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	<title>Vanda Narciso, autor em Duas Linhas</title>
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	<title>Vanda Narciso, autor em Duas Linhas</title>
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		<title>O LUXO É A AUSÊNCIA DE PRESSA</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vanda Narciso]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 18 Apr 2026 23:00:32 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>O luxo mede-se pela ausência: de rede, de pressa, de ruído, de distração</p>
<p>O conteúdo <a href="https://duaslinhas.pt/2026/04/o-luxo-e-a-ausencia-de-pressa/">O LUXO É A AUSÊNCIA DE PRESSA</a> aparece primeiro em <a href="https://duaslinhas.pt">Duas Linhas</a>.</p>
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<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<p><strong>6.º dia: O esplendor de Mosi-oa-Tunya</strong><br>De Kasane – Kazangula (Botswana) a Livingstone (Zâmbia) &#8211; 7h de carro.<br>Era para ser uma viagem curta, mas o trajeto até Livingstone ficou marcado por uma espera inexplicável na fronteira. Quatro horas suspensas, sem razão aparente, que nos obrigaram a chegar tarde &#8211; mas ainda a tempo. E, no entanto, nada prepara verdadeiramente para as cataratas.<br>O rio Zambeze precipita-se ali com uma força difícil de explicar: cerca de 5.000 metros cúbicos de água por segundo, num abismo de mais de 100 metros. Mas não é apenas a dimensão &#8211; é o som, constante, profundo, e a névoa que sobe, densa, justificando o nome local Mosi-oa-Tunya, “o fumo que troveja”.<br>Quando o explorador escocês, (Sir) David Livingstone, viu as cataratas pela primeira vez em 1855, não imaginava que estas mais de 100 anos depois seriam consideradas como uma das maiores quedas de água do mundo, uma das Sete Maravilhas Naturais do Mundo e Património Mundial da Unesco (1989). Já agora, ele não as descobriu, nem as encontrou, foi lá levado pela comunidade local com quem, entretanto, estabelecera laços de confiança e batizou-as de Vitória em honra da rainha Vitória.<br>Os locais sabiam da sua existência e chamavam-nas de Mosi-oa-Tunya (“fumo que troveja”) há milhares de anos. O que se vê agora é a mesma vista espantosa que os impressionou, que impressionou Livingstone e que impressiona todos os que têm a sorte de ver estas cataratas.</p>



<div class="wp-block-columns is-layout-flex wp-container-core-columns-is-layout-1 wp-block-columns-is-layout-flex">
<div class="wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow"><div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-large"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="576" height="1024" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/04/vitoria-falls-2-576x1024.jpeg" alt="" class="wp-image-48572" srcset="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/04/vitoria-falls-2-576x1024.jpeg 576w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/04/vitoria-falls-2-169x300.jpeg 169w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/04/vitoria-falls-2-696x1237.jpeg 696w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/04/vitoria-falls-2.jpeg 720w" sizes="(max-width: 576px) 100vw, 576px" /><figcaption class="wp-element-caption">Cataratas Vitória ou Mosi-oa-Tunya (“fumo que troveja”)</figcaption></figure></div></div>



<div class="wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow"><div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-large"><img decoding="async" width="576" height="1024" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/04/vitoria-falls-576x1024.jpeg" alt="" class="wp-image-48573" srcset="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/04/vitoria-falls-576x1024.jpeg 576w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/04/vitoria-falls-169x300.jpeg 169w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/04/vitoria-falls-696x1237.jpeg 696w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/04/vitoria-falls.jpeg 720w" sizes="(max-width: 576px) 100vw, 576px" /></figure></div></div>
</div>



<p>Caminhámos durante mais de uma hora e meia – e, ainda assim, parecia pouco- sob aquela chuva suspensa. Saí encharcada, apesar do impermeável que alugámos à entrada. Uma experiência que sei que não esquecerei.</p>
</div></div>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<p><strong>7.º dia: Mosi-oa-Tunya National Park</strong><br>Saímos cedo para procurar rinocerontes. Encontrámos muito mais.<br>Saímos às 8h30m para o Rhino Walk, depois de assegurar que os animais estavam em liberdade e não em cativeiro. O objetivo era claro: ver rinocerontes-brancos. Mas não vimos só rinocerontes.<br>Passámos o portão do Mosi-oa-Tunya National Parque (aliás, o The David Livingstone Safari Lodge &amp; Spa onde ficámos já se situa dentro do parque, nas margens verdejantes do rio Zambeze, integrando-se perfeitamente na paisagem circundante) e seguimos de jipe aberto pelos seus caminhos.<br>O parque é pequeno, mas guarda o maior grupo de rinocerontes-brancos da Zâmbia, espécie classificada como ameaçada. Antes deles, porém, cruzámo-nos com uma vida dispersa, mas intensa e presente: macacos a tomar o pequeno-almoço em alegre cavaqueira, enquanto “cavavam” o terreno à procura de iguarias; gnus em passo lento; girafas elegantes; zebras inquietas; aves de várias cores em movimento. </p>



<div class="wp-block-columns is-layout-flex wp-container-core-columns-is-layout-2 wp-block-columns-is-layout-flex">
<div class="wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow" style="flex-basis:66.66%">
<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" width="1024" height="576" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/04/macacos-1024x576.png" alt="" class="wp-image-48582" srcset="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/04/macacos-1024x576.png 1024w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/04/macacos-300x169.png 300w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/04/macacos-768x432.png 768w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/04/macacos-1536x864.png 1536w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/04/macacos-696x392.png 696w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/04/macacos-1392x783.png 1392w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/04/macacos-1068x601.png 1068w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/04/macacos-1320x743.png 1320w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/04/macacos.png 1920w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></figure>
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<figure class="wp-block-image size-full"><img loading="lazy" decoding="async" width="805" height="956" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/04/macacos-2.png" alt="" class="wp-image-48583" srcset="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/04/macacos-2.png 805w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/04/macacos-2-253x300.png 253w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/04/macacos-2-768x912.png 768w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/04/macacos-2-696x827.png 696w" sizes="auto, (max-width: 805px) 100vw, 805px" /></figure>
</div>
</div>



<p>O guia, Steve, simpático e conhecedor, ia explicando a paisagem e contando fatos curiosos sobre os bichos.<br>Depois quase no fim do parque o jipe parou, um guarda armado juntou-se a nós (uma arma com sedativo para os animais -usada, raramente, em caso de ataque- mas que também pode ser usada contra caçadores furtivos), e, depois de uma breve explicação de segurança, perguntaram-nos quanto tempo queríamos caminhar, dissemos 1 hora, e seguimos a pé, em linha na savana, sob um sol que<br>começava a aquecer e muito.<br>A savana abre-se de outra forma quando se caminha dentro dela. Viamos sinais: pegadas, excrementos, rastos de passagem. Mas rinocerontes, nada. Até que de repente, o guarda aponta e lá estão eles, sete White Rhinos -que, na verdade não são brancos-, imóveis à sombra de uma árvore. Uma cria entre eles, inquieta, pedindo leite. O resto era silêncio e uma presença forte. Já tinham comido e pode-se dizer que dormiam a sesta, quando muito davam um ou dois passos para encontrar um lugar mais confortável. E nós ficámos ali, a assistir. Foram momentos de grande deslumbramento.<br>Ao fim do dia, regressámos à água, num lento percurso pelo Zambeze ao pôr do sol, esse mesmo rio que atravessa países e histórias antes de chegar ao Índico. Conheci o rio Zambeze em 1995 em Tete, Moçambique. O Zambeze nasce no noroeste da Zâmbia passa pelo território de Angola e Zimbabwe e atravessa Moçambique de oeste para leste, para desaguar a sul da cidade de Chinde, no oceano Índico.</p>
</div></div>



<p><strong>8.º dia: O meu amigo Henry</strong><br>De Livingstone (Zâmbia) a Kongola (Faixa de Caprivi, Namibia) passando pela fronteira de Katima Mulilo – 7h de carro.<br>A distância engana. São poucos quilómetros, mas muitas horas. Em Km o trajeto é curto, cerca de 350km, mas em tempo é longo, quase 7h.<br>Durante cerca de 250Km, ainda em território da Zâmbia, seguimos por picada. A estrada de terra impõe o seu ritmo, e eu prefiro assim. Prefiro 4h de picada do que 4h de espera numa fronteira vazia.<br>A fronteira, desta vez, foi rápida. Do lado da Namíbia, o asfalto devolve-nos alguma fluidez e conforto, foi como se a viagem respirasse um ar novo.<br>A chegada ao Camp Kwando compensa tudo. Situado nas margens do rio com o mesmo nome -mais um que nasce em Angola -, está envolvido pela beleza selvagem da região do Zambezi (faixa de Caprivi), na Namíbia. É um pequeno oásis, um <em>glamping</em> sem internet, mas com dois hipopótamos residentes. Um chamado Henry e outro ainda sem nome, que estabeleceram a fronteira dos seus territórios, e os hipopótamos são animais muito territoriais, mesmo em frente às tendas do <em>glamping</em>. O Henry até saiu da água para se mostrar.<br>Este é um lugar simples, quase suspenso. Aqui, o luxo mede-se pela ausência: de rede, de pressa, de ruído, de distração.</p>



<p><strong>Dia 9: Estranhos sinais de transito</strong><br>De Kongola a Tsumeb passando por Rundu (Namibia) &#8211; 8h de carro.<br>A estrada, agora boa, atravessa paisagens onde os sinais de trânsito avisam de elefantes, cães selvagens, antílopes. Há pouco tempo, seriam sinais exóticos; agora, parecem-me naturais.<br>Vimos girafas a atravessar a estrada -duas passaram primeiro, outras ficaram para trás, hesitantes, à espera que passássemos. Há uma prudência naquele gesto que reconheço.<br>Chegámos ao Callie’s Lodge ao pôr do sol. Já dentro da fazenda, ainda vimos impalas e gnus, como um último aceno da vida selvagem.<br>Fechámos o dia como tínhamos fechado o primeiro: com uma cerveja Windhoek.</p>



