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	<title>Arquivo de olaria - Duas Linhas</title>
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	<title>Arquivo de olaria - Duas Linhas</title>
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		<title>OS “BONECOS” DE BARCELOS</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Alberto Correia]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 19 Jan 2026 12:00:55 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Era ainda criança, seis anos talvez, quase ao findar a década de 40 do século XX, a vendedeira de “bonecos”, que de Barcelos descera à Beira Alta, batia, uma vez mais, à porta de minha mãe, na Sarzeda, junto a Sernancelhe. Trazia louça vidrada, alguidares enramados que eu ainda conheci, pucarinhos onde se amornava o [&#8230;]</p>
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<p>Era ainda criança, seis anos talvez, quase ao findar a década de 40 do século XX, a vendedeira de “bonecos”, que de Barcelos descera à Beira Alta, batia, uma vez mais, à porta de minha mãe, na Sarzeda, junto a Sernancelhe. Trazia louça vidrada, alguidares enramados que eu ainda conheci, pucarinhos onde se amornava o vinho nas noites de frio e as maneirinhas panelas onde minha mãe guardava o mel e a manteiga do porco.</p>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<p>Não me lembro do nome da vendedeira, que meus pais hospedavam, à maneira das casas de lavradores: duas mantas, a quentura de um caldo, larga fatia de pão e a talhada da boa carne de porco de então, o pucarinho de vinho. E, quando a vendedeira no dia seguinte partiu, estava eu na quintã da casa de meus pais, fez-me promessa de me trazer um “assobio” quando ali voltasse, daí a um ano, que isso já eu sabia. E voltou.</p>



<p>Voltou outra vez a vendedeira. E trouxe consigo o “assobio” que me prometeu, que disso me lembro, um “galo” pequenino com pintura a cores que daí a pouco assobiava pelas ruas da aldeia.</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-full"><img decoding="async" src="https://i.imgur.com/3E1NkWZ.png" alt="" class="wp-image-46700"/><figcaption class="wp-element-caption">galo de assobiar</figcaption></figure></div>


<p>Já não recordo o fim que dei ao “assobio”, o fim desse miúdo galo que, porventura, se partiu. Mas veio daí a minha paixão pelos bonecos de Barcelos, desses mais ingénuos, as figurinhas de Presépio que comecei por conhecer nos presépios que as mordomas construíam na igreja da minha aldeia.</p>
</div></div>



<p>Que, nesse tempo, eu mal me importaria com a sua história, a das figurinhas, essa recreação que os oleiros de Barcelos, das suas aldeias ao redor, construíam quase a brincar, enquanto no forno ardia a fornada das talhas avantajadas, das púcaras, dos pucarinhos, dos escoadores, das assadeiras vidradas.</p>



<p>Que assim nasceram, já mal alguém sabe contar, vão mais de cem anos, as figurinhas pintadas que as mulheres vendiam em tendas de festa ou de feira ou em solitários passos, porta-a-porta nas aldeias.</p>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<p>Não armei, este ano, o meu presépio de Barcelos de figurinhas já bem antigas, não o armei, como antigamente, Maria e José abrigados sob a cabana de um pastor, o Menino Jesus na manjedoura tecida de palhas cortadas à tesoura, pastores descendo a encosta com cordeirinhos aos ombros, as suas mulheres saindo da aldeia com cestinhas carregadas de queijinhos corados, de figos, de nozes, bilha de leite na mão, enquanto outras se atarefavam na ida à fonte do lugar ou nos preparos da ceia. Camponeses regressados de lavouras de inverno atravessavam, conversando, a pontezinha levantada sobre uma ribeira de prata seguindo o velho caminho de areia branca. Ainda longe, avistavam-se os Reis Magos, que já vinham a pé, os criados trazendo camelos pela rédea, onde, em cofrezinhos pintados, vinham os presentes do Menino. E havia uma estrela dourada presa no cimo de um pinheiro com seus raios a fingir. E havia um anjo que parecia suspenso no ar.</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-full"><img decoding="async" src="https://i.imgur.com/2NPIo98.jpeg" alt="" class="wp-image-46702"/></figure></div>


