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	<title>Arquivo de ir ao cinema - Duas Linhas</title>
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		<title>OS DESERTOS VERMELHOS</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vasco Gil Mantas]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 28 Aug 2025 23:00:15 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>O tempo passou e deixou marcas e desertos</p>
<p>O conteúdo <a href="https://duaslinhas.pt/2025/08/os-desertos-vermelhos/">OS DESERTOS VERMELHOS</a> aparece primeiro em <a href="https://duaslinhas.pt">Duas Linhas</a>.</p>
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<p>Há filmes que, pessoalmente, ganham em não ser visionados na altura em que surgiram nas salas. Fui, em tempos, um frequentador assíduo de cinemas, prática que fui perdendo à medida que se instalavam as ficções estelares que vieram substituir a cinematografia do velho <em>Peplum</em>, repleto de vilões e heróis mais ou menos míticos e de capitosas donzelas com mais curvas que talento. Os ruidosos trituradores de pipocas também contribuíram para este desgosto, sentido com melancólica aceitação, como aceitei – ou não? – o desaparecimento de tantos outros locais e coisas de memórias recentes e antigas.</p>



<p>Descansai: nesta temporada de fugidia alienação sugerida pelas férias em modo tentado, não vou traçar uma lista de cinemas desaparecidos. Desejo apenas, <em>en passant</em>, recordar o Avis, em Luanda (Ah! Mais uma vez, Angola!…), onde, entre outros, assisti à projecção de um inesquecível <em>Kartum.</em> Este filme, confesso, teve para mim um sabor especial, porque me embalava ainda no sonho imperial que toda a Europa abandonara já, deixando-me o gosto de cinza das epopeias vencidas, epopeias que não eram de todos, afinal.</p>



<p>Mas, com estas recordações de um outro tempo e vivência, afastei-me, sem o desejar, destas <em>Duas Linhas</em>, inspiradas pela solidão estival, quando tudo parece permanecer inalterado à nossa volta, embora saibamos que não é assim e as ausências, multiplicadas, se instalam com todo o seu peso, sem tréguas, sem forma, sem cor, mas reais, tão reais. Continuemos a navegar um pouco à bolina, proa à onda, nesta crónica, apenas guiado pelo farol do tema central que escolhi.</p>



<p>Por acaso, vi há alguns dias – expressão que tem aqui apenas o sentido de medida de tempo, pois foi à noite – um filme que deve ter passado entre nós em 1964 e que, confesso, talvez na altura não me tivesse levado ao cinema. A película em questão foi <em>O Deserto Vermelho</em>, de Antonioni. </p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-full"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="1025" height="544" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/08/deserto-vermelho.png" alt="" class="wp-image-43809" srcset="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/08/deserto-vermelho.png 1025w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/08/deserto-vermelho-300x159.png 300w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/08/deserto-vermelho-768x408.png 768w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/08/deserto-vermelho-696x369.png 696w" sizes="(max-width: 1025px) 100vw, 1025px" /><figcaption class="wp-element-caption">Mónica Viti numa cena do filme <em>O Deserto Vermelho</em>.</figcaption></figure></div>


<p>Este filme conta uma história tão actual, com os seus mistérios, encontros, desencontros, desesperos e fraquezas humanas, sobre um fundo de decadência da civilização industrial, poluidora, insensível, destruidora, um filme quase ecológico, porque humano. A narrativa, protagonizada por Mónica Viti, decorre no cenário deprimente dos subúrbios fabris de Ravena (Fig. 1), outrora centro de outro poder, o do também decadente Império Romano do Ocidente. Mas isto são outras histórias, que talvez fosse bom recordar nestes tempos europeus tão infelizes e incertos. Fica para outra oportunidade.&nbsp; &nbsp;</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="alignright size-full is-resized"><img decoding="async" width="367" height="480" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/08/Fig.-2.jpg" alt="" class="wp-image-43807" style="width:367px;height:auto" srcset="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/08/Fig.-2.jpg 367w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/08/Fig.-2-229x300.jpg 229w" sizes="(max-width: 367px) 100vw, 367px" /><figcaption class="wp-element-caption">o livro de Lartéguy <em>A Cidade Estrangulada</em></figcaption></figure></div>