<p><strong>10.º dia: Regresso</strong><br>De Tsumeb (Namíbia) ao Lubango (Angola) &#8211; mais de 10h de carro<br>O regresso faz-se sempre mais longo. Atravessámos a fronteira de Oshikango / Santa Clara com demora &#8211; problemas de sistema, ou falta dele &#8211; num regresso a Angola que se fez esperar.<br>Almoçámos em Santa Clara e seguimos por estradas irregulares, marcadas por buracos e interrupções constantes: umas pela polícia, outras pelos animais em movimento, que continuam a impor o seu próprio ritmo à estrada.<br>Já perto do fim, a pouco mais de cem quilómetros do Lubango, parámos em Chiange-Gambos para ver o pôr do sol e abrir o champanhe que nos acompanhava desde o dia 1 de abril -aniversário de uma das companheiras de viagem.<br>Chegámos ao Lubango já de noite, por volta das 21h, mas ainda houve tempo para um vinho tinto do Douro ao jantar.<br>Nesse dia, quando me deitei na casa 21 do Kimbo do Muholo no Pululukwa Resort, percebi que a Road Trip terminava ali. Tinham sido dez dias, 3.428 quilómetros, quatro países -cerveja local q.b., muitos animais, muitas paisagens… e, acima de tudo, muita água. Esse elemento essencial à vida, que afinal esteve sempre presente. No fundo, sempre no centro de tudo.</p>


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<figure class="aligncenter size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="576" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/04/elefantes-1024x576.png" alt="" class="wp-image-48591" srcset="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/04/elefantes-1024x576.png 1024w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/04/elefantes-300x169.png 300w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/04/elefantes-768x432.png 768w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/04/elefantes-1536x864.png 1536w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/04/elefantes-696x392.png 696w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/04/elefantes-1392x783.png 1392w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/04/elefantes-1068x601.png 1068w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/04/elefantes-1320x743.png 1320w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/04/elefantes.png 1920w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></figure></div>


<p>(último de <strong><a href="https://duaslinhas.pt/2026/04/pelos-caminhos-da-agua-por-angola-namibia-botswana-zambia/" type="link" id="https://duaslinhas.pt/2026/04/pelos-caminhos-da-agua-por-angola-namibia-botswana-zambia/">dois artigos</a></strong>)</p>
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		<title>PELOS CAMINHOS DA ÁGUA POR ANGOLA, NAMÍBIA, BOTSWANA, ZÂMBIA</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vanda Narciso]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 17 Apr 2026 23:01:35 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Há qualquer coisa de especial nos rios que são fronteiras</p>
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<p><strong>Dia 1: Cunene</strong><br>Do Lubango (Angola) a Tsumeb na Namibia &#8211; 10h de carro<br>Surpreendeu-me a água. E o gado. Mas sobretudo a água. Há mais de cinquenta anos que ouvi, pela primeira vez, a palavra Cunene. Foi no início dos anos 70, quando um amigo do meu pai partiu para instalar a Estação de Orizicultura do Cunene. Desde então, ficou-me a ideia de uma região fértil, de zonas húmidas propícias ao arroz. Ainda assim, depois de meses a ouvir falar de seca persistente no Sul, não estava preparada para o que encontrei: extensões alagadas, reflexos de água onde esperava poeira, e rebanhos em movimento, como se seguissem um ritmo antigo, indiferente às previsões e aos alarmes de seca.<br>Foram dez horas de estrada até ao Callie’s Lodge, mas a viagem começou, na verdade, com esse espanto inicial &#8211; essa água inesperada que parecia querer contrariar as minhas expectativas.</p>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<p><strong>Dia 2: Há qualquer coisa de especial nos rios que são fronteiras</strong><br>De Tsumeb a Divundu (Namibia) &#8211; 6h de carro<br>A manhã começou com a visita ao meteorito Hoba. Mas é a terra &#8211; e não o que vem do espaço &#8211; que me impressiona.<br>Ao fim do dia, chegámos ao rio a tempo de apanhar oa últimos minutos do “cruzeiro” ao pôr do sol, como se o próprio dia tivesse esperado por nós.<br>O Divava Lodge ergue-se sobre o rio Kavango, nome que o rio carrega, depois de se chamar Cubango, e antes de se transformar em Okavango ao entrar no Botswana.<br>Do outro lado, ao alcance do olhar, e quase ao alcance de meia dúzia de braçadas, é Angola.<br>Há qualquer coisa de especial nos rios que são fronteiras. Lembrei-me do Mekong, que separa / une países, como o Laos da Tailândia e do Camboja, e do rio San Juan, entre a Costa Rica e a Nicarágua. Aqui, como nesses lugares, a água não divide, apenas desenha limites que a paisagem, os animais e as gentes, parecem ignorar. A certa altura, estivemos numa pequena ilha no meio do rio. Não sei a que país pertence. Talvez isso nem importe.</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="576" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/04/divava-lodge-1024x576.png" alt="" class="wp-image-48561" srcset="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/04/divava-lodge-1024x576.png 1024w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/04/divava-lodge-300x169.png 300w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/04/divava-lodge-768x432.png 768w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/04/divava-lodge-1536x864.png 1536w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/04/divava-lodge-696x392.png 696w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/04/divava-lodge-1392x783.png 1392w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/04/divava-lodge-1068x601.png 1068w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/04/divava-lodge-1320x743.png 1320w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/04/divava-lodge.png 1920w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption">Divava Lodge na margem do rio Kavango</figcaption></figure></div></div></div>



<p><strong>Dia 3: do Kavango ao Okavango</strong><br>De Divundu (Namibia) a Maun (Bostswana) &#8211; 6 horas de carro<br>Atravessar o Bwabwata National Park foi como entrar, mais uma vez espantada, num inventário vivo de África.<br>Primeiro, os antílopes, discretos e elegantes. Depois as zebras, como riscas em movimento. As girafas surgiram mais tarde, quase silenciosas na sua altura improvável. E, por fim, os elefantes — sempre eles, sempre maiores do que a paisagem que os contém. O leão apareceu como uma exceção, uma raridade breve que confirmou a regra.<br>A fronteira com o Botswana foi simples, quase despojada, e talvez por isso mesmo eficaz.<br>Do outro lado, o rio já se chama Okavango e começa a desfazer-se em múltiplos canais, insinuando o delta que mais à frente se expandirá. Não vemos a água da estrada, mas sei que se espalha, multiplica-se, abranda — como se recusasse qualquer pressa. Confirmei isso mais tarde, da varanda do Crocodile Camp, sobre um braço do rio coberto de nenúfares.</p>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<p><strong>Dia 4: No coração do Delta do Okavango</strong><br>O Mokoro desliza sem pressa. É esse o seu segredo.<br>As canoas, hoje feitas de fibra para preservar as árvores, mantêm o gesto antigo: o avanço lento, o silêncio quase absoluto, o som ritmado do pau que toca a água e o lodo. Navega-se com todos os sentidos.<br>Primeiro vamos ver os hipopótamos, numa espécie de lagoa, pesados e aparentemente tranquilos, mas donos de uma reputação que contrasta com a sua placidez. Afinal, são dos animais que mais matam em África, logo a seguir aos mosquitos.<br>Depois, já nos estreitos canais, um elefante. Imóvel. Tão imóvel que por momentos me pareceu de pedra.<br>As canoas param, saímos, caminhamos e aproximámo-nos a pé, em silêncio, até o ver de perfil. Abana as orelhas enquanto arranca a erva com a tromba e a leva à boca, num gesto repetido, quase mecânico. O guia explicou que aquele movimento das orelhas era sinal de tranquilidade. Mas o vento mudou, e com ele, a nossa posição na ordem invisível da savana. Recuámos.<br>De volta ao Mokoro, seguimos por canais cada vez mais estreitos, rodeados de papiros altos, até o reencontrar, de frente no fim de um estreito canal. Permanece ali, imponente, imponente como só os elefantes sabem ser, como se não pertencesse a este tempo. Fiquei a observá-lo. A tentar perceber, talvez inutilmente, o que faz ali um elefante sozinho. Há qualquer coisa de hipnótico naquela presença de elefante.</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="707" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/04/elefante-na-agua-1024x707.png" alt="" class="wp-image-48565" srcset="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/04/elefante-na-agua-1024x707.png 1024w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/04/elefante-na-agua-300x207.png 300w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/04/elefante-na-agua-768x530.png 768w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/04/elefante-na-agua-1536x1061.png 1536w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/04/elefante-na-agua-218x150.png 218w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/04/elefante-na-agua-436x300.png 436w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/04/elefante-na-agua-696x481.png 696w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/04/elefante-na-agua-1392x961.png 1392w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/04/elefante-na-agua-1068x737.png 1068w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/04/elefante-na-agua-1320x912.png 1320w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/04/elefante-na-agua.png 1564w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></figure></div>


<p><br>Continuamos a deslizar e lembrei me de um passeio semelhante, num outro delta, sem animais, mas também em silêncio. Um passeio que fiz com um velho barqueiro há mais de 20 anos no Delta do Danúbio (na Roménia).<br><br><strong>Dia 5: Elefantes felizes</strong><br>De Maun a Kasane (Botswana) &#8211; 7 horas de carro<br>Chegámos ao Senyati Camp ao fim do dia, no momento exato em que a luz abranda e tudo parece suspenso.<br>Da varanda do espaço comum que serve de bar, víamos o pôr do sol quando uma família de elefantes se aproximou da charca. Descemos ao bunker &#8211; uma ideia genial, simples e brilhante: observar os animais ao nível do solo, próximos e invisíveis.<br>Ali, a poucos metros, desenrolou-se uma cena de intimidade tranquila. Bebiam, brincavam, tocavam-se. Fiquei ali uma hora, talvez mais, a assistir àquilo a que chamei, em silêncio, de “família feliz”.<br>Quando voltei ao local, já depois do jantar preparado e comido junto às tendas, dois elefantes adultos tinham voltado, ou eram outros, não sei. Um último quadro na savana, antes de me recolher para dormir.</p>



