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	<title>Arquivo de Terras do Demo - Duas Linhas</title>
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	<title>Arquivo de Terras do Demo - Duas Linhas</title>
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		<title>OS CASTANHEIROS DAS “TERRAS DO DEMO”</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Redação]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 22 Sep 2025 08:30:54 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Economia e Empresas]]></category>
		<category><![CDATA[Lifestyle & Gadgets]]></category>
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		<category><![CDATA[UM CRONISTA DE PROVÍNCIA]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Se hoje fosse vivo, sabe-se lá o que Aquilino escreveria ao ver o fogo bravo dos últimos incêndios a consumir castanheiros de 500 anos</p>
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<p>Paisagens, arvoredo, cores da urze ou da giesta, estendal de neblinas ao amanhecer, poentes avermelhados, madrugadas de geada estaladiça, tronco ou fronde de castanheiro surgem nos seus livros tão reais quanto os seres humanos que os celebravam como heróis. Talvez os castanheiros se tenham tornado o seu amor maior. Nas terras de Aquilino. Hoje ainda. Daí o fragmento de um livro para ler.</p>



<p><em>“Até à altitude de 800 metros a árvore por excelência era o castanheiro, ainda mais que o carvalho, que deu o nome a lugares como Soutosa e que o serrano em anos de crise entregou à machada dos carvoeiros e negociantes de madeira, malta desaforada que se fartou de agiotar com o lenho que ouvi chamar a um velho bruxo ossos de Portugal, até à sua extinção.</em></p>



<p><em>Ultimamente, por esporádica iniciativa, porquanto afigura-se-me o indígena bastante refractário ao culto da árvore como o moiro, têm replantado com certa constância, e de novo colinas e vales começam a reluzir na sazão própria do verde tão magnificente dos soutos. No Outono, é maravilha ver, contra o fundo crestado das chãs, com os ouriços a arreganhar e o folhado a empalidecer, como suplantam em sumptuosidade tudo o que se possa imaginar de ourives pelas feiras e de velhos brocados numa missa de pontifical.</em></p>



<p><em>A par com os soutos, aqui e além, deparam-se ainda belas e extensas moitas de carvalhos. Alguns exemplares, admiravelmente soberbos, restam de pé.</em></p>



<p><em>Nas minhas digressões de caçador aconteceu-me umas tantas vezes abrigar-me dos aguaceiros no tronco lorgado dum roble onde caberiam à vontade cinco homens como eu. Acenderam o lume na sua cavidade e por maledicência ou descuido deixaram- no a lavrar. Depois que abateu, ficava ainda tão poderoso e o seu cerne tão duro que não houve serra que pudesse abarcá-lo nem aço que entrasse nele.</em>             <em>Ali jazeu anos até que à força de lhe acenderem o fogo na carcaça se esfacelou e o puderam levar às carradas”.</em></p>



<p>Isto escreveu Aquilino no seu livro Aldeia. Terra, Gente e Bichos no ano de 1954.</p>



<p>Se hoje fosse vivo, sabe-se lá o que Aquilino escreveria ao ver o fogo bravo e iníquo dos últimos incêndios a consumir velhos castanheiros de 500 anos e esses soutos novos plantados agora, pelos netos, passadas tantas gerações!…</p>



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		<title>A MACIEIRA DAS MAÇÃS DE OURO</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Alberto Correia]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 03 Sep 2025 09:00:20 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[LIFESTYLE]]></category>
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		<category><![CDATA[UM CRONISTA DE PROVÍNCIA]]></category>
		<category><![CDATA[fábula]]></category>
		<category><![CDATA[Terras do Demo]]></category>
		<category><![CDATA[tradição religiosa]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Escrevi em tempos uma história infantil que dediquei a meu pai, um velho plantador de macieiras quando ainda não havia o fervor do plantio em pomares de larga escala. A história conta essa inicial presença de Eva e Adão na sua pátria natural – o Éden original onde o tempo parecia não ter medida ainda [&#8230;]</p>
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<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<p>Escrevi em tempos uma história infantil que dediquei a meu pai, um velho plantador de macieiras quando ainda não havia o fervor do plantio em pomares de larga escala. A história conta essa inicial presença de Eva e Adão na sua pátria natural – o Éden original onde o tempo parecia não ter medida ainda que houvesse a tarde, a noite e a manhã.</p>



