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	<title>Arquivo de fogaças - Duas Linhas</title>
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		<title>FOGAÇAS, O PÃO COMO OFERENDA RITUAL</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Alberto Correia]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 26 Nov 2024 16:34:32 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cultura]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O prolixo abade de Cepões, freguesia do concelho de Viseu, Carlos da Fonseca Pereira – que, em 1758, responde ao “Inquérito” do Ministro do Rei, depois compilado com o título de Memórias Paroquiais – ao descrever, como se lhe ordenava, as ermidas e romarias e quem a elas concorria diz &#8220;Que no dia da Santa [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>O prolixo abade de Cepões, freguesia do concelho de Viseu, Carlos da Fonseca Pereira – que, em 1758, responde ao “Inquérito” do Ministro do Rei, depois compilado com o título de <em>Memórias Paroquiais</em> – ao descrever, como se lhe ordenava, as ermidas e romarias e quem a elas concorria diz</p>



<p>&#8220;<em>Que no dia da Santa [Santa Eufémia de Matos] acode a esta capella muita gente em romaje, e com fogaças por ofertas e devoções particulares&#8221;<a id="_ftnref1" href="#_ftn1"><strong>[1]</strong></a></em>.</p>



<p>Nada esclarece, todavia, acerca da natureza da fogaça, que tanto poderia ser um pão especial fabricado no lugar como o quantitativo de cereal ajustado pela tradição. Em qualquer dos casos, ex-voto, uma gratulatória presença junto dessa medianeira do Divino, Santa Eufémia.</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-full is-resized"><img decoding="async" src="https://i.imgur.com/KGpNDWL.png" alt="" class="wp-image-38270" style="width:802px;height:auto"/></figure></div>


<p>Ocasional indagação junto da Ex.ma Senhora D. Maria Augusta de Jesus Santos, natural e residente em Cepões, 69 anos acabados de fazer, permitiu constatar a permanência dessa velha tradição do oferecimento de fogaças a Santa Eufémia no dia da sua festa, 16 de Setembro.</p>



<p>Ela própria conta que, menina de seis ou sete anos, com o vestido branco ornado com o longo cordão de oiro da família que o pai, nesse dia, lhe ofereceu e eu vi agora repartido ao pescoço de suas filhas, ali foi de “fogaceira”, transportando à cabeça, na procissão, um leve cestinho de vimes ou canas, enfeitado com fitas coloridas. Lá dentro já não recorda o que levava, punhados de milho, talvez, com que seu pai, já viúvo à data, pagava à Santa, um qualquer “milagre” que fizera à sua menina.</p>



<p>Perdeu-se em Cepões, há alguns anos, esta tradição, substituída agora a fogaça pela menos brilhante “mortalha”, uma longa vestimenta com capuz que homens e mulheres envergam na demorada procissão, pagando à Santa, dessa forma menos poética, a mercê solicitada e concedida.</p>



<p>Uma anterior informação, obtida junto de D. Irene Nunes Almeida, natural e residente em Sernada, Santos Evos, actualmente com 90 anos, e junto de D. Maria Nunes Abreu, natural e residente em Santos Evos, permitiu constatar a permanência de uma tradição ex-votista em Santos Evos, com o oferecimento de “fogaças” à Senhora do Rosário. na sua festa do primeiro Domingo de Outubro.</p>



<p>Neste quadro, a fogaça destina-se a agradecer à Virgem uma graça previamente solicitada e concedida e, se inicialmente se constituiu como uma oferta de cereal, o milho, entregue aos mordomos no dia da festa e depois “arrematado” em leilão, cedo evoluiu para a entrega do mesmo cereal dentro de um cestinho que se armava com laços e fitas, depois transportado pela ofertante, que recebe agora o nome de “fogaceira”, durante a procissão.</p>



<p>Actualmente ainda tal acontece. Todavia, num quadro festivo e ritual, os quatro mordomos da festa anualmente nomeados fazem acompanhar a procissão por quatro crianças do sexo feminino, cujos vestidos brancos se adornam com os cordões de ouro da família, que transportam na procissão os cestinhos rituais encomendados a habilidoso artesão da vizinha freguesia de Fragosela com larga tradição na construção das emblemáticas flores de papel de venda em romaria.</p>



<p>Teria sido assim, em Cepões, já no século XVIII.</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-full is-resized"><img decoding="async" src="https://i.imgur.com/3PlYD3r.png" alt="" class="wp-image-38268" style="width:820px;height:auto"/></figure></div>


<p>Manuel Fonseca da Gama na sua monografia <em>Terras do Alto Paiva,</em> publicada em 1940, ao referir-se aos “Costumes regionais” do actual concelho de Vila Nova de Paiva, descreve uma semelhante prática, a das &#8220;<em>fogaças que rapariguinhas levavam à cabeça, açafatinhos de verga sobre os quais se armava uma espécie de dobadoira, cujos braços se ligavam por uma infinidade de fitinhas de seda multicolor com predomínio do vermelho e amarelo&#8221;<a id="_ftnref2" href="#_ftn2"><strong>[2]</strong></a></em>. Lá dentro continha-se um <em>çormim </em>[nome vulgar de selamim – um oitavo do alqueire]de trigo.</p>



<p>Frei Joaquim de Santa Rosa de Viterbo (1744-1822) refere, em seu <em>Elucidário,</em> as fogaças como prática votiva e acrescenta um pessoalíssimo comentário:</p>



<p>&#8220;<em>Poderia ser inocente e devota esta acção, quando meninas sem dolo e de poucos anos, singelamente as ofereciam; mas hoje que o desgarro e vaidade nos vestidos, a desordem dos costumes, e a formusura culpada e petulante fazem todo o fundo daquela cerimónia, porque não seria ela inteiramente abandonada por gente sisuda e portuguesa?&#8221;<a id="_ftnref3" href="#_ftn3"><strong>[3]</strong></a></em></p>



<p>Mas ainda bem que não o foi em Santos Evos!&#8230;</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-full"><img decoding="async" src="https://i.imgur.com/5rgXmMi.jpeg" alt="" class="wp-image-38267"/></figure></div>


<hr class="wp-block-separator has-alpha-channel-opacity"/>



<p><sub><a id="_ftn1" href="#_ftnref1">[1]</a>  OLIVEIRA, João Nunes de, <em>Notícias e Memórias Paroquiais Setecentistas. 1 Viseu, </em>Palimage, Viseu, 2005, p. 82.</sub></p>



<p><sub><a id="_ftn2" href="#_ftnref2">[2]</a> GAMA, Manuel Fonseca da, <em>Terras do Alto Paiva, Memória histórico-geográfica e etnográfica do Concelho de Vila Nova de Paiva</em>, Câmara Municipal de Vila Nova de Paiva, reedição de 2004, p. 302.</sub></p>



<p><sub><a id="_ftn3" href="#_ftnref3">[3]</a> VITERBO, Frei Joaquim de Santa Rosa de, <em>Elucidário das palavras e termos…</em>, vol. II, B-Z, Livraria Civilização, Porto – Lisboa, edição crítica por Mário Fiúza, 1966, pp. 275-276.</sub></p>



<p></p>
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