<p>(<strong><a href="https://duaslinhas.pt/2026/04/o-luxo-e-a-ausencia-de-pressa/" type="link" id="https://duaslinhas.pt/2026/04/o-luxo-e-a-ausencia-de-pressa/">continua</a></strong>)</p>
</div></div>
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		<title>Angola como outro Israel</title>
		<link>https://duaslinhas.pt/2026/03/angola-como-outro-israel/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Vanda Narciso]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 24 Mar 2026 17:01:38 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[MUNDO]]></category>
		<category><![CDATA[O ESTADO da ARTE]]></category>
		<category><![CDATA[POLÍTICA]]></category>
		<category><![CDATA[Política]]></category>
		<category><![CDATA[SOCIEDADE]]></category>
		<category><![CDATA[Angola]]></category>
		<category><![CDATA[sionismo]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Quando os judeus quiseram colonizar Angola</p>
<p>O conteúdo <a href="https://duaslinhas.pt/2026/03/angola-como-outro-israel/">Angola como outro Israel</a> aparece primeiro em <a href="https://duaslinhas.pt">Duas Linhas</a>.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Há poucos dias, num almoço, enquanto se discutia os impactos da presente guerra, uma angolana na minha mesa, comentou algo como “a única coisa que agradeço a Salazar é o não ter permitido Israel instalar-se aqui no Planalto”.<br>Este foi a gatilho para passar grande parte do fim-de-semana a pesquisar sobre  assunto (mais uma vez, um assunto de que sabia pouco) e para escrever este artigo.</p>



<h4 class="wp-block-heading"><strong>Angola como hipótese esquecida para um Estado judeu</strong></h4>



<p>No início do século XX, quando o antissemitismo se intensificava na Europa e o movimento sionista ainda não estava plenamente consolidado em torno da Palestina, surgiram propostas alternativas que hoje soam altamente improváveis.<br>Entre elas, uma ideia pouco conhecida: a possibilidade de Angola, então colónia portuguesa, acolher colónias agrícolas judaicas &#8211; ou até mesmo servir de embrião para um Estado judeu fora do Médio Oriente.</p>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<h4 class="wp-block-heading"><strong>Entre o sonho territorialista e a realidade colonial</strong></h4>



<p>A corrente conhecida como “territorialismo” ganhou expressão com a criação em 1903 da Jewish Territorial Organization (ITO), liderada por Israel Zangwill. Ao contrário do sionismo dominante, que apontava para a Palestina, esta organização defendia a criação de um território seguro para judeus em qualquer parte do mundo disponível.</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="724" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/03/ההסתדרות_הטריטוריאליסטית_cropped-1024x724.jpg" alt="" class="wp-image-48032" srcset="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/03/ההסתדרות_הטריטוריאליסטית_cropped-1024x724.jpg 1024w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/03/ההסתדרות_הטריטוריאליסטית_cropped-300x212.jpg 300w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/03/ההסתדרות_הטריטוריאליסטית_cropped-768x543.jpg 768w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/03/ההסתדרות_הטריטוריאליסטית_cropped-1536x1086.jpg 1536w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/03/ההסתדרות_הטריטוריאליסטית_cropped-696x492.jpg 696w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/03/ההסתדרות_הטריטוריאליסטית_cropped-1392x984.jpg 1392w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/03/ההסתדרות_הטריטוריאליסטית_cropped-1068x755.jpg 1068w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/03/ההסתדרות_הטריטוריאליסטית_cropped-1320x933.jpg 1320w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/03/ההסתדרות_הטריטוריאליסטית_cropped.jpg 1659w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption">membros da Jewish Territorial Organization, Basileia, Suiça, 1905</figcaption></figure></div>


<p>Fontes históricas confirmam que vários territórios foram considerados &#8211; incluindo regiões na América do Sul, África e Ásia. Angola surge nesse contexto como hipótese, sobretudo pela sua extensão territorial, bom clima e potencial agrícola. Mas também por laços históricos muito antigos – afinal até houve judeus enviados para Angola pela inquisição.</p>
</div></div>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<h4 class="wp-block-heading"><strong>Angola nas margens das alternativas</strong></h4>



<p>Entre 1907 e 1914, a ITO considerou Angola como possível destino, estabelecendo contactos junto do governo português para concessões de terra para colonatos judaicos. Há um <strong><a href="https://catalog.hathitrust.org/Record/012105216" type="link" id="https://catalog.hathitrust.org/Record/012105216">relatório</a></strong> e chegou a haver debates no parlamento português.</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-full"><img loading="lazy" decoding="async" width="549" height="260" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/03/angola-israel-relatorio.jpg" alt="" class="wp-image-48030" srcset="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/03/angola-israel-relatorio.jpg 549w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/03/angola-israel-relatorio-300x142.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 549px) 100vw, 549px" /><figcaption class="wp-element-caption"><a href="https://catalog.hathitrust.org/Record/012105216">Catalog Record: Report on the work of the Commission sent out&#8230; | HathiTrust Digital Library</a></figcaption></figure></div>


<p><br>Alguns políticos argumentavam que havia grandes benefícios (especialmente económicos e demográficos) para Portugal.<br>Entre 1912 e 1914 a ideia perde força. Parece que o grande ponto de discórdia era saber se a colónia em Angola seria um colonato judeu sob a égide de Portugal ou se seria um Estado judeu independente. A questão nunca chegou a ser clarificada e com o início da Primeira Grande Guerra o assunto é esquecido.<br>Durante as décadas de 1910 e 1920, o movimento sionista consolidava-se cada vez mais em torno da Palestina, especialmente após a Declaração Balfour. Ainda assim, alternativas continuaram a ser procuradas. Há registos de contactos esporádicos entre representantes judaicos e autoridades portuguesas, mas não há evidências de negociações formais ou planos concretos na década de 20 especificamente para Angola.</p>
</div></div>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<h4 class="wp-block-heading"><strong>Steinberg e a última tentativa concreta, ainda que exploratória</strong></h4>



<p>A iniciativa mais consistente foi liderada por Isaac Nachman Steinberg, fundador da Freeland League for Jewish Territorial Colonization. No final da década de 1930, sob a sua liderança, a organização chegou a incluir Angola entre os territórios objeto de contactos e negociações diplomáticas.<br>Steinberg terá desenvolvido contactos com o governo português, propondo a instalação de dezenas de milhares de judeus em colónias agrícolas autossuficientes em Angola.</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-full is-resized"><img loading="lazy" decoding="async" width="440" height="550" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/03/Isaac_Steinberg_1939.jpg" alt="" class="wp-image-48037" style="width:510px;height:auto" srcset="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/03/Isaac_Steinberg_1939.jpg 440w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/03/Isaac_Steinberg_1939-240x300.jpg 240w" sizes="auto, (max-width: 440px) 100vw, 440px" /><figcaption class="wp-element-caption">23/05/1939.Isaac Steinberg</figcaption></figure></div>


<p>Foram elaborados alguns documentos que previam o desenvolvimento agrícola, infraestruturas e instituições comunitárias, mas não se conhece um “Plano Angola” detalhado e estruturado, como chegou a haver por exemplo para a Austrália (Kimberley Plan, 1939).<br>Ainda assim, a ideia chegou a ganhar alguma atenção internacional, mas a conjuntura política europeia, a hesitação de Lisboa, receosa de críticas internacionais e de impactos internos em Angola, e a preferência da maioria dos movimentos judaicos pela Palestina ditaram o seu fracasso.</p>
</div></div>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<h4 class="wp-block-heading"><strong>O papel de Salazar: prudência, controlo e recusa implícita</strong></h4>



<p>Qualquer análise deste episódio exige olhar para António de Oliveira Salazar, que então chefiava o regime do Estado Novo. Salazar mantinha uma política colonial profundamente conservadora e centralizada. Angola era vista como espaço estratégico do império, e qualquer projeto de colonização autónoma, sobretudo envolvendo populações estrangeiras organizadas, levantava grandes reservas: receio de perda de controlo político sobre o território; medo de pressões internacionais; preocupação com equilíbrios raciais e sociais na colónia; alinhamento diplomático cauteloso num contexto europeu instável.</p>



<p>Embora não haja registo de uma rejeição formal pública detalhada, a postura do regime foi de contenção e bloqueio indireto, o que levou ao abandono da iniciativa.</p>



<h4 class="wp-block-heading"><strong>Entre passado e presente: ecos numa geopolítica em tensão</strong></h4>



<p>Olhar para estas propostas esquecidas ganha nova relevância à luz dos acontecimentos presentes. O Estado de Israel, criado em 1948, tornou-se o centro político e simbólico da identidade judaica contemporânea, mas também um dos epicentros de conflitos.<br>A violência atual mostra que, mais de um século depois, as questões que motivaram o territorialismo permanecem dramaticamente atuais.</p>



<p>A diferença é que, enquanto no início do século XX se procuravam territórios alternativos como Angola, hoje o conflito está profundamente enraizado numa geografia específica, onde história, religião, política e dinheiro se entrelaçam num verdadeiro nó górdio.</p>
</div></div>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<h4 class="wp-block-heading"><strong>Angola como outro Israel: uma distopia possível</strong></h4>



<p>E se Angola tivesse acolhido, nas décadas de 1930 ou 1940, dezenas de milhares de colonos judeus organizados em cooperativas agrícolas? É possível imaginar um planalto central transformado num mosaico de kibutzes tropicais, com cidades emergentes onde hoje há savanas e a língua hebraica a ser ensinada nas escolas.<br>Nesse cenário alternativo, a criação de Israel em 1948 talvez não tivesse sido o único polo de atração &#8211; ou, num cenário ainda mais radical da história, poderia até nunca ter ocorrido nos mesmos moldes. Angola tornar-se-ia, assim, um improvável centro da diáspora judaica, com ligações culturais e económicas profundas à Europa e às Américas, mas também atravessada ainda mais por grandes tensões.<br>Num presente distópico, os ecos da guerra na região a que chamamos de Médio Oriente deixariam de ser distantes para ressoar diretamente em solo angolano. Os ataques do Irão, ou de outros atores, não se limitariam a Faixa de Gaza ou aquela zona geográfica, mas poderiam atingir infraestruturas e comunidades judaicas em África. Angola, nesse mundo alternativo, seria um território caracterizado pela coexistência entre atividades agrícolas e dispositivos de segurança. E nem consigo imaginar como teria sido o processo de Independencia …</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-full"><img loading="lazy" decoding="async" width="458" height="480" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/03/angola-4.png" alt="" class="wp-image-48039" srcset="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/03/angola-4.png 458w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/03/angola-4-286x300.png 286w" sizes="auto, (max-width: 458px) 100vw, 458px" /></figure></div>


