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	<title>Arquivo de amizade - Duas Linhas</title>
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	<title>Arquivo de amizade - Duas Linhas</title>
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		<title>ESTAR MORTO ANTES DE MORRER!&#8230;</title>
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		<dc:creator><![CDATA[José d'Encarnação]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 08 Apr 2026 09:00:07 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Comentava, há dias, com uma colega o facto de amigo comum não responder às mensagens, mesmo àquelas a que, em princípio, ele teria, por obrigação de ofício, uma palavra a dizer. – Está morto! – retorquiu-me ela. – Morto, como? – Não sabes? É a nova moda: faz-se de conta que se não existe, não [&#8230;]</p>
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<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<p>Comentava, há dias, com uma colega o facto de amigo comum não responder às mensagens, mesmo àquelas a que, em princípio, ele teria, por obrigação de ofício, uma palavra a dizer.</p>



<p>– Está morto! – retorquiu-me ela.</p>



<p>– Morto, como?</p>



<p>– Não sabes? É a nova moda: faz-se de conta que se não existe, não se atende o telefone, não se fala para ninguém…</p>



<p>Fiquei abismado.</p>



<p>E raciocinei: de facto, três ou quatro dos meus antigos alunos, agora já colegas, com quem eu tivera maior relacionamento, inclusive de trabalho, morreram desta maneira!&#8230;</p>



<p>Metem-me dó! Ficam velhos antes do tempo. Carregam, sozinhos, pesada cruz, quando havia cireneus capazes de os ajudar, &nbsp;«Olá, bom dia! Como estás?»… Não há bons-dias nem boas-noites, nem festas felizes!&#8230;</p>
</div></div>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<p>Tenho o privilégio de o construtor da minha casa ter usado tijolos furados, na parede exterior da minha casa-de-banho. Encanta-me o final da tarde, quando o sol começa a pôr-se, lá para as bandas do Guincho, porque, nessa altura, começa o rodopiar de umas duas dezenas de pardais. Pousam na buganvília, na romãzeira, nos fios do telefone e da eletricidade. Conversam animadamente uns com os outros. E, pouco a pouco, entra cada um num dos buracos. Saem. Dão uma espreitadela aos demais e acabam por se aninhar cada um no seu buraco.</p>



<p>Encanta-me vê-los, aconchegados, mesmo junto ao vidro interior. Uma comunidade!</p>



<p>Durante a jornada – que começa para eles assim que alvorece e vão à vida – não sei se andam juntos ou não. Sei que passam a noite connosco.</p>



<p>Vou para a cama, amiúde, a pensar nesses meus colegas e amigos que não são como os “meus” pardais: não convivem, estão mortos antes de morrer!</p>
</div></div>
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		<title>FLAGRANTES DA VIDA REAL</title>
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		<dc:creator><![CDATA[José d'Encarnação]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 08 Mar 2026 21:00:49 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cultura]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Alberto Ramos foi um daqueles amigos do peito que todos gostamos de ter</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Alberto Ramos foi um daqueles amigos do peito que todos gostamos de ter. Antigo aluno salesiano, seguiu a carreira musical, foi professor de História no Ensino Preparatório e aposentou-se como docente na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Amiúde meu companheiro de viagem entre Coimbra e a Gare do Oriente, partilhávamos, naturalmente, muitas das peripécias do quotidiano. E ele tinha-as a rodos!</p>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<h4 class="wp-block-heading"><em><strong>Revoluções</strong></em></h4>



<p>Uma delas contou-ma um dos seus antigos alunos dos primeiros tempos.</p>



<p>O professor entrou na aula, na manhã do 25 de Abril. Nós estávamos excitados. E, creio, até que um pouco medrosos, ao que ele nos tranquilizou:</p>



<p>– É uma revolução! Não estudámos nós já, na História, uma série delas? Há alguma agitação; mas, afinal, tudo se acalma e renova. Vamos, pois, aguardar que tudo se passará bem.</p>



<p>– E nós sossegámos – garantiu-me esse antigo aluno.</p>
</div></div>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<h4 class="wp-block-heading"><em><strong>Morte</strong></em></h4>



<p>Outra me contou ele, de algum tempo depois do 25 de abril, quando começaram as reivindicações.</p>