<p>Viviam em harmonia com os bichos. Mas havia um que se mostrou enganador – a serpente. E foi esta que, um dia, subida ao tronco de uma macieira, falou a Eva e lhe perguntou porque não se aproveitava das maçãs daquele Outono. Eva referiu a proibição de Javé. Mas a serpente, habilidosa, enganou Eva. Prometeu-lhe o Céu como pertença.</p>



<p>E Eva não resistiu. Colheu uma maçã que achou deveras saborosa, parecia ter a doçura do mel, colheu outra e entregou-a a Adão que entretanto chegava junto dela. Adão aceitou a maçã. Mas a maçã soube-lhe a fel e não passou da garganta onde deixou sinal.</p>
</div></div>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<p>Javé apareceu ao fim da tarde para conversar como sempre acontecia. Mas Eva e Adão não apareceram. Deram conta que estavam nus. Javé chamou-os pelo nome e perguntou a Adão:</p>



<p><em>&#8211; Que fizeste? Comeste, porventura, do fruto da árvore que está no meio do Jardim?!</em></p>



<p><em>&#8211; Eva ofereceu-me e eu comi</em>!&#8230; Respondeu Adão, envergonhado.</p>



<p>Daí a pouco Javé expulsava ambos do Jardim. Nada tinham para levar. Como se a terra se tivesse queimado e nada lhes restasse. Javé viu lágrimas nos olhos de Eva e, compadecido, deu a cada um uma veste de peles de cordeiro para esconder-lhes a nudez.</p>
</div></div>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<p>Adão e Eva vaguearam anos sem fim por longes terras que cavaram até elas darem pão. Armaram tendas que moradas já não tinham para se acoitar. Nasceram filhos. Criaram gados. Semearam trigo.</p>



<p>Um dia Eva e Adão quiseram voltar à terra onde nasceram. Era ali que eles queriam morrer. Os filhos já não quiseram ir. E eles armaram sua trouxa e partiram. Quando chegaram mal conheceram a sua pátria original. O fogo do Céu descera sobre ela. E as chuvas de muitos invernos arrastaram as areias para as correntes que ali havia, os quatro rios de antigamente, o Távora, o Vouga, o Douro e o Mondego.</p>



<p>Eva correu ao sítio da sua velha macieira. Era Outono. As maçãs estavam maduras. Eva encheu o avental. Comeu uma. E deu outra a Adão. As maçãs continuavam doces como o mel.</p>



<p>Adão limpou, com seu trabalho, os cursos de água. E os dois plantaram a terra de macieiras. Voltou gente. Voltou a sentir-se a Primavera. E o chão voltou a parecer um Paraíso.</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-full"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="520" height="347" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/09/Macieiras-em-flor.jpg" alt="" class="wp-image-43883" srcset="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/09/Macieiras-em-flor.jpg 520w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/09/Macieiras-em-flor-300x200.jpg 300w" sizes="(max-width: 520px) 100vw, 520px" /><figcaption class="wp-element-caption">Macieiras em flor</figcaption></figure></div></div></div>



<p></p>
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		<title>TERRAS DO DEMO, A TERRA E A GENTE</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Alberto Correia]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 24 Aug 2025 23:06:53 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Lifestyle & Gadgets]]></category>
		<category><![CDATA[SOCIEDADE]]></category>
		<category><![CDATA[UM CRONISTA DE PROVÍNCIA]]></category>
		<category><![CDATA[Aquilino Ribeiro]]></category>
		<category><![CDATA[ler livros]]></category>
		<category><![CDATA[literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Terras do Demo]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A inultrapassável descrição das terras do demo de Aquilino Ribeiro. </p>
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										<content:encoded><![CDATA[<div class="wp-block-image">
<figure class="alignright size-medium is-resized"><img decoding="async" width="85" height="300" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/08/terras-do-demo-85x300.png" alt="" class="wp-image-43744" style="width:132px;height:auto" srcset="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/08/terras-do-demo-85x300.png 85w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/08/terras-do-demo.png 165w" sizes="(max-width: 85px) 100vw, 85px" /></figure></div>