<p>Não quero assumir a função de crítico cinematográfico, embora reconheça agora leituras que não faria há mais de meio século. A propósito de leituras, ocorre-me que o romance de Jean Lartéguy – quem o lê hoje? – <em>A Cidade Estrangulada</em>, quando o reli há pouco, me causou um sentimento de tristeza, muito diferente do que sentira ao lê-lo em Luanda, pois nessa época ainda não se instalara o deserto da dúvida, um dos muitos <em>desertos vermelhos</em> que apoquentam o homem e a sociedade, sempre sensíveis aos renovados (?) ventos da História, que cultivam desertos e secam vidas. Quem duvidar que veja os noticiários televisivos. E não se iluda!</p>



<p>Talvez a lição última do filme de Antonioni seja a única a observar, neste confuso e não menos vergonhoso século XXI: a de que devemos aceitar a nossa vida como somos, pois não teremos outra. Esqueceremos, assim, o princípio enunciado no título do livro do arqueólogo Gordon Childe, <em>O Homem Faz-se a Si Próprio, </em>cuja leitura nos foi sugerida pelo Prof. Furtado, em Faro, num tempo em que o Algarve era outro? O tempo passou e deixou marcas e desertos. Um deles chama-se Guerra do Ultramar ou Colonial – hoje, nada passa sem uma multiplicidade de sentidos, com a conveniente incerteza e indefinição… – e este deserto nem todos o conseguiram já atravessar. Uma guerra que muitos pretendem ocultar, calando-se como num quase pacto de silêncio, calando sentimentos e experiências, para além da permanente <em>vulgata</em> habitual, mergulhados num banho de acusações, suspeitos disto e daquilo.</p>



<p>Talvez por isso os antigos combatentes experimentem um sentimento de culpa generalizada, uma espécie de pecado original de toda uma geração que começa a desaparecer e ainda procura um sentido para aquele tempo, que não seja apenas o da perda absurda. Será esta razão que inibe os veteranos de usar o distintivo concedido pelo Ministério da Defesa, exprimindo o <em>Reconhecimento da Nação</em>? Porque se consideram culpados? Porque os fizeram sentir culpados? Numa época de anacrónicos revisionismos históricos – e é preciso não esquecer o quanto o uso da História ao serviço de Política é perigoso, por ser sugestivo e muito eficiente… – não chamou aos militares de então uma conhecida jornalista nossa contemporânea <em>a soldadesca</em>, palavra desde logo odiosa? Afinal, quem fez o 25 de Abril?</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-full"><img decoding="async" width="538" height="389" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/08/antigo-combatente.png" alt="" class="wp-image-43804" srcset="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/08/antigo-combatente.png 538w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/08/antigo-combatente-300x217.png 300w" sizes="(max-width: 538px) 100vw, 538px" /><figcaption class="wp-element-caption">A insígnia identificadora de <em>Antigo Combatente</em></figcaption></figure></div>


<p>Envelhecemos, os almoços de confraternização vão rareando e, na busca de um sentido para o que sucedeu, erramos num <em>deserto vermelho</em>, sem rumo garantido para tanta memória contraditória. Consideramos que não vivemos esses anos e que os perdemos para sempre, de todas as formas? Como hei-de terminar este escrito? Que esperança invocar para que este Verão, já adiantado, de sombras alongadas, seja aquela estação impossível de penumbras frescas em quartos velados e de insuspeitos hinos ao Sol e não a busca insensata do perdido? Afinal, não será a vida uma procura constante de nós próprios, sacrificados à identidade do que pensamos ser?</p>



<p>As comédias de Verão preenchem as salas quase vazias dos cinemas, o calor aperta, as guerras continuam, toda a gente finge a felicidade garantida por mais uma aquisição supérflua ou apenas por um gelado apetitoso, com sabor exótico, como deve ser agora. Quanto ao mais, os <em>desertos vermelhos </em>continuam por aí, individuais ou colectivos, de braço dado com o tempo passado, que já foi futuro. E ardem as árvores, que também já o foram, ontem.</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="576" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/08/fogos-capa-1024x576.png" alt="" class="wp-image-43616" srcset="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/08/fogos-capa-1024x576.png 1024w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/08/fogos-capa-300x169.png 300w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/08/fogos-capa-768x432.png 768w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/08/fogos-capa-1536x864.png 1536w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/08/fogos-capa-696x392.png 696w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/08/fogos-capa-1392x783.png 1392w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/08/fogos-capa-1068x601.png 1068w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/08/fogos-capa-1320x743.png 1320w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/08/fogos-capa.png 1920w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption">Incêndio florestal algures em Portugal</figcaption></figure></div><p>O conteúdo <a href="https://duaslinhas.pt/2025/08/os-desertos-vermelhos/">OS DESERTOS VERMELHOS</a> aparece primeiro em <a href="https://duaslinhas.pt">Duas Linhas</a>.</p>
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