<p>Entrou na sala de aula. Era dia de ponto escrito. Apercebeu-se que havia uma frase a giz no quadro. Foi até à secretária, como era seu hábito. Tirou os enunciados. Deu as indicações para o preenchimento dos cabeçalhos. Certificou-se de que todos tinham folhas de ponto. Deu a distribuir os enunciados que policopiara. Não havia dúvidas? Podiam começar!</p>



<p>Como era seu costume em dia de ponto – e sempre, aliás – saiu da secretária e dispôs-se a ir passear pela sala. Silêncio sepulcral. Agora é que ele vai ver! Escrito no quadro estava MORTE AO DR ALBERTO. &nbsp;Calmamente, Alberto foi até ao quadro. Pegou no giz. Ainda mais sepulcral se fez o silêncio. Todas as esferográficas quietinhas. Entre a palavra MORTE e a palavra AO abriu ele uma chaveta e escreveu: IMEDIATA. Gargalhada geral. De novo, o silêncio. As esferográficas voltaram a escrever.</p>
</div></div>



<h4 class="wp-block-heading"><em><strong>Olhos de ver cão</strong></em></h4>



<p>Nesse âmbito – e dizia-me que o aprendera na escola salesiana – um outro episódio, este já da Universidade.</p>



<p>Um dos alunos olhava para ele com ar estranho, um tudo-nada provocante. O Alberto não hesitou:</p>



<p>– Não olhes para mim com esses olhos com que olhas prós cães!</p>



<p>E o estudante também não hesitou em replicar:</p>



<p>– Ó doutor, eu para os cães olho com ternura!</p>



<p>– Boa resposta, amigo, boa resposta! Parabéns! – sublinhou assim o Alberto a gargalhada geral.</p>



<p>E a explicação da matéria continuou.</p>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<h4 class="wp-block-heading"><em><strong>Inês</strong></em></h4>



<p>Ainda nesse contexto de uma atitude especial do docente poder influenciar toda uma vida, positiva ou negativamente, o caso que mais o impressionara, confidenciou-me, foi o de uma senhora sua ex-aluna, já formada, de que ele até já nem se lembrava bem.</p>



<p>Ao encontrá-lo na Baixa de Coimbra, veio saudá-lo com um beijo, identificou-se &nbsp;e convidou-o para um café. Confidenciou-lhe:</p>



<p>– De certeza que não se lembra de mim. No meu primeiro ano, eu ousei entrar na sua aula a meio. Sentei-me e o professor andava pela sala a explicar a matéria, como costumava fazer. Deve ter reparado em qualquer coisa de estranho, quando eu entrei e depois. O certo é que, ao passar por mim pela segunda vez, me acariciou o cabelo e me segredou: «Não penses nisso! Vai correr tudo bem, acredita!». Tem alguma ideia porque é que eu me atrasara? De facto, apesar do atraso, nesse dia eu não queria mesmo faltar à sua aula. Se calhar, para receber aquela carícia, sabe-se lá!&#8230; Eu vinha do tribunal, doutor, onde acabara de ser decretado o meu divórcio!&#8230; Ainda não tinha 21 anos e um filho nos braços. Nunca mais me esqueci das suas palavras! Estou-lhe muito grata. Já passaram mais de 10 anos! Obrigado!</p>
</div></div>
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		<title>A mão de Annan</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Helena Ventura Pereira]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 15 Dec 2025 11:13:30 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cultura]]></category>
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		<category><![CDATA[O QUE DIZ HELENA]]></category>
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		<category><![CDATA[Grande Museu do Egipto]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Conheceram-se no Cairo eram ainda mais jovens</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<p>Não a conheço pessoalmente a ela, é uma jovem senhora egípcia de sorriso encantador. Ele é português de sorriso cativante e anda pela mesma idade.</p>



<p>Conheceram-se no Cairo eram ainda mais jovens, num projecto multidisciplinar da UE, fez há duas semanas 22 anos. Muito tempo, mas sempre mantiveram, pelas redes sociais, por telefone, uma ligação forte como fio de seda a que chamo <strong>Amizade.</strong></p>



<p>Ele contava-lhe que constituíra família, ia dando novidades da evolução do trabalho, das actividades paralelas que praticava, sem nunca lhe perguntar uma palavra da vida pessoal. Sabia dela o que ela queria contar.</p>
</div></div>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<p>Recentemente ele foi mergulhar no Mar Vermelho integrado num grupo de mais cinco amigos. Numa mensagem informou-a de que passaria pelo Cairo, novamente.</p>



