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	<title>Arquivo de ser médico - Duas Linhas</title>
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	<title>Arquivo de ser médico - Duas Linhas</title>
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		<title>A &#8220;ESMOLA&#8221; DE TER MÉDICO</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vítor Martins]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 22 Oct 2025 23:00:26 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Economia e Empresas]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>não nos façam sentir devedores eternamente agradecidos, com a prestação dos serviços de saúde</p>
<p>O conteúdo <a href="https://duaslinhas.pt/2025/10/a-esmola-de-ter-medico/">A &#8220;ESMOLA&#8221; DE TER MÉDICO</a> aparece primeiro em <a href="https://duaslinhas.pt">Duas Linhas</a>.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Um bastonário da ordem dos médicos afirmou que os jovens médicos não deviam, financeiramente, nada ao país… (li esta afirmação). Cheguei a pensar que seria uma notícia falsa por tão absurda que é a afirmação, mas não&#8230; </p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-full is-resized"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="1020" height="127" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/10/bastonario.png" alt="" class="wp-image-44992" style="width:1020px;height:auto" srcset="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/10/bastonario.png 1020w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/10/bastonario-300x37.png 300w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/10/bastonario-768x96.png 768w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/10/bastonario-696x87.png 696w" sizes="(max-width: 1020px) 100vw, 1020px" /><figcaption class="wp-element-caption">fonte Jornal de Notícias em 7 de dezembro 2019&nbsp;<a href="https://www.jn.pt/nacional/artigo/bastonario-da-ordem-contra-ideia-de-obrigar-jovens-medicos-a-ficar-no-sns-/11594387">Bastonário da Ordem contra ideia de obrigar jovens médicos a ficar no SNS &#8211; JN</a></figcaption></figure></div>

<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-full is-resized"><img decoding="async" width="789" height="140" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/10/bastonario-2.png" alt="" class="wp-image-44994" style="width:789px;height:auto" srcset="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/10/bastonario-2.png 789w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/10/bastonario-2-300x53.png 300w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/10/bastonario-2-768x136.png 768w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/10/bastonario-2-696x123.png 696w" sizes="(max-width: 789px) 100vw, 789px" /><figcaption class="wp-element-caption">fonte RTP em 20 de janeiro de 2011, <a href="https://www.rtp.pt/noticias/saude/obrigatoriedade-de-jovens-medicos-permanecerem-no-sns-faz-pouco-sentido-novo-bastonario_n408846">Obrigatoriedade de jovens médicos permanecerem no SNS faz &#8220;pouco sentido&#8221; &#8211; novo bastonário</a></figcaption></figure></div>


<p>Já se afirmou que o <strong><a href="https://duaslinhas.pt/2025/04/pela-nossa-rica-saude/">número de médicos</a></strong> é suficiente, <strong><a href="https://duaslinhas.pt/2024/02/pagamos-e-nao-temos/">já foi dito o contrário</a></strong>… Razão de que lado? Vamos fazer um raciocínio linear: numa consulta, “rotina”, qual é o seu tempo de duração? Não está definido. Penso que administrativamente está. Conscientemente, deveria ser de 20 a 25 minutos, porque a “leitura”, por parte do médico, das análises mandadas fazer, por necessárias (está em causa a saúde do contribuinte que deve continuar a sê-lo e assim garantir o sistema), seguindo-se a revisão da medicação… penso que este tempo é mínimo e, &nbsp;se calhar, não chega. Falamos de rotina, não de consulta que se pretende consciente, quando o caso, infelizmente, não é rotineiro. Este “meu tempo”, atribuído por mim, não é correcto de forma nenhuma. O médico, em seis horas de trabalho, não consegue, honestamente, ver mais que 10 contribuintes e possui cerca de 1800 contribuintes ao seu cuidado. Que contabilidade faremos, em modo de “gasto de tempo”, para consultar todos os utentes? Claro que não são todos consultados, uns atrás dos outros. O que queremos demonstrar com esta “contabilidade”? Dizer que os tempos atribuídos a um médico, média, é uma “forma de pressão”, financeira, e tem tudo a ver com os “tais gastos” na saúde. A saúde não tem gastos. A saúde é um bem necessário, e os tais “gastos” são a normal despesa que temos, para garantir que o contribuinte continua a “financiar” o sistema de saúde, com a sua saúde.</p>



