persistem divisões políticas, económicas e até mentais que enfraquecem o continente.</p>



<p>Nkrumah sonhava com uma África unida. Morar numa rua Kwame Nkrumah é, afinal, conviver diariamente com perguntas históricas: será que os africanos ainda acreditam nesse sonho? E que África querem deixar às próximas gerações?</p>



<figure class="wp-block-image size-full"><img decoding="async" src="https://i.imgur.com/RlPxfyr.jpeg" alt="" class="wp-image-49537"/><figcaption class="wp-element-caption">composição gráfica</figcaption></figure>
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		<title>&#8220;A DEMOCRACIA MATA&#8221; DIZ IBRAHIM TRAORÉ, PRESIDENTE DO BURKINA FASO</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Carlos Narciso]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 09 Apr 2026 23:02:28 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Enquanto denuncia a democracia, Traoré dissolve partidos, adia eleições e prolonga o seu poder.</p>
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<p>Ibrahim Traoré falava na televisão do seu país, um Estado em guerra, onde a democracia levada pelos franceses não trouxe paz, nem controlo, nem desenvolvimento, nem futuro.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="IBRAHIM TRAORÉ DIZ QUE A DEMOCRACIA MATA" width="696" height="392" src="https://www.youtube.com/embed/yfsdIGfF1k8?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div><figcaption class="wp-element-caption"><sub><em>vídeo</em> &#8211; extracto de uma longa entrevista coletiva</sub></figcaption></figure>



<p>É por isso que a frase é incómoda. Porque, vista por Traoré, a democracia tem um historial estranho. Na antiga Jugoslávia ou Líbia, veio com bombardeamentos da NATO e deixou Estados desfeitos. Na Síria, foi palavra de ordem antes de se tornar sinónimo de guerra por procuração. Em Gaza, convive com bombardeamentos e o genocídio de um povo.  No Líbano, não resiste às políticas expansionistas do sionismo israelita.</p>



<p>E se viajarmos para outras geografias, para a América Latina, as democracias foram frequentemente interrompidas quando incomodavam os EUA. É deste enquadramento geopolítico que fala Traoré.</p>



<p>O problema não será a democracia em si, mas o seu uso seletivo. Promove-se quando convém. Suspende-se quando atrapalha. Atraiçoa-se com facilidade. Ignora-se nos territórios ocupados. E, quando necessário, impõe-se. Com sanções. Ou com mísseis. </p>



<p>Por tudo isto, o Presidente do Burkina Faso diz que não quer democracia. Mas Traoré não está a vender filosofia política. Num país onde o Estado perdeu território para grupos armados, onde aldeias desaparecem do mapa e onde o quotidiano é insegurança crónica, eleições parecem um luxo exótico. E por isso, Traoré aproveitou a ocasião para adiar para data incerta a realização de novas eleições. Porque não há democracia sem Estado,<br>Enquanto denuncia a democracia, Traoré dissolve partidos, adia eleições e prolonga o seu poder. A crítica ao modelo serve para legitimar a sua suspensão. Por quanto tempo, não se sabe. Talvez para sempre.</p>



<p>A reação europeia será previsível: condenação, preocupação, retórica sobre valores. Mas há um problema. É difícil dar lições sobre democracia quando se aceita, ou apoia, a sua violação noutros contextos estratégicos. Esse duplo padrão já não passa despercebido. É ainda muito fresca a memória que temos sobre o que se passa em Gaza, no Irão, na Venezuela.</p>



<p>O mais relevante não é se Traoré tem razão. É se outros começam a falar como ele. Porque, no Sahel, e noutros lugares, a equação está a mudar: a legitimidade deixa de vir das urnas, passa a vir do controlo do território e da capacidade de impor ordem. Se isso se consolidar, adeus democracia.</p>
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		<title>HÁ UMA REVOLUÇÃO EM MARCHA</title>
		<link>https://duaslinhas.pt/2025/05/ha-uma-revolucao-em-marcha/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Carlos Narciso]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 11 May 2025 23:16:07 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Economia e Empresas]]></category>
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		<category><![CDATA[Ibrahim Traoré]]></category>
		<category><![CDATA[luta contra o neo-colonialismo]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Tem 37 anos, é uma espécie de “capitão de abril”</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>É o exemplo do homem novo que África tem esperado nos últimos séculos. Tem 37 anos, é uma espécie de “capitão de abril” mesmo se o golpe de estado que liderou foi em setembro. Começou por ser um militar golpista para se tornar num símbolo como líder africanista, uma voz contra o neo-colonialismo que tem subjugado as economias africanas e impedido o desenvolvimento dos países. Dizem que já escapou a várias tentativas de assassinato.</p>



<p>Ibrahim Traoré, tem-se destacado como uma figura carismática e polarizadora no atual cenário político africano. Tem um discurso forte contra a influência ocidental, na denúncia da exploração contínua dos recursos africanos por potências externas. Um discurso que conquistou apoio popular não só no Burkina Faso, mas também noutros países da África Ocidental.</p>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<p>Com ele, o Burkina Faso rompeu laços militares com a França, exigindo a saída das tropas francesas, e tem procurado parcerias alternativas, nomeadamente com a Rússia, Brasil e países vizinhos. O líder do Burkina Faso esteve recentemente em Moscovo para participar nas celebrações do 9 de maio, o dia em que a Rússia celebra a vitória sobre a Alemanha nazi.</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-full"><img decoding="async" src="https://i.imgur.com/caxokUQ.jpeg" alt="" class="wp-image-41677"/><figcaption class="wp-element-caption">Ibrahim Traoré com Umaro Sissoco Embaló, Presidente da Guiné-Bissau, em Moscovo, em 9 de maio</figcaption></figure></div>