<p>Quando pousaram de novo na cidade, terminada a actividade do grupo, e saído ele de um acidente descompressivo e infecção bacteriana num ouvido, estava ela à espera para lhe fazer uma surpresa e rever o Amigo que não via há tanto tempo. O cabelo de ambos embranquecera, o sorriso mantinha-se inalterado.</p>



<p>Os colegas do grupo dele acharam-na encantadora. Agilizou a compra dos bilhetes para entrarem no Grande Museu do Egipto (GEM) o maior museu antropológico do mundo dedicado a uma só civilização. Chegou-se à bilheteira donde partia uma fila interminável de pessoas e comprou os ingressos para todos.</p>



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</div>
</div>
</div></div>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<p>Fez com eles parte da visita. Ainda ensinou a um dos funcionários, que impedia certos visitantes de tocarem uma placa com gravuras em relevo e escrita em Braille, que era mesmo para ser tocada por pessoas com deficiência visual, para que entendessem a figura que representava o que liam.</p>



<div class="wp-block-columns is-layout-flex wp-container-core-columns-is-layout-2 wp-block-columns-is-layout-flex">
<div class="wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow"><div class="wp-block-image">
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</div>



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</div>



<p>À hora de almoço indicou-lhes o melhor restaurante do espaço, mas recusou o convite para almoçar com eles. Afinal ainda tinha de vencer três horas de viagem para chegar a sua casa em Alexandria.</p>



<p>Resistiu em aceitar o valor da compra dos bilhetes. E com o sorriso mais simpático do mundo, despediu-se de todos e do Amigo, com a ternura de uma <strong>Cumplicidade</strong> sempre baseada no respeito e nos mesmos interesses culturais.</p>
</div></div>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<p>Quando eles saíam do restaurante confortados com a comida e com a camaradagem, avistaram-na a correr para eles carregada de presentes que fora comprar naquele intervalo: uma lembrança para cada um.</p>



<p>A <strong>Dignidade</strong> não lhe permitia aceitar a devolução do que quisera oferecer espontaneamente: o valor dos bilhetes. Só depois se despedia de vez sem olhar para trás e corria para apanhar o transporte.</p>



<p>Já tinha aprendido há muitos anos, mas voltei a escrever umas notas para me situar neste tempo entretecido de equívocos. Vivemos entre os que julgam <strong>ter</strong> tudo, mas a quem falta o respeito pelos que, parecendo menos afortunados materialmente, têm o privilégio da riqueza cultural e humana.</p>



<p>Assistimos ao patético julgamento de pessoas ou povos com base em preconceitos injustificados. Pensam muitos que alguém com nível de vida inferior, não pode ter superior capacidade cognitiva e um código de valores mais consistente.</p>



<p>E tendo viajado, interagido com empatia, nunca menosprezar uma <strong>Amizade</strong> que está longe. Ela pode resistir ao passar dos anos mantendo-se na sua forma mais pura.</p>
</div></div>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<p>Poderá esta ser uma história de <strong>Natal?</strong></p>



<p>Vamos desembrulhar mais este conceito, porque é urgente fazê-lo nestes dias, para saborear o aroma do primeiro “doce” de um pacote que esperamos como prenda duradoura.</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="485" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/12/texto-intercalar-1024x485.png" alt="" class="wp-image-46019" srcset="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/12/texto-intercalar-1024x485.png 1024w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/12/texto-intercalar-300x142.png 300w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/12/texto-intercalar-768x364.png 768w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/12/texto-intercalar-1536x727.png 1536w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/12/texto-intercalar-696x330.png 696w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/12/texto-intercalar-1392x659.png 1392w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/12/texto-intercalar-1068x506.png 1068w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/12/texto-intercalar-1320x625.png 1320w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/12/texto-intercalar.png 1920w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></figure></div>