<h4 class="wp-block-heading"><strong>O papel do acaso</strong></h4>



<p>A ideia de Angola como destino para um Estado ou colónia judaica pertence ao domínio das possibilidades históricas e não dos projetos concretizados. Ainda assim, revela algo muito curioso: num mundo marcado por perseguições, migrações e grandes incertezas, a geografia política não é um facto imutável. Muito pelo contrário, não raras vezes resulta de circunstâncias, escolhas e oportunidades, por vezes, quase do acaso.</p>
</div></div>
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		<title>ESCREVE COMO QUEM SEMEIA</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vanda Narciso]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 21 Mar 2026 10:00:52 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[LER LIVROS]]></category>
		<category><![CDATA[Lifestyle & Gadgets]]></category>
		<category><![CDATA[MUNDO]]></category>
		<category><![CDATA[Angola]]></category>
		<category><![CDATA[poesia de Ana Paula tavares]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Ana Paula Tavares</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Ana Paula Tavares é um dos nomes mais marcantes da literatura angolana, diria mesmo da literatura contemporânea em língua portuguesa, como confirma o reconhecimento maior que lhe foi atribuído com o Prémio Camões em 2025. A sua escrita faz pontes entre passados e futuros, entre vozes femininas e ancestrais , vozes que ela convoca de forma delicada e impactante.<br>Nascida no Lubango, em 1952, a sua infância foi desenhada pelo silêncio e pelas histórias sussurradas no interior de Angola, onde a tradição oral e a terra se inscrevem profundamente na memória de quem cresce embalada pelo sopro da História. Essa vivência ecoa nos seus versos, onde a paisagem não é apenas cenário, mas corpo vivo e simbólico:</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-full"><img loading="lazy" decoding="async" width="433" height="112" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/03/desossaste-me.jpg" alt="" class="wp-image-47961" srcset="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/03/desossaste-me.jpg 433w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/03/desossaste-me-300x78.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 433px) 100vw, 433px" /><figcaption class="wp-element-caption">(Poema “Desossaste-me”, em Ritos de Passagem, 1985)</figcaption></figure></div>


<p>O seu percurso académico conduziu-a à universidade no Lubango onde estudou História, e posteriormente a Lisboa, onde acabou o curso – e fez mestrado e doutoramento- aprofundou saberes e consolidou um olhar crítico sobre o legado colonial e o papel das mulheres africanas. A sua obra poética, marcada por uma linguagem sensível e pela resiliência, resgata vozes silenciadas e reivindica o espaço da mulher enquanto guardiã e transmissora da memória coletiva.<br>Na sua escrita, o corpo feminino, a natureza e os rituais ancestrais surgem frequentemente como elementos centrais. No poema “A Anona”, por exemplo, a descrição aparentemente simples de um fruto carrega uma enorme densidade simbólica e cultural.</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-full"><img loading="lazy" decoding="async" width="397" height="87" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/03/anona.jpg" alt="" class="wp-image-47963" srcset="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/03/anona.jpg 397w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/03/anona-300x66.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 397px) 100vw, 397px" /><figcaption class="wp-element-caption">(poema “A Anona”, em Ritos de Passagem, 1985)</figcaption></figure></div>


<p>Para Ana Paula Tavares, a poesia é um ato de resistência e de feminismo, onde o quotidiano se cruza com a força espiritual das suas ancestrais. Os seus versos evocam a ligação profunda à terra, ao feminino e às narrativas orais que sobreviveram ao tempo, celebrando a herança das mães e avós, mulheres que, mesmo diante do silêncio e da opressão, mantiveram viva a identidade:</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-full"><img loading="lazy" decoding="async" width="486" height="82" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/03/canto.jpg" alt="" class="wp-image-47964" srcset="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/03/canto.jpg 486w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/03/canto-300x51.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 486px) 100vw, 486px" /><figcaption class="wp-element-caption">(Poema “Canto de nascimento”, em O Lago da Lua, 1999)</figcaption></figure></div>


<p>Ler, aqui em Angola, Ana Paula Tavares é embarcar por entre rios e savanas, onde o passado sussurra e a esperança se reinventa. Na sua obra, o tempo ampara o esquecimento e as mulheres são fios invisíveis que seguram o mundo. Cada verso é um convite para escutar o murmúrio antigo das vozes que tecem a identidade de um povo. </p>



<p>Termino, com um verso de que muito gosto:</p>



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<div class="wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow">
<figure class="wp-block-image size-full"><img loading="lazy" decoding="async" width="491" height="31" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/03/cercado.jpg" alt="" class="wp-image-47965" srcset="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/03/cercado.jpg 491w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/03/cercado-300x19.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 491px) 100vw, 491px" /></figure>
</div>



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<figure class="aligncenter size-full"><img loading="lazy" decoding="async" width="309" height="480" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/03/ritos-1.jpg" alt="" class="wp-image-47970" srcset="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/03/ritos-1.jpg 309w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/03/ritos-1-193x300.jpg 193w" sizes="auto, (max-width: 309px) 100vw, 309px" /></figure></div></div>
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		<title>DEITADA NA AREIA DO DESERTO, BRAÇOS ABERTOS AO VENTO</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vanda Narciso]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 03 Mar 2026 11:30:12 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[MUNDO]]></category>
		<category><![CDATA[Natureza]]></category>
		<category><![CDATA[O ESTADO da ARTE]]></category>
		<category><![CDATA[Angola]]></category>
		<category><![CDATA[deserto do Namibe]]></category>
		<category><![CDATA[Welwitchia Mirabilis]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Uma das figuras mais improváveis do reino vegetal: a Welwitschia Mirabilis.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Endémica do sul de Angola e do norte da Namíbia, a Welwitschia é, à sua maneira, minimalista: passa a vida inteira com apenas duas folhas. Duas. Nem uma, nem três, nem um conjunto elegante de ramos. Apenas duas folhas teimosas que crescem continuamente a partir da base, podem atingir os 4 metros, podendo a planta ultrapassar os mil anos de idade. O vento encarrega-se de as rasgar e torcer, dando-lhe aquele aspeto de desalinhado de quem acordou há séculos e ainda não teve tempo de se pentear. Para outros, esta planta parece um polvo.<br>Considerada um verdadeiro “fóssil vivo”, é do tempo do Jurássico, pertence à divisão das gnetófitas, um grupo raro de gimnospérmicas * que há muito intriga botânicos em todo o mundo. Mas há mais: a Welwitschia é dioica &#8211; existem plantas masculinas e plantas femininas. Os exemplares masculinos produzem cones com pólen; os femininos, cones que, após a polinização (frequentemente feita por insetos persistentes), originam sementes. Romance botânico em pleno deserto, com direito a pólen levado pelo vento e encontros discretos entre cones.</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-full"><img loading="lazy" decoding="async" width="652" height="273" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/03/welwitschia-juergens-733x414-screen.jpg" alt="" class="wp-image-47596" srcset="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/03/welwitschia-juergens-733x414-screen.jpg 652w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/03/welwitschia-juergens-733x414-screen-300x126.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 652px) 100vw, 652px" /></figure></div>


<p><br>A sobrevivência, essa, é obra de engenharia natural. Uma raiz axial profunda mergulha no subsolo em busca de humidade, enquanto as folhas absorvem o nevoeiro atlântico que se insinua pelas madrugadas do Namibe. Num território onde quase tudo parece desistir, ela insiste e resiste.</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-full"><img loading="lazy" decoding="async" width="505" height="707" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/03/welwitchia-2.jpg" alt="" class="wp-image-47594" srcset="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/03/welwitchia-2.jpg 505w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/03/welwitchia-2-214x300.jpg 214w" sizes="auto, (max-width: 505px) 100vw, 505px" /></figure></div>


<p>O próprio nome conta várias histórias:</p>



<p>Na língua local, a Welwitschia, chama-se Tômbwa ou Tômbua e dá nome a uma cidade no Namibe. Este foi também o primeiro nome científico (latinizado) que teve, Tomboa Angolensis. Mas os nomes locais raramente são os fixados pela ciência e mais tarde passou a<br>chamar-se Welwitschia Mirabilis.</p>



<p>Welwitschia homenageia o botânico austríaco Friedrich Welwitsch, que a encontrou e descreveu em Angola em 1859, perto de Cabo Negro**, aquando das suas explorações botânicas em Angola ao serviço da coroa portuguesa &#8211; recolheu um total de 8.000 amostras botânicas, com 5.000 espécies diferentes, destas, mais de mil eram espécies novas. Já Mirabilis vem do latim e significa “maravilhosa” &#8211; e a ciência não exagerou no adjetivo, é mesmo maravilhosa (à sua maneira, mas maravilhosa). No Namibe, porém, ela atende por nomes mais íntimos: “N’tumbo”, em umbundu, e “Onyanga”, em herero e também “Tômbua” ou “Tamboa”.</p>



<p>E como toda figura “maravilhosa”, também carrega uma lenda.<br>Conta a tradição oral que teria sido uma jovem transformada pelos espíritos do deserto &#8211; condenada, ou quem sabe abençoada, a permanecer deitada sobre a areia, braços abertos ao vento, atravessando séculos. Olhando para as suas folhas largas e retorcidas, não é<br>difícil imaginar a silhueta de alguém que caiu, mas nunca se rendeu.<br>Também há quem diga que é carnivora e que come galinhas ou mesmo humanos, mas há também quem afirme que esta éuma história inventada para a proteger, pois assim não lhe tocam.<br>Entre o rigor científico e a poesia do deserto, a Tômbua permanece ali, impassível e desalinhada, testemunha de impérios que passaram, de fronteiras traçadas e redesenhadas, de gerações que nasceram e partiram. Mais do que planta, é metáfora viva: num lugar onde tudo parece árido e inóspito, a vida não apenas resiste &#8211; faz questão de permanecer.</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="576" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/03/selo-welwitchia-1024x576.png" alt="" class="wp-image-47592" srcset="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/03/selo-welwitchia-1024x576.png 1024w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/03/selo-welwitchia-300x169.png 300w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/03/selo-welwitchia-768x432.png 768w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/03/selo-welwitchia-1536x864.png 1536w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/03/selo-welwitchia-696x392.png 696w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/03/selo-welwitchia-1392x783.png 1392w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/03/selo-welwitchia-1068x601.png 1068w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/03/selo-welwitchia-1320x743.png 1320w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/03/selo-welwitchia.png 1920w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></figure></div><p>O conteúdo <a href="https://duaslinhas.pt/2026/03/deitada-na-areia-do-deserto-bracos-abertos-ao-vento/">DEITADA NA AREIA DO DESERTO, BRAÇOS ABERTOS AO VENTO</a> aparece primeiro em <a href="https://duaslinhas.pt">Duas Linhas</a>.</p>
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		<title>A ZUNGUEIRA</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vanda Narciso]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 22 Jan 2026 08:00:56 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Economia e Empresas]]></category>
		<category><![CDATA[Lifestyle & Gadgets]]></category>
		<category><![CDATA[MUNDO]]></category>
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		<category><![CDATA[Luanda]]></category>
		<category><![CDATA[pobreza]]></category>
		<category><![CDATA[vendedoras ambulantes de Luanda]]></category>
		<category><![CDATA[zungueiras]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Tudo começa na bacia que equilibra na cabeça - redonda, funda, às vezes rachada, sempre cheia.</p>
<p>O conteúdo <a href="https://duaslinhas.pt/2026/01/a-zungueira/">A ZUNGUEIRA</a> aparece primeiro em <a href="https://duaslinhas.pt">Duas Linhas</a>.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>A Zungueira conhece Luanda de cor. Conhece-a de tanto a percorrer. A cidade passa-lhe pelos pés. Vê o mundo ao nível do chão: sapatos gastos, pressas alheias, moedas contadas duas vezes.</p>