<p>Encurtar tempos de consulta só porque é dispendioso… Serve quem? Se está em causa o bem estar do cidadão que garante o financiamento do SNS? Quem tem o direito de se meter no “meio”, contribuinte e prestador de serviço, pago pelo próprio contribuinte, para retirar o direito que cabe ao utente? Quem quer manobrar o financiamento? Criou-se uma classe de chantagistas? Claro que esta palavra e actuação é o que nunca designará um prestador de serviço em saúde de formação nacional, e neste país. Então, temos que actuar sobre o que se passa na saúde em termos de: estruturas, prestadores de serviços, monopólios e eventualmente… quem sabe, cartelizações. Eu pago, para a saúde, demasiado da, e na, “minha vida”, para que me façam sentir, ainda, devedor e eternamente agradecido, com a prestação dos serviços. Não se atrevam, nunca, e sequer, a dar-me por esmola o que me cabe por justiça!</p>



<p>Dentro de um qualquer departamento ligado à saúde, centro de saúde ou hospital, não devem existir condados, reinos. São os prestadores do serviço de saúde, homens e mulheres, a quem o contribuinte respeita e espera profissionalmente e humanamente um excelente desempenho, quem nos ajuda a ter melhor qualidade de vida. A nossa homenagem a esses que fizeram no juramento de Hipócrates um modo de vida social e profissional.</p>



<p>(para ler a <strong><a href="https://duaslinhas.pt/2025/10/o-ensino-uma-atitude-solidaria-dos-povos/">1ªparte deste artigo</a></strong>)</p>
<p>O conteúdo <a href="https://duaslinhas.pt/2025/10/a-esmola-de-ter-medico/">A &#8220;ESMOLA&#8221; DE TER MÉDICO</a> aparece primeiro em <a href="https://duaslinhas.pt">Duas Linhas</a>.</p>
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		<title>O ENSINO, UMA ATITUDE SOLIDÁRIA DOS POVOS</title>
		<link>https://duaslinhas.pt/2025/10/o-ensino-uma-atitude-solidaria-dos-povos/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Vítor Martins]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 21 Oct 2025 23:00:21 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>incorrecto é não se terem criado oportunidades para todos</p>
<p>O conteúdo <a href="https://duaslinhas.pt/2025/10/o-ensino-uma-atitude-solidaria-dos-povos/">O ENSINO, UMA ATITUDE SOLIDÁRIA DOS POVOS</a> aparece primeiro em <a href="https://duaslinhas.pt">Duas Linhas</a>.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>O ensino é fundamental para um povo. No caso do nosso país e na base da sua implementação, está uma atitude solidária por parte de todos os cidadãos, no que diz respeito ao seu suporte financeiro e, com esse acto, a transmissão de valores intrínsecos de cidadania.&nbsp;Pretende-se, com a formação das novas gerações, que renovam um país, que esta seja a base de cidadãos conscientes, na sociedade e no mundo, a base do desenvolvimento económico da nossa sociedade e da sua construção na forma mais justa, criando as mesmas oportunidades para todos e ser sempre democrática. Assim, o ensino deve proporcionar o conhecimento e as competências necessárias para o progresso individual e colectivo, eliminando, dentro do possível, desigualdades ao longo da vida, fortalecendo a democracia e promovendo a inovação e a riqueza, económica e cultural do país.</p>



<p>Fica, a todos os cidadãos contribuintes, esta comparticipação no ensino e formação dos nossos jovens ao longo da sua vida, dispendiosa em termos de&nbsp; “numerário”, mas “o sacrifício” é fundamental para que a sociedade possa e deva progredir, e assim “reaver” o que investiu nas novas gerações, pois são elas a chave do desenvolvimento social e financeiro do país. Esta atitude solidária por parte de todos tem sempre um retorno futuro, no trabalho desenvolvido pelas gerações sucessivas.</p>



<p>Para se ter uma ideia do que se “despende” no ensino, tomemos como exemplo o curso que mais recursos financeiros requer para os contribuintes: o Estado (cidadãos) dá um apoio significativo ao ensino da Medicina nas faculdades públicas, cobrindo o custo real do curso, que é muitíssimo superior às propinas que os estudantes pagam.&nbsp;O montante exacto varia conforme a faculdade, o orçamento e os custos específicos, mas estima-se que a formação de um médico possa orçar em cerca de 100 mil euros ao longo de seis anos.&nbsp;</p>



<p>As faculdades públicas são financiadas pelo Orçamento do Estado (OE), que cobre a maior parte dos custos de formação, vencimentos de pessoal administrativo, docente e infraestruturas.</p>



<p>Os alunos pagam propinas, mas este valor é simbólico em comparação com o custo total da formação. Para o ano lectivo de 2025-2026, o valor máximo das propinas para os mestrados integrados é de 697 euros anuais, montante que serve como exemplo do encargo do aluno.</p>



<p>O discente paga propinas anuais que variam, mas o valor total com que o Estado contribui, ou seja, o que custa ao contribuinte, está mais perto dos 16 mil euros por ano do que do valor da propina, claro, pago pelo aluno, diremos até que é simbólico.&nbsp;</p>