<p>Um nome e uma mão tocando os simbolos de acessibilidade em Braille, neste Museu onde Tutankamon é a estrela principal.</p>
</div></div>
<p>O conteúdo <a href="https://duaslinhas.pt/2025/12/a-mao-de-annan/">A mão de Annan</a> aparece primeiro em <a href="https://duaslinhas.pt">Duas Linhas</a>.</p>
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		<title>Laranja</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Sónia Andrade]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 22 Feb 2024 00:00:22 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Lifestyle & Gadgets]]></category>
		<category><![CDATA[SOCIEDADE]]></category>
		<category><![CDATA[a vida tal como ela é]]></category>
		<category><![CDATA[amizade]]></category>
		<category><![CDATA[lombo de porco assado]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Coloquei na tábua meia dúzia de alhos. Ao esmagá-los com a faca, vieram-me à cabeça as críticas acutilantes que fizeste ao longo do tempo, por vezes magoaram, mas sempre agradeci a sinceridade. A situação também se invertia muitas vezes. Poucas vezes na realidade, mas era sempre a aprender sobre nós, sobre o mundo. Sempre te [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<div class="wp-block-image">
<figure class="alignright size-full is-resized"><img loading="lazy" decoding="async" width="225" height="225" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2023/04/alho-1.jpg" alt="" class="wp-image-25848" style="width:190px;height:auto"/></figure></div>


<p>Coloquei na tábua meia dúzia de alhos. Ao esmagá-los com a faca, vieram-me à cabeça as críticas acutilantes que fizeste ao longo do tempo, por vezes magoaram, mas sempre agradeci a sinceridade. </p>



<p>A situação também se invertia muitas vezes. Poucas vezes na realidade, mas era sempre a aprender sobre nós, sobre o mundo.</p>



<p>Sempre te achei perfeita (ninguém o é) mas o teu sentido critico, a tua cultura geral, o humor inteligente, a forma como desmanchas algo complicado em simples, seja a conversar comigo, ou a fazer um desenho a um energúmeno qualquer, são qualidades raras de encontrar numa só pessoa.</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="alignright size-full is-resized"><img loading="lazy" decoding="async" width="225" height="225" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2023/04/coentros.jpg" alt="" class="wp-image-25605" style="width:190px;height:auto"/></figure></div>


<p>És um poço de carinho que, sabe-se lá porquê, pões uma tampa em cima. Consegui abri-lo… mas só às vezes.</p>



<p>Foste a melhor amiga durante anos, cresci tanto contigo, tanto. Dancei ainda mais!&nbsp; Somos diferentes, sim, mas metades de laranjas diferentes.</p>



<p>Juntei massa de pimentão, erva de <em>provenc</em>e, cominhos, coentros mais um <em>mix</em> de temperos que comprei na mercearia da senhora de Viseu, vinho branco e muito gindungo. Tu, tal como eu, gostas de emoções fortes.</p>



<p>Cortei ao meio batatas de ir ao forno, duas ou três cenouras para reforçar a cor do prato. Laranja, tal como a nossa amizade, alegre!</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="alignright size-full is-resized"><img decoding="async" src="https://i.imgur.com/zhIDobN.jpeg" alt="" class="wp-image-32329" style="width:181px;height:auto"/></figure></div>


<p>Sal grosso e o sumo de três laranjas. Peguei na varinha mágica, desfiz tudo enquanto recordei as intermináveis caminhadas, jantaradas, as noites e os dias, as conversas estimulantes, a nossa interminável vida juntas. Rimos tanto com inteligência e absoluta falta dela!</p>



<p>No <em>pirex</em> reguei o molho em cima do lombo, acrescentei batatas e cenouras a contornar. O <em>pirex</em> ficou com uma cor eléctrica. Sempre disseste que eu era assim, eléctrica, nunca soube ao certo se era um elogio ou uma crítica. Era capaz de ser ambos. Tapei o<em> pirex</em> com uma folha de alumínio, deixei a marinar no frigorífico.</p>



<p>Foi pela língua portuguesa, como se diz e escreve, que a nossa amizade começou. Pela fonia que diferencia &#8220;molhos&#8221; de mesa e &#8220;mólhos&#8221; de brócolos.</p>



<p>&#8220;That&#8217;s when the cookie crumbels&#8221;, mandou para o microfone o jogador de rugby. Tinha de legendar a entrevista e pedi-te ajuda. Entendíamos a ideia, mas andámos às voltas para encontrar a expressão idiomática portuguesa.</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="alignright size-large is-resized"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="576" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2024/02/lombo-de-porco-1024x576.jpg" alt="" class="wp-image-32330" style="width:188px;height:auto" srcset="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2024/02/lombo-de-porco-1024x576.jpg 1024w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2024/02/lombo-de-porco-300x169.jpg 300w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2024/02/lombo-de-porco-768x432.jpg 768w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2024/02/lombo-de-porco-1536x864.jpg 1536w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2024/02/lombo-de-porco-696x392.jpg 696w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2024/02/lombo-de-porco-1392x783.jpg 1392w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2024/02/lombo-de-porco-1068x601.jpg 1068w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2024/02/lombo-de-porco.jpg 1920w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></figure></div>