<p>Todos os anos me lembro, ao vir o mês de Setembro e a Feira de S. Mateus, em Viseu, do meu presépio guardado numa caixa de cartão. Como este ano aconteceu.</p>
</div></div>



<p>Corri as tendas armadas dos louceiros de Barcelos nessa ala que se estendia por largos passos. Lembrei-me da mulher que me ofereceu o assobio, ao ver os pequeninos galos que ainda são iguais ao meu. Ali estavam, à espera de poeta ou comprador, os galos de assobiar, a Virgem Maria com seu manto de azul já debotado, S. José com a sua velha bengala, Reis Magos a pé ou montados a cavalo, pastores, as mulheres dos pastores, muitos cordeiros, camponeses de machado ou enxada ao ombro, as pontezinhas, casas de aldeia, as fontes, as estrelas, os anjos que por toda a noite haveriam de cantar.</p>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<p>Lembrei-me dos louceiros antigos, do seu jeito de lavrar o barro a que tanta vez assisti, desse milagre das suas mãos que eles copiaram dos muito antigos gestos de Javé.</p>



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</div>



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</div>
</div>



<p>Lembrei-me dos novos louceiros, da mestria dos seus gestos, agora, em Barcelos e eu os louvo por não terem abandonado o velho figurado e eu os louvo por essas sublimes criações de um tempo novo.</p>
</div></div>
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		<title>A LOUÇA NEGRA DE MOLELOS</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Alberto Correia]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 15 Apr 2025 06:45:03 +0000</pubDate>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Estamos hoje de volta a Molelos, do concelho beiraltino de Tondela, para celebrar a louça negra com muitos mil anos de história, agora inscrita no Inventário de Património Cultural Imaterial, conforme publicação no <em>Diário da República</em> do dia dois de Abril do presente ano.</p>



<p>Privilégio da autarquia que, em 2024, já havia inscrito no Registo Nacional de Produções Artesanais Tradicionais Certificadas esta indústria artesal – o barro preto – que uma comunidade de sete oleiros mantém viva, nesse tão antigo foco de produção situado no Vale de Besteiros.</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-large is-resized"><img decoding="async" width="1024" height="700" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/04/loica-negra-de-molelos-2-1024x700.jpg" alt="" class="wp-image-41070" style="width:652px;height:auto" srcset="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/04/loica-negra-de-molelos-2-1024x700.jpg 1024w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/04/loica-negra-de-molelos-2-300x205.jpg 300w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/04/loica-negra-de-molelos-2-768x525.jpg 768w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/04/loica-negra-de-molelos-2-1536x1050.jpg 1536w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/04/loica-negra-de-molelos-2-218x150.jpg 218w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/04/loica-negra-de-molelos-2-696x476.jpg 696w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/04/loica-negra-de-molelos-2-1392x951.jpg 1392w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/04/loica-negra-de-molelos-2-1068x730.jpg 1068w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/04/loica-negra-de-molelos-2-1320x902.jpg 1320w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/04/loica-negra-de-molelos-2.jpg 1580w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></figure></div>


<p>Testemunhos se resguardam, dessa louça, num dos núcleos museológicos da cidade de Viseu, uma urna cinerária proveniente de escavações arqueológicas na antiquíssima necrópole de Paranhos, no território de Molelos. Vivo testemunho da mesma nos traz Manuel Botelho Ribeiro Pereira nos <em>Diálogos Morais e Políticos,</em> que escreve em 1635 e onde se refere à frescura da água servida em pucarinhos de Molelos.</p>



<p>No século XIX, a louça preta de Molelos está presente em exposições nacionais e nunca mais deixou de o estar até hoje, missão que lhe fica agora garantida.</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-large is-resized"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="871" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/04/loica-negra-de-molelos-4-1024x871.jpg" alt="" class="wp-image-41072" style="width:678px;height:auto" srcset="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/04/loica-negra-de-molelos-4-1024x871.jpg 1024w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/04/loica-negra-de-molelos-4-300x255.jpg 300w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/04/loica-negra-de-molelos-4-768x653.jpg 768w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/04/loica-negra-de-molelos-4-696x592.jpg 696w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/04/loica-negra-de-molelos-4-1068x908.jpg 1068w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/04/loica-negra-de-molelos-4.jpg 1270w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></figure></div>