<p>O autor das <em>Terras do Demo</em> não precisou da mágica caixa do fotógrafo para olhar. Antes quis ver através dos seus olhos. E não lhe foi preciso montar cenário. Que ao longe, desenhando um mágico cenário, ficavam as <em>aldeias montesinhas que moram nos picotos da Beira, olham a Estrela, o Caramulo, a cernelha do Douro e, a norte, lhes parece gamela emborcada o monte Marão</em>.</p>



<p>Esta a inultrapassável descrição da terra, dessa terra que nós hoje chamamos Terras do Demo. E a gente que habita essa terra descreve-no-la Aquilino através da sublime metáfora da “pedra de lameira” que, ao levantar-se, deixa ver <em>aos nossos olhos toda uma fauna prodigiosamente multicor, alvoroçada com o desmancho da sua casa de par com a luz do dia. </em>Homens e mulheres travestidos de bichos de cujas caraterísticas faz préstimo para recompor o carácter daqueles. E quando o Mestre descreve a aldeia serrana, a que lhe serviu de berço, idêntica a todas as outras, e a nomeia de <em>barulhenta, valerosa, suja, sensual, avara, honrada, com todos os sentimentos e instintos que constituíam o empedrado da comuna antiga</em>, mais não faz do que caracterizar a psicologia do serrano que nela é morador desde o longínquo tempo das orcas ou do mais vizinho tempo do Rei Vamba. E eles, os serranos, reconhecem-se no retrato.</p>



<p>Aquilino não demarcou uma linha de fronteira a esse território que apelidou “Terras do Demo”, essa espécie de pátria perdida no tempo, onde<em> nunca Cristo ali rompeu as sandálias, passou el-rei a caçar, ou os apóstolos da Igualdade em propaganda. Bárbaras e agrestes, mercê apenas do seu individualismo se têm mantido, sem perdas nem danos, à margem da civilização</em>.</p>



<p>Da aldeia do seu tempo Aquilino desvela-nos o casario enovelado à volta da igreja, deixando a deslado o cemitério, esse outro lugar santo, demarca o lugar da fonte de chafurdo e da ribeira, o forno, a taberna, a sala de aula na casa da professora. Leva-nos depois à orla da aldeia para nos mostrar os agros, primeiro os hortejos onde se colhe a couve das berças, o nabo, a réstia de cebolas ou dos alhos, mais longe os magros campos de centeal, ainda além os maninhos da serra onde pastam os gados, se colhe a lenha da lareira e se rouba o “cepo” de um castanheiro antigo para a fogueira da Noite Boa. Deixa depois ver ao longe os mais longos caminhos, cruzes de homem morto aqui e além e piedosas Alminhas pontuando caminhos de feira, de romaria, caminhos de Malhadinhas, caminhos de oveiras e doceiras, ínvios caminhos para as mulheres que subiam do vale com as cestas cheias de laranjas no mês de Abril. Tardava ainda a estrada e o passar da camioneta.</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="alignright size-medium is-resized"><img decoding="async" width="128" height="300" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/08/terras-do-alto-paiva-2-128x300.png" alt="" class="wp-image-43746" style="width:145px;height:auto" srcset="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/08/terras-do-alto-paiva-2-128x300.png 128w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/08/terras-do-alto-paiva-2.png 243w" sizes="(max-width: 128px) 100vw, 128px" /></figure></div>


<p>De tempos-a-tempos Aquilino desce ao vale. Já vinha com o pai em criança, era Amadeu, o seu alter-ego, vinham ao Amparo, a fidalga quinta do padrinho. Rapaz feito, Libório Barradas de nome inventado, desce a Santa Maria das Águias, à recatada quinta dos fidalgos Malafaias, não longe do rio Távora, já descendo para o Douro. Percorre as cercas desertas e as arruinadas moradas dos Frades de São Francisco, das Recolhidas de Freixinho e das pobres monjas do Mosteiro de Nossa Senhora da Assunção, na Tabosa. Mas ali, entre o Norte e o Nascente, terras fundas, de boas águas, de fáceis lavras, já crescia a vinha, vicejavam fruteiras, eram largos e transitáveis os caminhos. Dir-se-ia que ali era chão de paraíso.</p>