<p>Lembro-me como se fosse hoje. Estávamos naquele bar religioso quando o atravessaste direita a mim, com um sorriso triunfante: &#8220;É quando a porca torce o rabo!&#8221; Rimos, tornei-me tua <em>groupie</em>, fiz a legendagem.</p>



<p>Sempre nos imaginei velhinhas sentadas num banco de jardim, com cabelo branco, a rir, discutir política, cultura, o quotidiano, homens, claro, as aventuras, histórias e parvoíces do presente e do passado. Consegues imaginar-nos?</p>



<p>No dia seguinte, ao abrir o frigorifico, saiu de lá um forte aroma a laranja. Intenso, fresco. Meti o lombo no forno e fui para o portátil.</p>



<p>Às seis ainda não tinhas telefonado a perguntar a morada. Às sete percebi que não vinhas. Não te liguei. Não vieste.</p>



<p>Às nove servi-me de um pouco de lombo, batatas e cenouras que cortei previamente na bancada. Sentei-me no sofá com a mantinha e o aquecedor ligado. Não repeti. Às onze estava na cama.</p>



<p>No dia a seguir, ao abrir o frigorifico, o cheiro intenso a laranja enjoo-me. Coloquei-o num taparuer, tranquei-o no congelador e não pensei mais naquelas duas velhinhas.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Dedicado à minha amiga Madalena.</p>
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		<title>Um sinal</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Sónia Andrade]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 03 Jan 2023 20:39:21 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Lifestyle & Gadgets]]></category>
		<category><![CDATA[SOCIEDADE]]></category>
		<category><![CDATA[amizade]]></category>
		<category><![CDATA[amor]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Desde aquele dia que procuro&#160; um sinal de ti. Só há pouco, por segundos (não sei como se mede o tempo nos sonhos) me deste um. Um frame apenas. Um sinal de qualquer das maneiras. Fazes anos hoje, não sei em que dimensão estás, sei que fazes anos hoje. Enganei-me tantas vezes na tua idade&#8230; [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Desde aquele dia que procuro&nbsp; um sinal de ti. Só há pouco, por segundos (não sei como se mede o tempo nos sonhos) me deste um. Um frame apenas. Um sinal de qualquer das maneiras.</p>



<p>Fazes anos hoje, não sei em que dimensão estás, sei que fazes anos hoje. Enganei-me tantas vezes na tua idade&#8230;</p>



<p>Uma vez dei-te dois balões, daqueles com números, com menos dez anos, comprei um cinco mas afinal era um seis. Disseste que era uma brincadeira, estavas habituado a que, em cada três prendas que te oferecia, uma era de pura brincadeira. Muito séria disse que não, mais sério respondeste que a tua idade era outra, mais dez anos! Arranjei a desculpa ideal, &#8220;estás a ver como te vejo muito mais novo?&#8221;</p>



<p>Era obrigatório passarmos, nem que fosse por umas horas, os nossos aniversários juntos. Algumas vezes, por agenda familiar, não o fazíamos no próprio dia, antes no dia anterior ou posterior. Até porque um aniversário é quando um homem ou mulher quiser, o tempo é apenas uma necessidade da Humanidade se organizar. Também não falhávamos o Natal, na mesma lógica do tempo. Tu eras o meu Natal.&nbsp;</p>



<p>No ano passado dei-te um porta-chaves de prata, com as tuas iniciais gravadas. Foi a prenda mais rebuscada, mais pensada, afinal tinhas tantas coisas. Claro que este não servia para a quantidade de chaves que tinhas e não tentaste sequer encontrar uma solução. Ainda sugeri que o usasses para as chaves da garagem mas tu, com toda a descontração, colocaste-o numa chávena. Percebi que nunca mais irias pegar nele e provavelmente irias perdê-lo dentro de casa.</p>



<p>Pedi-to uns tempos depois, queria gravar no outro lado o meu nome de código que definiu a nossa amizade. Andaste à procura, procuraste e procuraste, e, vá lá, encontraste-o.</p>