<p>Tudo começa na bacia que equilibra na cabeça &#8211; redonda, funda, às vezes rachada, sempre cheia. É ali que carrega o dia. O peso não é só do que vende, é do que observa.</p>



<p>Na bacia vão bananas maduras, ananases, ginguba torrada ainda quente, peixe seco embrulhado em jornal velho, tomate contado à unidade, água fresca suada dentro do plástico. Às vezes sabonete, bolacha, roupa de segunda mão. O que couber. O que der para virar dinheiro antes que o sol aperte.</p>



<p>A Zungueira vende nos cruzamentos onde o trânsito pára, nas paragens dos candongueiros, à porta dos escritórios, nos passeios partidos. Vende andando e chamando pelo nome das coisas como quem chama pessoas conhecidas. A bacia é vitrina móvel, mercado ambulante. O corpo aprende o ritmo da rua: quando acelerar, quando parar, quando desviar da polícia, quando insistir só mais um pouco.</p>



<p>Etimologicamente a Zungueira circula, está em constante movimento, mas há também as mais sedentárias*. São aquelas que vendem o mata-bicho, cedo, quando Luanda ainda espreguiça. Na bacia trazem pão cortado à mão, ovos cozidos ainda mornos, ou estrelados em cima de arroz, chá ou laranjada em garrafas térmicas, café fraco, mas honesto, bolinhos simples embrulhados em papel. Ficam perto das paragens, das obras, dos portões onde o dia começa pesado. Alimentam quem sai sem tempo, quem trabalha de estômago vazio, quem só precisa de qualquer coisa para aguentar até mais tarde.</p>



<p>Elas sabem a hora exata da fome. Antes das sete, vende-se rápido e fala-se pouco. Depois, a bacia pesa menos e o corpo pesa mais. O mata-bicho não é só comida: é pausa curta, é cumprimento, é “bom dia” dito com pão quente, muitas vezes fiado, anotado na memória.</p>



<p>A Zungueira chega antes das notícias oficiais. Sabe quando o preço subiu sem aviso, quando o bairro anda tenso só pelo jeito como as pessoas seguram a bolsa, quando há festa porque a música começa mais cedo. Ouve tudo: o rádio do candongueiro, a discussão do casal, o suspiro de quem não conseguiu vender nada. Aprende palavras que não usa e histórias que não são suas, mas que lhe passam pelas mãos como o dinheiro trocado com que lhe pagam.</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="576" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/01/zungueira-3x-1024x576.png" alt="" class="wp-image-46737" srcset="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/01/zungueira-3x-1024x576.png 1024w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/01/zungueira-3x-300x169.png 300w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/01/zungueira-3x-768x432.png 768w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/01/zungueira-3x-1536x864.png 1536w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/01/zungueira-3x-696x392.png 696w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/01/zungueira-3x-1392x783.png 1392w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/01/zungueira-3x-1068x601.png 1068w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/01/zungueira-3x-1320x743.png 1320w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/01/zungueira-3x.png 1920w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption">fotografias partilhadas das redes sociais</figcaption></figure></div><p>O conteúdo <a href="https://duaslinhas.pt/2026/01/a-zungueira/">A ZUNGUEIRA</a> aparece primeiro em <a href="https://duaslinhas.pt">Duas Linhas</a>.</p>
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		<title>Geografias da Desigualdade</title>
		<link>https://duaslinhas.pt/2026/01/geografias-da-desigualdade/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Vanda Narciso]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 13 Jan 2026 00:00:40 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Economia e Empresas]]></category>
		<category><![CDATA[Lifestyle & Gadgets]]></category>
		<category><![CDATA[MUNDO]]></category>
		<category><![CDATA[O ESTADO da ARTE]]></category>
		<category><![CDATA[Democratic Resettlement Community (DRC)]]></category>
		<category><![CDATA[desigualdades sociais]]></category>
		<category><![CDATA[Mondesa]]></category>
		<category><![CDATA[Namíbia]]></category>
		<category><![CDATA[Swakopmund]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A diferença entre turismo e viagem é não ser só consumo, é ser sobretudo ENCONTRO</p>
<p>O conteúdo <a href="https://duaslinhas.pt/2026/01/geografias-da-desigualdade/">Geografias da Desigualdade</a> aparece primeiro em <a href="https://duaslinhas.pt">Duas Linhas</a>.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<p><br>Swakopmund nasceu do olhar europeu sobre o deserto. Fundada em 1892 como porto do então Sudoeste Africano Alemão, a cidade foi pensada como um prolongamento da Alemanha em solo africano. A arquitetura colonial, as ruas ordenadas, os cafés de inspiração bávara e o alemão ainda presente nos nomes das ruas e das lojas, e mesmo no interior destas. Há uma seção de livros em Alemão na livraria da cidade e há menus em Alemão, pelo menos num restaurante, são marcas visíveis dessa origem. Swakopmund cresceu voltada para o mar, para o comércio, para o turismo e, durante muito tempo, de costas para Mondesa.</p>



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<div class="wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow">
<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="629" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/01/pub-1024x629.jpg" alt="" class="wp-image-46540" srcset="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/01/pub-1024x629.jpg 1024w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/01/pub-300x184.jpg 300w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/01/pub-768x472.jpg 768w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/01/pub-696x427.jpg 696w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/01/pub-1068x656.jpg 1068w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/01/pub.jpg 1135w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption">Swakopmund</figcaption></figure>
</div>



<div class="wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow">
<figure class="wp-block-image size-full"><img loading="lazy" decoding="async" width="884" height="531" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/01/comercio-mondesa.jpg" alt="" class="wp-image-46541" srcset="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/01/comercio-mondesa.jpg 884w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/01/comercio-mondesa-300x180.jpg 300w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/01/comercio-mondesa-768x461.jpg 768w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/01/comercio-mondesa-696x418.jpg 696w" sizes="auto, (max-width: 884px) 100vw, 884px" /><figcaption class="wp-element-caption">Mondesa</figcaption></figure>
</div>
</div>



<p>Mondesa, por outro lado, nasceu da exclusão. Criada oficialmente nos anos 1960, quando o território era administrado pela África do sul, nasceu assim sob a sombra do apartheid, quando as autoridades desenharam mapas para separar mundos: Mondesa para os negros, o centro da cidade para os brancos. Ou seja, foi pensada como um bairro segregado para a população negra que trabalhava em Swakopmund. E mesmo dentro dela havia zonas para cada etnia, havia (permitam-me a expressão) pretos de primeira e pretos de segunda, o que refletia a lógica de “dividir para reinar”.</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="576" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/01/mondesa-2x-1024x576.png" alt="" class="wp-image-46543" srcset="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/01/mondesa-2x-1024x576.png 1024w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/01/mondesa-2x-300x169.png 300w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/01/mondesa-2x-768x432.png 768w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/01/mondesa-2x-1536x864.png 1536w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/01/mondesa-2x-696x392.png 696w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/01/mondesa-2x-1392x783.png 1392w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/01/mondesa-2x-1068x601.png 1068w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/01/mondesa-2x-1320x743.png 1320w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/01/mondesa-2x.png 1920w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></figure></div>


<p><br><br>O seu traçado não surgiu do acaso urbano nem do encontro cultural, mas de uma decisão administrativa com o intuito de afastar, disciplinar, controlar. Cresceu rapidamente, impulsionada pela migração interna e pela procura de trabalho, tornando-se um espaço de sobrevivência, resistência e identidade coletiva.</p>
</div></div>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<p>Em Mondesa, a vida acontece na rua: nos mercados informais, na música que ecoa dos quintais, no vai-e-vem constante de pessoas que constroem o presente com poucos recursos e muita criatividade. Swakopmund parece um enclave da Alemanha em África. A cidade funcionou nas últimas décadas, ainda funciona, como estância balnear sobretudo para os alemães e namibianos endinheirados. Já o pessoal de Mondesa, quando pode descansar, vai à terra, sobretudo para o norte da Namibia.</p>



<div class="wp-block-columns is-layout-flex wp-container-core-columns-is-layout-5 wp-block-columns-is-layout-flex">
<div class="wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow"><div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-full"><img loading="lazy" decoding="async" width="976" height="638" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/01/swakopmund-casa.jpg" alt="" class="wp-image-46545" srcset="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/01/swakopmund-casa.jpg 976w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/01/swakopmund-casa-300x196.jpg 300w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/01/swakopmund-casa-768x502.jpg 768w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/01/swakopmund-casa-696x455.jpg 696w" sizes="auto, (max-width: 976px) 100vw, 976px" /><figcaption class="wp-element-caption">Swakopmund, casa burguesa colonial</figcaption></figure></div></div>



<div class="wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow">
<figure class="wp-block-image size-full"><img loading="lazy" decoding="async" width="962" height="598" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/01/swakopmund-hotel.jpg" alt="" class="wp-image-46546" srcset="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/01/swakopmund-hotel.jpg 962w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/01/swakopmund-hotel-300x186.jpg 300w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/01/swakopmund-hotel-768x477.jpg 768w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/01/swakopmund-hotel-696x433.jpg 696w" sizes="auto, (max-width: 962px) 100vw, 962px" /><figcaption class="wp-element-caption">Swakopmund, Hotel Europa</figcaption></figure>
</div>
</div>