<p>Já é objecto de museu o torno, a roda antiga movida com o pé; já é objecto de museu o tradicional processo de cozedura, a soenga, essa cova arredondada onde a louça acastelada coze ao longo de horas e onde o agasalho de terra e cinza que a cobre ao longo de uma noite dá a cor negra ao barro, uma cor iluminada pelos gases resinosos do lume dos rachões de pinho que ardiam na fogueira.</p>



<p>Já é objecto de museu a ancestral técnica de fazer, o tempo da demora, os pequenos objectos da modelação do barro, o processo de uma ornamentação riscada com desenhos, que esses também lhe desenham a antiguidade; já é objecto de museu o antigo processo de a vender, na olaria, de a transportar, de a vender ou trocar num porta-a-porta por toda a Beira, em tendas de romaria e nas bancas de feira.</p>



<p>Ano a ano se reinventa a antiga maneira de fazer, numa festa que os oleiros organizam pelo Verão.</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-large is-resized"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="774" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/04/loica-negra-de-molelos-3-1024x774.jpg" alt="" class="wp-image-41074" style="width:654px;height:auto" srcset="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/04/loica-negra-de-molelos-3-1024x774.jpg 1024w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/04/loica-negra-de-molelos-3-300x227.jpg 300w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/04/loica-negra-de-molelos-3-768x581.jpg 768w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/04/loica-negra-de-molelos-3-696x526.jpg 696w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/04/loica-negra-de-molelos-3-1392x1053.jpg 1392w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/04/loica-negra-de-molelos-3-1068x808.jpg 1068w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/04/loica-negra-de-molelos-3-1320x998.jpg 1320w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/04/loica-negra-de-molelos-3.jpg 1428w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></figure></div>


<p>Mas, agora, a roda já não é movida com os pés, já não cansa, mas através da energia eléctrica ou dessa outra que activa também o lume da fornalha.</p>



<p>Os novos oleiros ainda sabem fazer as bilhas de segredo, com o seu encanto e o seu mistério, as padelas de assar a guloseima da chanfana, as assadeiras de servir manjares de forno, as bilhas que ainda servem para beber, as bilhas de segredo que servem para brincar, as tigelas de servir a sopa, aos milhares, numa Feira da Castanha, como acontece em Sernancelhe, e as canecas de servir o vinho.</p>



<p>Os novos oleiros criam hoje outros modelos, outras formas de arte, cuja finalidade é antes o deleite ou a doce reinvenção de uma memória. E ainda guardam, vivo, com motivos para adornar, esse místico álbum com desenhos do passado.</p>



<p>Os oleiros de Molelos, hoje, sobem eles próprios à cidade, entram nos museus, fazem exposições. Eles, homens ou mulheres, ambos criadores, corrigindo linhas de um percurso já passado.</p>



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<figure class="aligncenter size-full"><img loading="lazy" decoding="async" width="140" height="210" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/04/bilha-de-segredo.png" alt="" class="wp-image-41075"/><figcaption class="wp-element-caption">bilha de segredo</figcaption></figure></div></div>



<div class="wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow"><div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-full"><img loading="lazy" decoding="async" width="173" height="197" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/04/pucarinho.png" alt="" class="wp-image-41076"/><figcaption class="wp-element-caption">pucarinho</figcaption></figure></div></div>



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<figure class="aligncenter size-full"><img loading="lazy" decoding="async" width="239" height="174" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/04/terrina.png" alt="" class="wp-image-41077"/><figcaption class="wp-element-caption">terrina</figcaption></figure></div></div>
</div>



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<figure class="aligncenter size-full"><img loading="lazy" decoding="async" width="290" height="193" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/04/Roda-de-oleiro.png" alt="" class="wp-image-41078"/><figcaption class="wp-element-caption">roda de oleiro</figcaption></figure></div></div>



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<figure class="aligncenter size-full"><img loading="lazy" decoding="async" width="295" height="193" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/04/Preparacao-da-soenga.png" alt="" class="wp-image-41079"/><figcaption class="wp-element-caption">preparação da soenga</figcaption></figure></div></div>
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