<p>Ficou aqui por casa um tempo, não é assim tão barato gravar tantas letras em prata. O fecho estragou-se, entretanto, e só neste Natal é que o mandei arranjar. Agora andas sempre comigo. Para sempre.</p>



<p>Fazes anos hoje,&nbsp; sei que te vou encontrar.</p>



<p><em>&#8220;Procuro à noite um sinal de ti,</em></p>



<p><em>Por quem não esqueci.</em></p>



<p><em>Em nome de um sonho,</em><em></em></p>



<p><em>Em nome de ti. </em><em></em></p>



<p><em>Procuro à noite,</em><em></em></p>



<p><em>Um sinal de ti.</em><em></em></p>



<p><em>Espero à noite,</em><em></em></p>



<p><em>Por quem não esqueci,</em><em></em></p>



<p><em>Eu nunca esqueci&#8221;.</em><em></em></p>



<p>(Sétima Legião)</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-4-3 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<div class="youtube-embed" data-video_id="BHsKYG-Cs60"><iframe loading="lazy" title="SÉTIMA LEGIÃO - Por quem não esqueci" width="696" height="522" src="https://www.youtube.com/embed/BHsKYG-Cs60?feature=oembed&#038;enablejsapi=1" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture" allowfullscreen></iframe></div>
</div></figure>
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		<title>Tipa asneirenta</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Sónia Andrade]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 17 Dec 2022 13:40:07 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Lifestyle & Gadgets]]></category>
		<category><![CDATA[Saúde]]></category>
		<category><![CDATA[SOCIEDADE]]></category>
		<category><![CDATA[amizade]]></category>
		<category><![CDATA[amor]]></category>
		<category><![CDATA[coisas de gajas]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Nunca parti um osso, nunca fui operada, mas há dias um médico passou um pequeno papel para que me deitasse numa marquesa e deixasse que mexessem dentro de mim.&#160; Dias antes, tive de fazer a preparação para a intervenção cirúrgica. Dieta, 36 horas sem comer, oito das quais sem sequer poder beber água. Como qualquer [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Nunca parti um osso, nunca fui operada, mas há dias um médico passou um pequeno papel para que me deitasse numa marquesa e deixasse que mexessem dentro de mim.&nbsp;</p>



<p>Dias antes, tive de fazer a preparação para a intervenção cirúrgica. Dieta, 36 horas sem comer, oito das quais sem sequer poder beber água.</p>



<p>Como qualquer idiota que se preze fui à net &#8220;pesquisar&#8221;. Os cenários eram dantescos. Sim, eram possibilidades reduzidas, mas possíveis. Larguei a net antes que a net me engolisse de medo.</p>



<p>E a mamã apareceu. Atentas às voltas com o caminho em hora de ponta, lá fomos conversando e rindo, algo que há muito não acontecia.</p>



<p>Ouvi um plim no móvel, não liguei, a mamã estava na faixa do BUS e, sem me pedir opinião, enfiou-se com uma grande pinta para outra. &#8220;Bate por trás, bate, tu é que pagas&#8221;. Admirei a determinação e humor. Caiu outro plim, não liguei, andávamos à procura do maldito parquímetro para encher a barriga da EMEL.</p>



<p>Sentámo-nos numa esplanada, um café para ela, um micro-golo de água para mim. Ouvi outro plim. Que seca! Quem é que me está a chatear, afinal?</p>



<p>No primeiro sms as cinco mil hipóteses que temia de ter cancro caíram na calçada escorregadia.</p>



<p>Entreguei os exames e o medo dos efeitos colaterais da anestesia ao balcão da clínica. Deixei o telemóvel com a mamã, sugeriu pô-lo no silêncio. Não, quero saber que continua a tocar, cada plim é um sinal de esperança, quero estar lá dentro a saber que continuam a tocar plins.</p>



<p>Pediram-me para tirar a roupa. Despi as calças, a camisa e a memória das doenças com nomes caros que me tinham enchido a cabeça. Deixei de ser a pessoa mais importante dentro de mim.</p>



<p>A médica desejou-me bons sonhos, sei que sonhei muito, não me lembro. Resolvi antes viajar pela amizade de sonho com a minha tipa asneirenta.</p>