<p>O custo por ano de formação para uma faculdade privada pode ser mais elevado, ultrapassando os 17 mil euros por ano, mas as universidades privadas também não cobrem 100% dos seus custos, e a diferença é, muitas vezes, subsidiada por fundações, como no caso da Universidade Católica Portuguesa.&nbsp;</p>



<p>O <strong><a href="https://duaslinhas.pt/2025/07/a-medicina-paga-pelos-contribuintes-para-servir-o-privado/">curso de Medicina</a></strong> é mais caro que outros, o Estado (todos os contribuintes) paga essa formação&#8230; Nas faculdades públicas, o Estado tenta compensar valores para a formação anual, com verba do Orçamento do Estado e dá às faculdades cerca de 5000 euros por aluno/ano. O restante valor (mais de seis mil euros) tem de ser coberto com receitas próprias das universidades, que o fazem com muita dificuldade e muita “imaginação”.</p>



<p>Tomemos agora como exemplo o que alguns países “fazem pelo ensino da Medicina”.</p>



<p>Na América, o ensino da Medicina não é “gratuito”, como o temos cá. O aluno tem que recorrer a empréstimos bancários, bolsas de estudo, etc. O curso pode orçar os 280 000 dólares, acrescentando ainda as propinas a pagar pelo estudante.</p>



<p>Na Inglaterra, o ensino da Medicina não é gratuito. O custo anual, por estudante, orça as 15 000 libras anuais. O aluno tem que recorrer a várias alternativas para obter dinheiro a fim de custear o curso.</p>



<p>Na Suíça, Luxemburgo, Itália… o ensino da Medicina também não é gratuito, o que obriga o estudante a obter financiamentos, como na América e na Inglaterra.</p>



<p>É, então, lógico que esses países aliciem os nossos jovens, com vencimentos razoáveis para um início de carreira, porque não gastaram rigorosamente um cêntimo que seja, do “fundo solidário” que o nosso país despendeu para a formação destes jovens e que nos são absolutamente necessários…&nbsp;</p>



<p>Moralmente, um jovem licenciado em Medicina deve sentir que, durante quatro ou cinco anos, o seu servir profissional deve ser no país que lhe pagou a maior “fatia” dos seus estudos? Aqui, a consciência deste facto é soberana para uma decisão.</p>



<p>Um pai em, por exemplo, Barcal ou Valverde da Gestosa, perto de Mirandela, que viva de um vencimento suportado na agricultura, ou outro <em>métier</em>… como lhe é possível colocar um filho a estudar Medicina? Não tem direito? Mas paga, com os seus impostos, o ensino dos filhos dos outros. É assim que funciona o nosso “fundo solidário”. Terá que ser sempre assim. Qual a diferença de votantes… entre o Barcal e Lisboa? Pois é, o que está incorrecto é não se terem criado oportunidades, neste país, para todos. País que não é tão grande assim. A dimensão da capacidade “mental” dos que sucessivamente tomam assento <strong><a href="https://duaslinhas.pt/2025/07/pas-nao-sabe-como-resolver-a-crise-na-saude/">nos governos</a></strong> é que tem vindo a diminuir em termos de competências.</p>



<p><strong><a href="https://duaslinhas.pt/2025/10/a-esmola-de-ter-medico/">(continua)</a></strong></p>
<p>O conteúdo <a href="https://duaslinhas.pt/2025/10/o-ensino-uma-atitude-solidaria-dos-povos/">O ENSINO, UMA ATITUDE SOLIDÁRIA DOS POVOS</a> aparece primeiro em <a href="https://duaslinhas.pt">Duas Linhas</a>.</p>
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		<title>A eutanásia, aqui e agora?</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Cândido Ferreira]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 01 Feb 2021 14:23:02 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[O ESTADO da ARTE]]></category>
		<category><![CDATA[Política]]></category>
		<category><![CDATA[Saúde]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Chumbada a eutanásia em 2019, após transviada polémica, defendi então que era “deprimente a realidade portuguesa ao enfrentar questões ditas fraturantes”. E, recordando o aborto e o casamento entre pessoas do mesmo sexo, afirmei até que “o obscurantismo sempre recorria a falácias para chumbar as posições mais desenvoltas, que só eram aprovadas em segunda chamada”. [&#8230;]</p>
<p>O conteúdo <a href="https://duaslinhas.pt/2021/02/a-eutanasia-aqui-e-agora/">A eutanásia, aqui e agora?</a> aparece primeiro em <a href="https://duaslinhas.pt">Duas Linhas</a>.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Chumbada a eutanásia em 2019, após transviada polémica, defendi então que era “deprimente a realidade portuguesa ao enfrentar questões ditas fraturantes”. E, recordando o aborto e o casamento entre pessoas do mesmo sexo, afirmei até que “o obscurantismo sempre recorria a falácias para chumbar as posições mais desenvoltas, que só eram aprovadas em segunda chamada”.</p>