<p>De Sul a Poente ficava Barrelas com o arvoredo da feira, o Malhadinhas que ali se finou já velhinho, o rio Paiva com os campos regados, os poços truteiros, os moinhos e pisões. E subindo a deslado, para as bandas do Baixo Douro, as largas e místicas tapadas de Adomingueiros onde a gente do Touro cultivava o pão e apascentava as vacas.</p>



<p>“Terras do Alto Paiva” lhes chamou Fonseca da Gama, como se este fosse outro condado. E é ele quem lhes desenha em livro o retrato que Aquilino, companheiro de caça e amigo, lhe autentica com autorizado prefácio.</p>



<p>Retornando ao cerne das aldeias montesinhas, a serra-madre alargava-se, estendida entre o Norte e o Poente. Por alguns caminhos Aquilino ainda fez travessia. Serra de Leomil, ou Nave, tanto faz. Dela escrevia já António de Sèves, romântico e poeta, quando as Terras do Demo se geravam ainda na pena de Aquilino. Gertrudes da Silva, num tempo já moderno, reconstrói, ao jeito de emocional memória cativa da aldeia onde nasceu, Alvite, uma metonímica imagem de toda a serra. E Jaime Gouveia, erudito perscrutador da história da sua terra, Leomil, deixará nas densas páginas da sua obra toda a força do magma de que é feita a serra que gosta de chamar serra de Leomil.</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="alignright size-medium is-resized"><img loading="lazy" decoding="async" width="106" height="300" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/08/aboboras-no-telhado-aquilino-ribeiro-livros-usados-2-106x300.jpg" alt="" class="wp-image-43749" style="width:158px;height:auto" srcset="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/08/aboboras-no-telhado-aquilino-ribeiro-livros-usados-2-106x300.jpg 106w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/08/aboboras-no-telhado-aquilino-ribeiro-livros-usados-2.jpg 242w" sizes="auto, (max-width: 106px) 100vw, 106px" /></figure></div>


<p>A propósito das suas Terras do Demo Aquilino Ribeiro escreverá, um dia, talvez com manifesto orgulho, que <em>o melhor galardão que o meu livro teve foi que desse o nome à corda de povos romanceados. Não só para as demais terras do Distrito, mas para as de longe, aqueles lugares, incrustados na serra da Nave, passaram a ser as terras do Demo</em>.</p>



<p>Terras do Demo, alargado hoje o velho conceito da imprecisa demarcação geográfica que as reduzia aos alcantis da Beira, verdadeiramente às elevadas planuras da Lapa e da Nave, a essa agora abrangente geografia contida pela mais alargada linha de fronteira político-administrativa dos três municípios, Moimenta da Beira, Sernancelhe e Vila Nova de Paiva.</p>



<p>E este será o tempo novo sonhado por Aquilino. Ganho o direito da cidadania plena, a serra tanto quanto o vale, lá onde o pão e o vinho, a matricial díade do sustento, se iguala ao do chão dessa pátria maior a que ganharam direito de idêntica pertença.</p>