<p>Existem relatos consistentes, embora pouco detalhados oficialmente, sobre várias tentativas de assassinato contra Traoré. Esses relatos alimentam ainda mais a sua imagem de &#8220;resistente&#8221; e mártir em construção.</p>
</div></div>



<p>Apesar da retórica forte, Traoré ainda não conseguiu estabilizar o país. O Burkina Faso continua a enfrentar violência jihadista em várias regiões. Os extremistas islâmicos serão financiados precisamente pela França e apoiados militarmente pela Ucrânia. É como se a guerra com a Rússia tivesse uma extensão na África subsariana.</p>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<h4 class="wp-block-heading"><strong>DEMOCRACIAS DE PAPEL</strong></h4>



<p>No Ocidente criticam Ibrahim Traoré pelo desalinhamento com as antigas potências coloniais e por não ter ainda marcado eleições para que os militares deixem de governar o país.</p>



<p>Se Traoré quiser afirmar-se como um chefe africano, não se vai preocupar com eleições. As democracias ocidentais não casam com as tradições e os costumes da maioria dos povos de África e, como estamos a ver hoje, não são exemplo para ninguém, face aos apoios a regimes genocidas e aos esquemas militaristas para depor líderes que não alinham com o ocidente.</p>



<p>Em África, muitos olham para a democracia liberal ocidental como um modelo imposto, que falhou em criar estabilidade, justiça ou desenvolvimento económico sustentável em grande parte do continente.</p>



<p>A forma como o Ocidente lida com crises, como o apoio a Israel face ao genocídio em Gaza, ou as ingerências em países como Líbia, Mali e Níger, alimenta a perceção de hipocrisia. Fala-se em direitos humanos e democracia, mas apoia-se ou impõe-se regimes ou políticas claramente contrárias a esses princípios quando isso serve os interesses estratégicos ou económicos ocidentais.</p>



<p>Há uma crítica clara ao que se chama “democracia de papel”. Ou seja, eleições formais sem verdadeira soberania popular. Muitos desses países realizaram eleições regulares sem que isso resultasse em melhoria das condições de vida, redução da corrupção ou maior justiça social. Nessa lógica, a democracia representativa é vista como uma fachada.</p>
</div></div>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<h4 class="wp-block-heading"><strong>OS MAUS EXEMPLOS DE ANGOLA E MOÇAMBIQUE</strong></h4>



<p>Por exemplo, regimes como o de Angola ou de <strong><a href="https://duaslinhas.pt/2024/11/mocambique-a-ferro-e-fogo/">Moçambique</a></strong> em que a repressão política se exerce ao ponto de <strong><a href="https://duaslinhas.pt/2024/11/em-mocambique-gritam-venancio/">matar simples manifestantes de rua</a></strong>, em que as eleições têm sempre um véu de aldrabice mas são aceites como legítimas pelo Ocidente, dão razão a tipos como Traoré que rejeitam hipocrisia e repressão.</p>



<p>Em <strong><a href="https://duaslinhas.pt/2022/09/angola-a-suspeita-do-costume/">Angola</a></strong> o MPLA confunde-se com o Estado. É como se o regime continuasse a ser de partido único. Mas há eleições legitimadas pela comunidade internacional e pelo FMI. Em Angola, quase tudo tem a marca da falta de transparência, do controlo dos media, da repressão sobre a oposição e por  mortes de manifestantes, como nas manifestações de Cabinda e do movimento “Revú”. A corrupção, com <strong><a href="https://duaslinhas.pt/2024/01/isabel-cada-vez-menos-rica/">famílias</a></strong> no topo do Estado ligadas a <strong><a href="https://duaslinhas.pt/2022/09/andamos-a-pagar-a-farra-dos-angolanos/">fortunas colossais</a></strong>, agrava a deslegitimação interna.</p>



<p>Em Moçambique, é a FRELIMO quem manda desde a independência. Também ali tem havido assassinatos políticos e manipulações eleitorais. Escândalos como o das “dívidas ocultas” revelam o uso do Estado em benefício privado, com conivência internacional.</p>



<p>Ambos os regimes têm sido apoiados ou tolerados por potências ocidentais e instituições multilaterais (FMI, UE), porque garantem &#8220;estabilidade&#8221; e abertura a interesses económicos.</p>
</div></div>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<p>Quando surgem líderes como Ibrahim Traoré, os interesses instalados sentem-se ameaçados. E é nesse confronto entre o africanismo e o neo-colonialismo que está o “mecanismo” que aciona golpes de estado.  </p>



<p>O Burkina Faso não é caso único. Diferentes modelos de governação estão a ser ensaiados em países como o Botswana, o Mali, a Etiópia, o Senegal, até mesmo na Somaliland (um Estado não reconhecido que se separou da Somália). São todos casos de países liderados por jovens que, à semelhança de Ibrahim Traoré, rejeitam “democracias de fachada” dominadas pelas multinacionais e subjugadas à dívida externa imposta pelas regras do capitalismo ocidental.</p>



<p>Traoré e outros líderes militares revolucionários ganham força quando assumem a luta de forma aberta, e não com o verniz institucional da “governança” sem povo. Quando esses líderes, como Traoré, expulsam as antigas potências coloniais e tentam devolver aos africanos o controlo dos recursos naturais, a sua legitimidade popular cresce muito. Se não morrerem de morte matada, como aconteceu antes com Thomas Sankara, Amílcar Cabral, Patrice Lumumba ou Muammar Khadafi, todos derrubados (ou mortos) após confrontar interesses externos, com o tempo veremos o que conseguem concretizar.</p>



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