<p>“Livre de espartilhos de natureza religiosa ou política”, soltei então o debate com uma “evidência”: “se é certo que ninguém nos ouve no ato em que nascemos, também o integral reconhecimento do direito à vida pressupõe que qualquer ser humano possa presidir à sua própria morte. Se o próprio, em plena consciência dos seus atos, deseja morrer, com que base racional ou moral a sociedade o pode impedir”?</p>



<p>E era somente quando um ser humano queria “desaparecer e já não podia”, que eu aceitava a eutanásia. E até acrescentei que “os demais casos não fazem parte do lote e cada um tenha a coragem de assistir à sua própria morte, pois não compete à Medicina suicidar gente cobarde”.</p>



<p>Fora de teatros de guerra, eu nunca seria capaz de “executar” ninguém. No entanto, embora recusando praticar a eutanásia, não nego esse direito a quem, porventura mais corajoso do que eu, aceite exercer esse ancestral ato de misericórdia.</p>



<p>E como podia sair deste registo se, no cristão Portugal em que nasci em meados do século passado, e depois de ministrada a extrema-unção, ainda se apelava ao “abafador”, uma figura hoje sinistra, mas, que perante a bênção divina, era chamada a sufocar a agonia dos moribundos?</p>



<p>E apenas manifestei uma limitação de ordem ética: que tais atos não fossem remunerados. Rejeitava então, como ainda rejeito, a exploração de “clínicas da morte”.</p>



<p>A lei entretanto aprovada é muito mais “generalista”, mas ainda assim convida a repetir uma história verdadeira:</p>



<p>Um dia, o P, um dos amigos mais lúcidos e corajosos que tive a felicidade de conhecer, pediu-me que intercedesse junto do seu cirurgião para, em tudo ou nada, lhe extirparem as metástases de um tumor maligno. Operação que foi recusada, sob o argumento de que as boas práticas da especialidade já nada aconselhavam.</p>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-flow wp-block-group-is-layout-flow">
<p>Sem esconder a revolta por não morrer em combate, o P faleceu três meses depois. Nos últimos dias, retido no leito em que o recolheram, já não vivia e apenas assistia, impotente, aos cuidados com que iam protelando um beijo da morte inglório, miserável e cruel.&nbsp;Evitei visitá-lo então, por bem saber o doloroso pedido que me faria:</p>
</div></div>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-flow wp-block-group-is-layout-flow">
<p><strong>– Amigo! Dá-me qualquer coisa e acaba com este sofrimento.</strong></p>
</div></div>



<p>Ainda discuti essa inquietação com um colega de juventude que, comigo e com o P, integrava uma “tertúlia de intelectuais” no nosso velho bairro. Igualmente médico, mas mais conservador, dúvidas não lhe restavam de que todos os procedimentos haviam sido cumpridos e que qualquer cirurgia iria contra as regras.&nbsp;</p>



<p>Contudo, nem sempre um médico tem de fazer tudo certinho, como vem nos livros. Sinceramente, ainda hoje não sei se não teria sido mais “humano” arriscar uma intervenção talvez inútil, mas que a determinação do P exigia. E quem pode assegurar que não teria sobrevivido mais tempo e de pé, naquele derradeiro combate da sua vida?</p>



<p>Também na diálise, ao cuidar de centenas de doentes em vida vegetativa, muitas famílias me solicitaram a suspensão de tratamentos que só estavam a protelar mortes inevitáveis. Posso afirmar que nunca tais pedidos, se passados a escrito, esbarraram com a mínima objeção ou mesmo comentários negativos por parte das centenas de excelentes profissionais que comigo colaboraram.</p>



<p>A aprovação da eutanásia ficou em suspenso, desde 2019, devido ao estridor de “petardos” cruzados: numa trincheira, as autoapregoadas “forças do progresso”, peritas em radicalizar discursos e assim ocupar espaço; na outra, o embuste conservador, igualmente interessado em arrastar polémicas que possam concitar atenções e votos.</p>



<p>E desta “querela” entre gente extremada, e que nunca olhará a meios para atingir fins, o que ainda transparece numa opinião pública desinformada? Que, com o beneplácito dos políticos e até para reduzir despesas, a missão dos médicos balança entre salvar vidas ou andar pelos lares a pôr fim aos mais trôpegos.&nbsp;</p>



<p>Não vamos perder mais tempo com questões quase pacíficas dentro da comunidade médica e que nem merecem discussão. Mas não deixa de ser macabro que o agendamento e a aprovação da eutanásia tenham ocorrido diante de uma catástrofe. &nbsp;&nbsp;</p>



<p>E depois, com mensagens destas, ainda há quem se queixe das sondagens…</p>
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