<p>Não gostei dela quando a conheci, nem um bocadinho. Falava super alto e em cada frase dizia cinco asneiras! Não me choco facilmente com a linguagem popular mas o rol contínuo de asneiras era inesgotável, intragável. O marido, pelo contrário, era educado, culto, divertido, sempre vestido com originalidade. Questionei-me várias vezes sobre o que é que ele fazia com uma tipa daquelas.</p>



<p>As asneiras não acabaram, penso que diminuíram, mas deixaram de me afectar pois cada frase asneirenta trazia a reboque uma gargalhada. Se inicialmente conversava mais com o marido, com o tempo fui-me aproximando da tipa asneirenta.</p>



<p>Com ela estava sempre bem disposta, era uma alegria, tinha exageros, sim, mas era uma alegria. O tempo deu-nos a partilha de sentimentos e vivências íntimas, segredos inconfessáveis. Não éramos assim tão diferentes. Entediamo-nos.</p>



<p>O meu cão quase sempre fazia xixi pelas pernas abaixo quando a via. Toda a gente de quem o meu cão gostava tinha um automático aval meu. Era boa gente. Eu bem que posso enganar-me com as pessoas, ele era infalível.</p>



<p>Mas havia uma coisa que me irritava. Tenho esta mania de que tiro fotos muito boas mas o meu cão nunca olhava para mim, virava sempre o focinho, uma frustração. Mas, com a tal tipa, bastava ela chamá-lo e ele fazia pose para ela! É que fazia mesmo!</p>



<p>Partilhávamos uma praça, a praça de toda a gente e toda a gente se dava com toda a gente. Bebíamos café juntas, muitos jantares, saímos para ir à outra praça quando a noite avançava. Era uma espécie de after que acabava às 4 da manhã.</p>



<p>A tal tipa asneirenta tornou-se habitue lá de casa. Aparecia sem ter que se fazer anunciada e ia ficando, ficando.</p>



<p>Uma vez, num jantar caseiro, abusámos um pouco no álcool. Só um bocadinho. Estava meio ressacada quando cheguei à praça no dia seguinte, encontrei-a com amigos, convidei todos para jantar. Os amigos desculparam-se, ela olhou-me com um ar muito sério, nunca tinha visto aquele ar tão sério. Deve estar de ressaca, pensei. Insisti, lá acabou por vir.</p>



<p>Enquanto palrava ao ritmo das voltas que dava com a colher de pau, ela areou um fervedor de água até ficar da cor original! Fiquei impressionada. Depois, serenamente perguntou: &#8220;Tu não te lembras, pois não?&#8221; Do quê? Repetiu a pergunta com um sorriso: &#8220;Tu não não te lembras mesmo, pois não?&#8221;&nbsp; Não me lembro do quê pá?</p>



<p>&#8220;Saímos do after, estavas&#8230;bem disposta, convidaste-me para comer qualquer coisa aqui em casa, pediste que levasse duas cervejas. Quando percebeste que não tinha trazido nada, gritaste, descompuseste-me, mandaste-me embora, bateste a porta com um grande, grande, grande estrondo, quase que me atingiste no nariz!&#8221;</p>



<p>Olhei para ela incrédula. Pedi desculpas mil vezes, não me lembrava de todo, de nada, nadinha. E assim continuou a nossa amizade.</p>



<p>Na praça e arredores tornou-se uma rock star, conhecia toda a gente, combinava planos de trabalho com toda a gente, tornou-se de toda a gente.</p>



<p>Num dia demorámos 20 minutos para percorrer 300 metros. Vi tanto de mim nela, tanto. Com jeitinho disse que talvez chegasse o dia em que tudo o que haveria de querer era fazer esses 300 metros na dela, apenas com olás. Olhou-me fixamente, sempre deu importância aos erros que partilhei, ela que fizesse outros.</p>



<p>Nesta folia da praça ficou bem bebida, muitas vezes, mas num processo auto destrutivo. Na altura não conseguia mas, depois em privado, partia-lhe a cabeça, não a queria ver assim, eu própria estive assim tantas vezes, tantas coisas e pessoas que perdi a começar por mim.</p>



<p>Ela acalmou e na altura mais sofrível da minha vida esteve a meu lado, antes, durante e depois da morte do meu cão. Eu estava imbuída de amor, de amigos e comecei a fazer um trabalho sobre ele. Pedi para o filmar, a máquina dela dava para isso, ela negou de imediato mas insisti tanto tanto que, só para me calar,&nbsp; lá aceitou.</p>