<p>O contraste é evidente. Onde Swakopmund exibe fachadas coloridas, jardins bem cuidados e hotéis voltados para o oceano, Mondesa revela casas simples e inacabadas, ruas poeirentas e uma densidade humana elevada. Em Swakopmund, o tempo parece desacelerar ao ritmo das ondas e dos turistas; em Mondesa, o dia começa cedo e termina tarde, guiado pelo ritmo do trabalho e pela economia informal. Uma vive da contemplação e do lazer, a outra da necessidade e da luta diária.</p>
</div></div>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<p>Mais distante, quase empurrada para fora do enquadramento urbano, encontra-se a Democratic Resettlement Community (DRC). Criada nos anos 2000 como solução de “alojamento temporário”, a DRC tornou-se permanente sem nunca ter sido plenamente integrada. Se Swakopmund nasceu do olhar europeu sobre o deserto, e Mondesa da segregação planeada, a Democratic Resettlement Community (DRC) resulta da exclusão prolongada. Terrenos áridos, habitações improvisadas, serviços escassos (sem água canalizada e centro de saúde) e uma sensação constante de temporário que dura décadas.<br>A ligação da DRC com Mondesa é sobretudo humana. Muitos dos seus residentes trabalham em Mondesa, têm família lá ou passaram por esse bairro antes de serem empurrados ainda mais para a margem. Com Swakopmund, a relação é mais distante e funcional: demoradas deslocações diárias para trabalhos mal remunerados, invisíveis para quem desfruta da cidade costeira. A DRC existe para servir, mas raramente para ser vista.</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-large is-resized"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="574" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/01/drc-geral-1024x574.jpg" alt="" class="wp-image-46551" style="width:1017px;height:auto" srcset="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/01/drc-geral-1024x574.jpg 1024w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/01/drc-geral-300x168.jpg 300w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/01/drc-geral-768x430.jpg 768w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/01/drc-geral-696x390.jpg 696w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/01/drc-geral-1068x598.jpg 1068w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/01/drc-geral.jpg 1214w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption">Democratic Resettlement Community (DRC), plano geral</figcaption></figure></div>


<p>É nesta encruzilhada, física e simbólica, que surge a visita guiada (community tour) a Mondesa e DRC, conduzida por um operador de turismo comunitário. O guia não apresenta o bairro como atração exótica, mas como uma narrativa viva, ele é alguém que não conhece apenas o bairro, ele vive lá em Mondesa. O percurso passa pelo mercado informal, onde aprendemos sobre frutas, legumes e plantas e bebidas medicinais, pela visita a uma senhora de etnia Herero, que nos recebe no quintal e nos conta algumas coisas sobre as tradições do grupo a que pertence, pelo Arts &amp; Craft Center do DRC, onde somos recebidos com canções e dança e em língua de “estalidos” e depois visitamos a exposição de trabalhos de desenho/pintura das crianças e o artesanato feito pelas mulheres. Foi aqui que comprei 3 bonecas que representam 3 grupos étnicos diferentes (a quarta foi comprada numa loja em Swakopmund) e, por último, pelo restaurantre Hafeni em Mondesa, onde provamos as “iguarias locais” como insectos crocantes, com destaque para as “larvas de mopan” e também para o Ombidi/Mutete (espinafre selvagem). No fim da refeição um grupo de jovens locais entoa algumas canções &#8220;à capela&#8221; para nós.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe loading="lazy" title="Namíbia, Mondesa" width="696" height="392" src="https://www.youtube.com/embed/TSBtL8UtiOI?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div><figcaption class="wp-element-caption"><em><sup>vídeo</sup></em></figcaption></figure>



<p>Alguns operadores de turismo comunitário começaram há alguns anos a incluir a DRC nos seus percursos. O discurso aqui muda um pouco, aqui não se fala apenas de passado colonial ou do apartheid, mas das escolhas da Namibia independente, das falhas do planeamento urbano e da persistência da desigualdade num país independente desde 1990 (foi o último país africano a se tornar independente por via da descolonização). Pelos caminhos de terra batida de Mondesa e DRC veem-se muitos salões de barbeiro, pequenas lojas em anexos ou à janela, igrejas de várias crenças e quintais onde as crianças brincam.</p>
</div></div>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<p>Cada paragem desmonta estereótipos e revela uma comunidade que, apesar das dificuldades, construiu redes de solidariedade e pertença<br>Cada paragem traz uma história, de migração interna, de perda e de ganhos, de encontros e de desencontro, mas também de muita esperança. O guia explica como Mondesa se organizou ao longo dos anos, fala das várias igrejas como centros sociais, das escolas sobrelotadas, mas também das associações juvenis, dos grupos culturais e das iniciativas locais que tentam redesenhar o futuro.</p>



<div class="wp-block-columns is-layout-flex wp-container-core-columns-is-layout-6 wp-block-columns-is-layout-flex">
<div class="wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow"><div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="609" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/01/drc-escola-artes-fachada-1024x609.jpg" alt="" class="wp-image-46548" srcset="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/01/drc-escola-artes-fachada-1024x609.jpg 1024w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/01/drc-escola-artes-fachada-300x178.jpg 300w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/01/drc-escola-artes-fachada-768x457.jpg 768w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/01/drc-escola-artes-fachada-696x414.jpg 696w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/01/drc-escola-artes-fachada-1068x635.jpg 1068w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/01/drc-escola-artes-fachada.jpg 1088w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption">DRC, fachada da escola Arts &amp; Craft Center</figcaption></figure></div></div>



<div class="wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow"><div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-full is-resized"><img loading="lazy" decoding="async" width="1017" height="704" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/01/drc-escola-artes.jpg" alt="" class="wp-image-46549" style="width:458px;height:auto" srcset="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/01/drc-escola-artes.jpg 1017w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/01/drc-escola-artes-300x208.jpg 300w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/01/drc-escola-artes-768x532.jpg 768w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/01/drc-escola-artes-218x150.jpg 218w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/01/drc-escola-artes-696x482.jpg 696w" sizes="auto, (max-width: 1017px) 100vw, 1017px" /><figcaption class="wp-element-caption">DRC, interior da escola Arts &amp; Craft Center</figcaption></figure></div></div>
</div>



<p>No final da visita, quando o grupo regressa a Swakopmund, a distância entre as cidades parece maior, não em quilómetros mas em consciência. Mondesa e sobretudo a DRC deixam de ser apenas o “outro lado” e transformam-se num espelho incômodo e necessário. A visita guiada não promete soluções fáceis, mas oferece algo raro nos dias que correm: contexto, humanidade e a certeza de que compreender um lugar começa sempre por ouvir quem o chama de casa.<br>Gosto de pensar que a diferença entre turismo e viagem é não ser só consumo, é ser sobretudo ENCONTRO.</p>
</div></div>
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		<title>MUITA TERRA, MUITA TERRA</title>
		<link>https://duaslinhas.pt/2025/12/muita-terra-muita-terra/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Vanda Narciso]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 31 Dec 2025 17:00:38 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cultura]]></category>
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		<category><![CDATA[O ESTADO da ARTE]]></category>
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		<category><![CDATA[Caminhos de Ferro de Moçâmedes]]></category>
		<category><![CDATA[crónica de viagem]]></category>
		<category><![CDATA[Namibe]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Entre Moçâmedes e Bibala, o comboio funciona como observatório móvel de um território em transformação</p>
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<p>O comboio parte de Moçâmedes ainda com o cheiro salgado do Atlântico no ar. Na estação, a azafama é grande, a começar pela zona da bilheteira. Os bilhetes são passados à mão, e para poupar esforço, e tempo, as pessoas agrupam-se em pares, trios, ou quartetos por destino. Assim, um só bilhete, com o nº de passageiros, serve para mais que uma pessoa. Para quem está sozinho como eu, o desafio começa por ser encontrar quem vá para o mesmo destino.</p>



<p>Aliás, o desafio começa na tentativa de encontrar informação fidedigna sobre a circulação, ou não, do comboio e dos seus horários.&nbsp; Mas apesar da aparente confusão todas as pessoas são agrupadas, entramos no comboio, as pessoas e as mercadorias, e o comboio sai pouco depois da hora marcada, 7 horas da matina.</p>



<p>A viagem até Bibala, outrora conhecida como Vila Arriaga, nascida de um acampamento de apoio à construção da linha do Caminho de Ferro de Moçâmedes (CFM), no interior da província do Namibe, é mais do que um simples deslocamento geográfico. É um percurso que atravessa paisagens, histórias e rotinas, sobretudo para quem vê no caminho-de-ferro — restabelecido em 2023, após 26 anos de interrupção — um meio essencial e facilitador de ligação entre o litoral e o planalto.&nbsp;</p>



<p>À medida que a composição avança, o azul do mar cede lugar a tons ocres, às pedras e à vegetação resistente do sul de Angola. O ritmo do comboio impõe uma cadência própria, regular, quase hipnótica, que dita o tempo da observação. Pelas janelas, sucedem-se pedreiras, velhas casas coloniais abandonadas, pequenas povoações, campos abertos e montes que surgem e desaparecem como páginas de um livro viradas com calma.&nbsp;</p>



<p>No interior das carruagens e à beira dos carris, o retrato é humano é muito diverso e colorido. No interior do comboio viajam comerciantes com sacos bem atados e outros que vão comprar mercadorias, mulheres que vendem no comboio um pouco de tudo &#8211; comida e sumos em sacos de plástico, panos, pentes e ganchos para o cabelo, produtos alimentares &#8211; trabalhadores em trânsito e famílias que aproveitam o transporte mais acessível para visitar parentes e ainda animais, vivos e mortos. As conversas cruzam-se em voz alta, alternando entre notícias locais, a saúde da família, preços dos mais variados produtos e outras coisas ditas em línguas locais que não entendo.</p>



<div class="wp-block-columns is-layout-flex wp-container-core-columns-is-layout-7 wp-block-columns-is-layout-flex">
<div class="wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow"><div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="765" height="1024" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/12/comboio-cfm-765x1024.png" alt="" class="wp-image-46324" srcset="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/12/comboio-cfm-765x1024.png 765w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/12/comboio-cfm-224x300.png 224w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/12/comboio-cfm-768x1028.png 768w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/12/comboio-cfm-696x931.png 696w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/12/comboio-cfm.png 807w" sizes="auto, (max-width: 765px) 100vw, 765px" /></figure></div></div>