<p>O casario da aldeia já não se enrosca, inteiro, à volta da matriz, não há luz de candeia, desapareceram os centeais das courelas, os folharecos de couve das hortas marginais, as leituras ao serão pela cartilha. Crescem, agora, nas encostas, os vinhedos; florescem, em Abril, os pomares de macieiras; no Outono, mantêm-se como andores de festa os castanheiros, no remanso dos vales o sol aquece as oliveiras, o gado ganhou novo redil, os rochedos que abrigavam as mourinhas valem ouro. A festa continua na Páscoa, no Natal e no dia do orago da freguesia. Continua, alegre, a romaria. E inventam-se outras festas: das Sopas, da Castanha, da Maçã, das Trutas, do Fumeiro. E celebra-se a alegria enchendo taças com espumante “Terras do Demo”. Mesmo que tanta promessa ainda haja para cumprir. Nas Terras do Demo!&#8230;</p>
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		<title>A FRAGA DA FONTE SANTA EM PERAVELHA</title>
		<link>https://duaslinhas.pt/2024/10/a-fraga-da-fonte-santa-em-peravelha/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Alberto Correia]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 31 Oct 2024 00:05:05 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Lifestyle & Gadgets]]></category>
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		<category><![CDATA[UM CRONISTA DE PROVÍNCIA]]></category>
		<category><![CDATA[Penedo da Fonte Santa]]></category>
		<category><![CDATA[Peravelha]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Alturas da Nave, planuras com nome de serra, onde quase só o vento reina sobre uma solidão imensa de fraguedo, entremeada de giestal e de outra flora bravia e de ervagens crescendo em corgos, que os pastores de alguns perdidos povoados conhecem desde o Neolítico!&#8230; Lobos uivando sobre a brancura solene de nevões antigos amedrontando [&#8230;]</p>
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<p>Alturas da Nave, planuras com nome de serra, onde quase só o vento reina sobre uma solidão imensa de fraguedo, entremeada de giestal e de outra flora bravia e de ervagens crescendo em corgos, que os pastores de alguns perdidos povoados conhecem desde o Neolítico!&#8230;</p>



<p>Lobos uivando sobre a brancura solene de nevões antigos amedrontando os homens que se guiavam por cruzes nos caminhos velhos, Malhadinhas, Frei Joaquim das Sete Dores e alvitanos valentes, que eu vi, na minha aldeia, carregarem no dorso de burricos corpanzis de feras de que a montanha ficava liberta e mais pobre!&#8230;</p>



<p>Nos termos de Peravelha vê-se, à distância, luzeiro que foi de caminhantes da Lapa e Santiago, uma fraga de desmedido tamanho, o Penedo da Fonte Santa, como lhe chamam também. Jeito de monstruosa cabeça de gigante, que ali tivesse sido degolado antes que o mundo dos homens existisse, vento e geada a corroer-lhe a dureza das carnes tal qual como as águias que ferem, lá longe, o corpo agrilhoado de Prometeu, de quem terá sido irmão, porventura.</p>



<p>De um céu antigo desceu este gigante, isso crêem, desde sempre, camponeses e pastores que andaram e ainda andam por ali.</p>



<p>Foi ali à volta, em clareiras de um chão aplanado, que levantaram as moradas dos seus mortos, os dólmenes de valente lajedo, onde dormem ainda, como se fosse madrugada de um tempo original, esses que foram “Avós de nossos Avós”, assim dito na sábia fala de Aquilino.</p>



<p>Na face do fraguedo voltada a Ocidente, talvez que fosse essa o rosto do gigante, descem, mal se atravessa o solstício de Verão, lágrimas de água e a gente das aldeias que ficam ao redor subia lá, molhava as mãos e curava com este gesto de milagre as maleitas de que não sabia nome, feridas de bicho ou de facada e maus-olhados.</p>



<p>E chamaram Fonte Santa ao místico rego de água que descia, na quentura do Verão, da face ainda sofrida do gigante.</p>



<p>Alguém mandou erguer, no alto e a deslado, talvez como ex-voto, uma capela. Tão só para marcar que tal lugar era sagrado.</p>



<p>Manhã de Páscoa, soalheira, subi a Peravelha. Subi até à base da tal Fraga da Fonte Santa que ali pousa, luzeiro sobre mundos antigos de um tempo em que o homem não se estabelecera ainda como rei.</p>



<p>Nem vento, nessa hora da fresquidão de uma manhã de céu azul sem qualquer mancha. Bebendo a luz do sol a flor ainda com viço das mimosas e a flor nova das giestas.</p>



<p>Voltarei no Verão, quando se soltam do rochedo as gotas de água, milagrosas.</p>



<p>Para outra vez lavar meus olhos.</p>
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