<p>Registar as dezenas e dezenas de pessoas que, com gosto e amor, falaram sobre o meu cão, tocou-nos e uniu-nos como nunca. Eram tudo coisas bonitas, lindas, tínhamos de conter as lágrimas. Às vezes não conseguíamos e não nos importávamos. O cão era dos dois, de toda a gente.</p>



<p>Decidi fazer uma tatuagem com o nome Pirata, assim se chamava o rafeirito. No caminho começou a dizer entre palavras que era muito longo o trabalho, que tinha os seus projectos para levar adiante&#8230; Fiquei petrificada, pedi-lhe para acabar a primeira parte, pelo menos, ela continuou a desculpar-se.</p>



<p>Cheguei desolada à loja das tatoos mas depois de a fazer enchi-me de alegria, uma alegria tão grande que tive de sair, não fosse rebentar com as janelas enormes da loja. Dei pulos de alegria enquanto ela filmava pormenores. Quando saiu, saltei-lhe para o colo, é uma mulher robusta, abraçámo-nos e sim vamos continuar!</p>



<p>Decidiu entretanto ir viver para a Costa Alentejana, tive saudades instantâneas. Antes de se ir embora deixou uma singela exposição de retratos das pessoas da praça. É que, de vez enquando, até tirava umas fotografias giras.</p>



<p>&#8220;Tipa asneirenta, conseguiste fazer o que sempre sugeri. É muito mais interessante apanhar as pessoas com naturalidade, sem elas repararem, em vez dos retratos do olha aqui para a câmara. Muito bom.&#8221; Elogiei com genuídade e orgulho mas&#8230; &#8220;Eu não estou aqui, não puseste uma única fotografia minha!&#8221;</p>



<p>Com uma grande, grande lata e voz meiga, respondeu que fez o que lhe disse, apanhou o momento, as pessoas. Por isso, eu estava por aquela exposição toda.</p>



<p>Olhei para ela: &#8220;Sua grande cabra, com uma justificação inteligente tiraste-me da exposição&#8221;. Rimos e lá foi ela enfrentar a força do mar da Zambujeira.</p>



<p>A sacana gostava de apanhar (não é pescar) sargos à noite com uma lanterna que os atrai e depois, pimba, com uma pistola apanha os inocentes sargos. É altamente ilegal, um extermínio de sargos!!!</p>



<p>Acordei da intervenção cirúrgica, sentaram-me numa poltrona, bolachas Maria e chá. Eu que descansasse. Quero lá descansar! Quero é ir ler os plins!</p>



<p>Há três noites que a tipa asneirenta foi assassinar sargos e não voltou à hora do costume. Nem depois, nem depois do depois. Os amigos espalharam de imediato a palavra, todos os barcos da vila percorreram a orla marítima, em terra, uma imensidão de gente maior do que o mar palmilhou as praias. Sem pausas, sem parar.</p>



<p>A tipa asneirenta acabou por aparecer. Toda a gente contou a toda a gente o pouco que se sabia. Estava viva, estava cá! A solidariedade das centenas de pessoas que gostam dela rasgou o céu, tocou a lua.</p>



<p>A tipa asneirenta sobreviveu ao poder dantesco das ondas do mar, conseguiu escapar-se dos rochedos violentos, nadou com as poucas forças que tinha e, não, não morreu na praia.</p>



<p>No final desse dia fizemos uma pausa na partilha de informações, ela estava em boas mãos. Caí na cama, caiu-me o optimismo a que me agarrei e inventei. Chorei pela minha tipa asneirenta que irreversivelmente faz parte de mim. É um bocado de mim. A nossa amizade não se perde na distância, o amor corre quilómetros. Assim que puder vou à Zambujeira, tenho de ir. Preciso de abraçar a minha tipa asneirenta e dizer-lhe em repeat que a amo infinitos mil. Todos amamos.</p>



<figure class="wp-block-image size-full"><img loading="lazy" decoding="async" width="1136" height="552" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2022/12/320204561_1500217707140777_2506252510302908758_n.jpg" alt="" class="wp-image-23415"/><figcaption class="wp-element-caption">Zambujeira</figcaption></figure>
<p>O conteúdo <a href="https://duaslinhas.pt/2022/12/tipa-asneirenta/">Tipa asneirenta</a> aparece primeiro em <a href="https://duaslinhas.pt">Duas Linhas</a>.</p>
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