<div class="wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow"><div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="762" height="1024" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/12/comboio-interior-762x1024.png" alt="" class="wp-image-46326" srcset="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/12/comboio-interior-762x1024.png 762w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/12/comboio-interior-223x300.png 223w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/12/comboio-interior-768x1032.png 768w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/12/comboio-interior-696x935.png 696w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/12/comboio-interior.png 804w" sizes="auto, (max-width: 762px) 100vw, 762px" /></figure></div></div>
</div>



<p>Há quem durma, quem apenas observe &#8211; como eu- e quem fale muito &#8211; como aquelas meninas que me olhavam com espanto, decerto se interrogando por que razão iria uma mulher estrangeira no comboio.</p>



<div class="wp-block-columns is-layout-flex wp-container-core-columns-is-layout-8 wp-block-columns-is-layout-flex">
<div class="wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow" style="flex-basis:33.33%"><div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="760" height="1024" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/12/paragem-mercado-eventual-760x1024.png" alt="" class="wp-image-46320" srcset="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/12/paragem-mercado-eventual-760x1024.png 760w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/12/paragem-mercado-eventual-223x300.png 223w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/12/paragem-mercado-eventual-768x1034.png 768w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/12/paragem-mercado-eventual-696x937.png 696w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/12/paragem-mercado-eventual.png 802w" sizes="auto, (max-width: 760px) 100vw, 760px" /></figure></div></div>



<div class="wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow" style="flex-basis:66.66%"><div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-large is-resized"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="800" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/12/paragem-1024x800.png" alt="" class="wp-image-46322" style="width:607px;height:auto" srcset="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/12/paragem-1024x800.png 1024w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/12/paragem-300x234.png 300w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/12/paragem-768x600.png 768w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/12/paragem-696x544.png 696w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/12/paragem-1068x834.png 1068w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/12/paragem-1320x1031.png 1320w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/12/paragem.png 1383w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></figure></div></div>
</div>



<p>O comboio faz várias paragens, sempre anunciadas pelo frenesim que percorre as carruagens antes destas se imobilizarem, nas estações e também em locais estratégicos para a venda e compra de produtos. &nbsp;Em cada uma, os gestos repetem-se: descem alguns passageiros, sobem outros, entram produtos frescos, saem encomendas.&nbsp;</p>



<p>O caminho-de-ferro cumpre ali a sua função social, servindo como eixo de mobilidade e abastecimento numa região onde as distâncias são longas e as alternativas, limitadas. Para muitos, o comboio não é opção — é necessidade. Só eu fazia a viagem pela própria viagem, fiel à velha máxima de que o mais importante é o caminho, não o destino. Tive de explicar, mais de uma vez, que não ia tratar de nenhum assunto em Bibala: viajava apenas porque gosto de andar de comboio e porque essa é, para mim, uma forma particularmente interessante de conhecer o país real.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
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</div><figcaption class="wp-element-caption"><em><sup>vídeo</sup></em></figcaption></figure>



<p>Do ponto de vista da paisagem, a viagem marca uma transição clara. O relevo torna-se mais acidentado, o ar mais seco, e a sensação térmica muda à medida que se ganha altitude. O Namibe mostra a sua diversidade em poucos quilómetros: do litoral árido ao interior fértil em certos trechos, onde a agricultura de subsistência, aproveitando leitos de rios (secos) e alguns rios subterrâneos, desenha manchas verdes num cenário predominantemente seco.</p>



<p>As paragens fora das estações são as mais interessantes, o pessoal corre para onde calcula que o comboio vai parar, os produtos chegam de todo o lado para serem vendidos à beira do carril ou à janela do comboio. São frutas, legumes, feijão e e mandioca, ovos, animais vivos (galinhas) ou bocados de carne fresca. Numa das paragens apercebo-me de um intermediário, compra aos locais por atacado, para logo à janela revender a retalho.</p>



<p>Mas o que mais me impressionou foram as mulheres Mucubais. Andavam nuas da cintura para cima, usando apenas um cinto que lhes apertava o peito. O material desse cinto variava: alguns pareciam feitos de fibras vegetais, outros de couro e, nalguns casos, até de tiras de plástico. Mais tarde viria a saber que essa faixa (oyonduthi) é um marcador social e simbólico, reservado às mulheres casadas. Para além disso, usavam adornos como tornozeleiras (otyhivela) e pulseiras ou braceletes (othingo), objectos que não cumprem apenas uma função estética, mas que comunicam pertença, estatuto e identidade dentro da comunidade.</p>



<div class="wp-block-columns is-layout-flex wp-container-core-columns-is-layout-9 wp-block-columns-is-layout-flex">
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<figure class="aligncenter size-full"><img loading="lazy" decoding="async" width="420" height="631" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/12/mucubal.png" alt="" class="wp-image-46331" srcset="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/12/mucubal.png 420w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/12/mucubal-200x300.png 200w" sizes="auto, (max-width: 420px) 100vw, 420px" /></figure></div></div>



<div class="wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow"><div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-full is-resized"><img loading="lazy" decoding="async" width="398" height="691" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/12/mucubal-2.png" alt="" class="wp-image-46332" style="width:362px;height:auto" srcset="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/12/mucubal-2.png 398w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/12/mucubal-2-173x300.png 173w" sizes="auto, (max-width: 398px) 100vw, 398px" /></figure></div></div>
</div>



<p>Não me choca o facto de andarem semi-nuas. O que verdadeiramente me prende o olhar e me perturba são essas tiras que atam, espalmam e comprimem o peito. O que me inquieta é essa função disciplinadora do corpo feminino que aquela faixa parece exercer. Ninguém me convence de que aquilo não dói. Como pode não haver dor num ritual que faz do corpo um espaço de inscrição da tradição?</p>



<p>A aproximação a Bibala é anunciada por um movimento maior dentro das carruagens. As bagagens começam a ser retiradas dos seus locais, as conversas abrandam, e a atenção volta-se para o exterior.&nbsp;</p>



<p>A estação surge como ponto de convergência: ali chegam produtos, notícias e pessoas.&nbsp; E hão-de partir produtos, notícias e pessoas. Ao desembarcar, percebo que a viagem cumpriu mais do que o seu objetivo prático. Entre Moçâmedes e Bibala, o comboio funciona como observatório móvel de um território em transformação, onde o transporte ferroviário é uma linha de ligação entre o litoral e o interior, entre o quotidiano e a esperança de melhores conexões.</p>



<p>Num país de grandes distâncias, esta viagem reafirma uma evidência simples: quando há carris a preços acessíveis, há pessoas dispostas a percorrê-los. E assim o comboio continuará a contar histórias — umas mais discretas, outras mais visíveis, todas profundamente reais —, mas sempre fundamentais para compreender a vida que se move entre um ponto e outro do mapa.</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="601" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/12/namibe-1024x601.png" alt="" class="wp-image-46334" srcset="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/12/namibe-1024x601.png 1024w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/12/namibe-300x176.png 300w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/12/namibe-768x451.png 768w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/12/namibe-696x409.png 696w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/12/namibe-1392x817.png 1392w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/12/namibe-1068x627.png 1068w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/12/namibe-1320x775.png 1320w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/12/namibe.png 1448w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></figure></div><p>O conteúdo <a href="https://duaslinhas.pt/2025/12/muita-terra-muita-terra/">MUITA TERRA, MUITA TERRA</a> aparece primeiro em <a href="https://duaslinhas.pt">Duas Linhas</a>.</p>
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		<title>DOIS HOMENS ENTRE MUNDOS</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vanda Narciso]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 02 Dec 2025 00:00:00 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Nsaku N’Vunda e Lourenço Mendonça inscrevem-se na tradição diplomática africana independente, iniciada pelo Reino do Congo no final do século XV </p>
<p>O conteúdo <a href="https://duaslinhas.pt/2025/12/dois-homens-entre-mundos/">DOIS HOMENS ENTRE MUNDOS</a> aparece primeiro em <a href="https://duaslinhas.pt">Duas Linhas</a>.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Ao ler o livro <strong><a href="https://duaslinhas.pt/2025/11/a-historia-de-um-africano/">“Um Oceano, Dois Mares, Três Continentes”</a></strong> veio-me à memória a história de um outro extraordinário angolano do século XVII, o príncipe Lourenço da Silva Mendonça.</p>



<p>Alguns de vós talvez se lembrem, ou talvez não, de uma <strong><a href="https://duaslinhas.pt/2023/12/o-principe-lourenco/">crónica</a></strong> que escrevi na Guiné em 2023 sobre<strong><a href="https://duaslinhas.pt/2023/12/o-principe-lourenco/"> Lourenço da Silva Mendonça</a></strong>. Resumidamente, era sobre um outro homem nascido em Angola, que também cruzou mares, oceanos e continentes, tal como N’Vunda uns anos antes. Lourenço saiu jovem de Angola, foi para o Brasil, chegou a estar no Quilombo de Palmares e depois seguiu para Portugal, estudou em Braga e em Lisboa, um percurso tão semelhante ao de <strong><a href="https://duaslinhas.pt/2025/11/a-historia-de-um-africano/">Nsako N&#8217;Vunda</a></strong> que cheguei a pensar que poderiam ser a mesma pessoa.</p>



<p>A história do príncipe Lourenço é digna de uma poema épico Depois de ter concluído os estudos em Portugal, apresentou um caso contra a escravatura ao Tribunal do Vaticano, em 1684. O caso foi um marco histórico e levou à condenação da escravatura pelo Papa dois anos depois, em 1686. O Papa Inocente XI, nomeou-o Procurador-Geral das “Irmandades dos Homens Pretos”, em Lisboa.</p>



<p>Importa sublinhar que Mendonça fez isto um século antes da Revolução Francesa, que dizem inspirar o abolicionismo, e quase 150 anos antes do Parlamento britânico ter abolido a escravatura (1833).</p>



<h4 class="wp-block-heading"><strong>Nsako N’Vunda e Lourenço da Silva Mendonça, percursos paralelos</strong></h4>



<p>António Manuel Nsaku N’Vunda e Lourenço da Silva Mendonça foram visionários antes do tempo. Predestinados a grandes feitos. Não se conheceram, nunca se cruzaram, mas percorreram os mesmos oceanos e as mesmas calçadas das ruas de Lisboa e Roma. N’Vunda morreu no Vaticano em 1608 e Lourenço esteve em Roma entre 1670–1680.</p>



<p>Embora não exista prova documental de um vínculo familiar direto, ambos pertenceram à nobreza cristianizada de Angola, foram educados em instituições católicas, ambos eram fluentes em línguas europeias, ambos se envolveram nas redes políticas entre M&#8217;Banza Kongo, Luanda, Lisboa e Roma.</p>



<p>A trajetória de Mendonça — tal como a de Nsaku N’Vunda — só é possível graças à posição social elevada dessas famílias africanas que, desde o século XVI, ocupavam cargos administrativos, eclesiásticos e diplomáticos.</p>



<p>Ambos, Nsaku N’Vunda e Lourenço da Silva Mendonça, inscrevem-se na tradição diplomática africana independente, iniciada pelo Reino do Congo no final do século XV para dialogar diretamente com o papado e com a monarquia portuguesa.</p>



<p>Nsaku N&#8217;Vunda inaugurou a presença diplomática africana permanente na Santa Sé, como embaixador oficial do rei Manicongo D. Álvaro II. Lourenço da Silva Mendonça, 60 anos depois retomou essa rota diplomática para denunciar à Santa Sé e ao rei de Portugal os abusos da escravatura praticada pelos europeus, nomeadamente os portugueses. O caso levado perante o Tribunal do Vaticano coloca-o como um dos primeiros ativistas abolicionistas conhecidos da história.</p>



<h4 class="wp-block-heading"><strong>Lourenço, herdeiro diplomático e político de Nsaku N’Vunda</strong></h4>



<p>Em suma, ao comparar os dois, percebe-se que ambos viveram tensões semelhantes: eram africanos formados na tradição cristã, navegando entre culturas, línguas e poderes que muito raramente davam palco a vozes do continente africano. Cada um, no seu tempo e em seu modo, usou as estruturas da igreja para defender a dignidade do povo.</p>



<p>N’Vunda procurou reconhecimento diplomático e proteção ao reino do Kongo. Mendonça confrontou diretamente o sistema esclavagista que naquele tempo dominava o mundo atlântico. O primeiro personifica o ideal de embaixador africano e é citado, frequentemente, como modelo da diplomacia angolana. O segundo, personifica o papel de intelectual e religioso, um africano a defender os direitos humanos em Roma.</p>



<p>Ambos, reivindicaram direitos e reconhecimento para os africanos. Resumindo, quem quiser aprender, tem agora dois livros para ler.</p>



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<figure class="aligncenter size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="676" height="1024" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/11/nafafe-676x1024.jpg" alt="" class="wp-image-45741" srcset="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/11/nafafe-676x1024.jpg 676w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/11/nafafe-198x300.jpg 198w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/11/nafafe-768x1164.jpg 768w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/11/nafafe-696x1054.jpg 696w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/11/nafafe.jpg 1000w" sizes="auto, (max-width: 676px) 100vw, 676px" /><figcaption class="wp-element-caption">“Lourenço da Silva Mendonça and the Black Atlantic Abolitionist Movement in the 17th Century”, de José Lingna Nafafé.</figcaption></figure></div></div>



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<figure class="aligncenter size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="655" height="1024" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/11/1-oceano-655x1024.jpeg" alt="" class="wp-image-45742" srcset="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/11/1-oceano-655x1024.jpeg 655w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/11/1-oceano-192x300.jpeg 192w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/11/1-oceano-696x1088.jpeg 696w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/11/1-oceano.jpeg 720w" sizes="auto, (max-width: 655px) 100vw, 655px" /><figcaption class="wp-element-caption">Um Oceano, Dois Mares, Três Continentes&#8221;, de Wilfried N&#8217;Sondé </figcaption></figure></div></div>
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		<title>A HISTÓRIA DE UM AFRICANO</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vanda Narciso]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 28 Nov 2025 00:00:21 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cultura]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>a vida extraordinária de António Manuel Nsaku N'Vunda</p>
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<p>O livro acompanha a vida extraordinária de António Manuel Nsaku N&#8217;Vunda, um homem, padre, de origem congolesa cuja trajetória o leva do coração do Reino do Kongo – ia a escrever do coração das trevas – até grandes cidades europeias e às rotas atlânticas — daí o título que invoca o oceano Atlântico, os mares Mediterrâneo e Tirreno e os continentes Africa, América do Sul e Europa. O autor constrói um personagem que é, ao mesmo tempo, poderoso, épico, ingénuo e profundamente humano.</p>



<p>Embora seja ficção, o livro assenta numa investigação rigorosa e revela, para mim de uma forma magnífica, a viagem – trágica e extraordinária – do primeiro embaixador do Reino do Kongo no Vaticano, revelando tanto a dimensão humana deste homem como a brutalidade do tráfico de escravizados que dizimou povos e territórios durante séculos.</p>



<p>A história mistura aventura, amor e reconstrução histórica: acompanhamos o personagem em viagem, em encontros e desencontros com instituições religiosas e poderes coloniais &#8211; desejo, conflitos de fé, conversão e representação política &#8211; além das violências e contradições do mundo atlântico e não só do século XVI/XVII. O livro dá assim uma perspetiva muito particular sobre as complexas relações entre África e a Europa no início do século XVII.</p>



<p>A obra apresenta António Manuel Nsaku N&#8217;Vunda, bacongo nascido em Boko atraído pelo catolicismo introduzido pelos missionários e conduzido à vida religiosa até se tornar padre na sua aldeia. É então convocado pelo soberano congolês, Manicongo Mpangu-a-Nimi Lukeni lua Mvemba, conhecido como D. Álvaro II (1587–1613), descrito no romance como “Manzou a Nimi, rei dos Bakongo de ontem, hoje e amanhã, chamado também Álvaro II pelos seus irmãos cristãos desde o batismo”.</p>



<p>D. Álvaro II compreendia plenamente o poder geopolítico da religião no mundo num tempo dominado pela Ibéria e pela influência missionária portuguesa. Decide, por isso, enviar uma embaixada direta à Santa Sé &#8211; gesto ousado, destinado a romper a mediação lusitana e a garantir ao Reino do Congo, para além de outros privilégios, o direito de nomear os seus próprios bispos, tal como os monarcas europeus. A escolha recai sobre o seu primo, Nsaku N&#8217;vunda, homem de fé sólida, carácter firme e domínio do português. Historicamente parece que a comitiva tinha cerca de 25 pessoas, das quais poucas, muito poucas mesmo, chegaram ao Vaticano. No romance é uma viagem solitária na companhia de marinheiros, escravos e piratas.</p>



<p>A documentação histórica confirma a dimensão épica da viagem feita. O percurso de Nsaku N&#8217;Vunda pode, como sugere o romance, dividir-se em duas grandes etapas: do Congo ao Novo Mundo e do Novo Mundo à Europa. A primeira etapa revela o ambiente violento do Atlântico, nomeadamente a vida no interior de um navio negreiro; a segunda, para além de relatar ataques de piratas e a fuga numa embarcação mais pequena, expõe o intrincado labirinto de interesses políticos de Portugal e Espanha. Com longas paragens no Brasil, em Portugal e em Espanha, a viagem acaba por demorar três longos anos.</p>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<p>O livro não fala disso, mas ele passou pelo Funchal, Lisboa, Alcobaça – onde viveu algum tempo no mosteiro – e também por Évora, a caminho de Madrid. Quando alcança Roma, carrega no corpo o desgaste da grande odisseia física e espiritual que protagonizou. Gravemente doente, é visitado pelo Papa Paulo V, que vai ao seu leito para receber a mensagem do Reino do Congo &#8211; gesto que demonstra o interesse da Santa Sé em um diálogo direto com o reino africano e a vontade de expandir a fé para além das fronteiras ditadas pelas coroas europeias, nomeadamente portuguesa e espanhola.</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="486" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/11/papa-com-nvunda-1024x486.jpg" alt="" class="wp-image-45667" srcset="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/11/papa-com-nvunda-1024x486.jpg 1024w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/11/papa-com-nvunda-300x142.jpg 300w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/11/papa-com-nvunda-768x364.jpg 768w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/11/papa-com-nvunda-1536x728.jpg 1536w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/11/papa-com-nvunda-696x330.jpg 696w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/11/papa-com-nvunda-1392x660.jpg 1392w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/11/papa-com-nvunda-1068x506.jpg 1068w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/11/papa-com-nvunda-1320x626.jpg 1320w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/11/papa-com-nvunda.jpg 1552w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption">fresco da visita papal a Nsaku N&#8217;Vunda, em Roma</figcaption></figure></div>


<p>Nsaku N&#8217;Vunda morre a 6 de janeiro de 1608, mas recebe honras extraordinárias: é sepultado na Basílica de Santa Maria Maior, onde o seu túmulo, ainda hoje visitável, o designa como “Dom António Manuel, Príncipe do Kongo”. A história consagra-o como o primeiro embaixador africano na Santa Sé e antecede mesmo a Embaixada Keichō (1613–1620) do Japão. Hoje, a sua memória é celebrada em África, no Vaticano e em diversas instituições académicas. E, tal como o romance de N’Sondé sugere, revisitar a sua história é revisitar também a história de milhões cujas vidas foram moldadas &#8211; quando não roubadas &#8211; pelo Atlântico como espaço de circulação, de confronto, de dor e de resistência.</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-full"><img loading="lazy" decoding="async" width="750" height="422" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/11/cq5dam.thumbnail.cropped.750.422.jpeg" alt="" class="wp-image-45668" srcset="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/11/cq5dam.thumbnail.cropped.750.422.jpeg 750w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/11/cq5dam.thumbnail.cropped.750.422-300x169.jpeg 300w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/11/cq5dam.thumbnail.cropped.750.422-696x392.jpeg 696w" sizes="auto, (max-width: 750px) 100vw, 750px" /><figcaption class="wp-element-caption">                                           busto de Nsaku N&#8217;Vunda</figcaption></figure></div>


<p>Para além da biografia romanceada deste homem extraordinário, António Manuel Nsaku N&#8217;Vunda, este livro, que recomendo vivamente, fala-nos, e de que maneira,do colonialismo, da religião e do poder, da escravatura, da condição da mulher, europeia e africana no séc. XVI e XVII, do capitalismo desenfreado que mercantilizou os seres humanos, da identidade, da corrupção e do racismo.</p>
</div></div>
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