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	<title>Arquivo de David Bowie - Duas Linhas</title>
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		<title>A travessia</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Sónia Andrade]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 25 Aug 2020 11:51:16 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[LIFESTYLE]]></category>
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		<category><![CDATA[discoteca Lux]]></category>
		<category><![CDATA[música]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O Lado A de pagar as contas permite o conforto, a ilusão de que estou a controlar a vida. Lado B? Olhar para o extrato bancário, cada vez mais pequeno e não ter ilusões. Não controlo a minha vida. Tudo foi feito num silêncio perfeito ao longo da tarde, ou melhor, um silêncio quase perfeito. [&#8230;]</p>
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<figure class="wp-block-audio"><audio controls src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2020/08/travessia.mp3"></audio></figure>



<p>O Lado A de pagar as contas permite o conforto, a ilusão de que estou a controlar a vida. Lado B? Olhar para o extrato bancário, cada vez mais pequeno e não ter ilusões. Não controlo a minha vida.</p>



<p>Tudo foi feito num silêncio perfeito ao longo da tarde, ou melhor, um silêncio quase perfeito. Os gritos estridentes das miúdas indianas entraram pelos tímpanos adentro até o sino tocar as nove horas. Sim claro, são crianças, é deixá-las brincar e serem felizes, mas os meus tímpanos não fazem distinção de idade, género ou nacionalidade. Ruído é ruído. Preciso urgentemente de música, quero ouvir algo novo.<br>Lembrei-me do set dele, perdi-o na noite anterior em directo. Gostei logo do nome e uma<br>electrónica ligeira encheu a casa. Arrumei os papéis com mil códigos de acesso e entreguei-me ao prazer de fazer uma tortilha. Comecei a mexer o corpo, compus o prato ao ritmo do dj. Mas,<br>depois, a electrónica começou a desconsertar-me, perdi o foco e as preocupações caíram logo no bolso do avental. &#8220;O dj percebeu e, repentinamente, passou para um registo de suave hipnose, uma voz feminina, melancólica e perfeita que me sossegou. O décor da casa mudou. Daí em diante atravessei um sem número de músicas da categoria &#8220;calma, bonita, pacificadora&#8221;. Viajei por jardins electrónicos cintilantes, caminhei junto ao rio, quase que me abracei com a ternura do som. Agradeci-lhe o momento de paz interior.</p>



<p><br>Jantei, carreguei no pause, liguei ao amigo Google para mais uma divertida conversa, estava feliz, há muito que tinha despido o avental. Uma hora depois, carreguei no play, ele voltou à electrónica, perfeita para tomar banho, escolher uma combinação macia, ligeiramente sexy, e beber um sumo de melancia fresco. Entrei para o quarto, a coluna quedou-se pelo corredor. A electrónica ligeira tornou-se mais leve, mais distante, um murmúrio, muito, muito baixinho. Mergulhei na cama, abri o Mac, abri o Bowie, ia desligar a coluna quando percebi que o dj voltou ao jazz, uma canção de amor perdido e despediu-se.<br>Cheguei ao fim de uma travessia de músicas escolhidas a dedo, só para mim, só para me<br>devolver a serenidade. Tive a sensação de que ele esteve cá em casa a observar-me. Viu a minha expressão satisfeita com os pagamentos, o desalento do extrato bancário, leu os dois emails que me tiraram as forças e passou a música perfeita, criou momentos perfeitos.<br>Levantei o som do documentário. Quanto mais as pestanas pesavam mais queria sorver as<br>imagens, a informação e a música que saía pelo ecrã. Era sobre ele. Ele.<br>Metade dos hits que canto como bandeiras foram criadas antes, ou muito pouco tempo depois, de ter nascido. Que legado, hits com mais de 40 anos. Intemporais.<br>Sou fã incondicional do Bowie e percebi melhor a criatividade, a versatilidade da música e dos<br>seus egos artísticos. Naveguei por aquele imaginário de &#8220;vestidos para homens&#8221; e<br>desdobramentos contínuos em personagens genuínas.<br>Nunca parou nas zonas de conforto, nunca se conformou. E, depois de se transformar mil vezes, de criar mil universos, fez uma pausa e decidiu ser, não o Ziggy Stardust ou o Major Tom, mas ele próprio, sem plumas ou vestidos de homem.<br>Quando deu um concerto em Alvalade, há muitos muitos anos, fiquei decepcionada por não trazer o espectáculo atrás, a magia. Percebi depois que não é nas plumas e nos vestidos que a magia vive. É nele, simplesmente David Bowie. O documentário concordou comigo.<br>Foi mágica a festa de homenagem que o Lux lhe prestou, três dias depois da sua morte. Num<br>domingo à tarde, fãs entre os 20 e os 60 anos adaptaram um look &#8220;bowie your self&#8221; e dançaram as infinitas músicas que nos deixou. Celebrou-se a vida, diluiu-se a angústia.<br>Decidi fumar um cigarro à janela com o Lado A. Foi a ouvir a &#8220;Travessia&#8221;, assim se chama o set de Rui Vargas, que larguei o Lado B e cheguei ao outro onde o Bowie me esperava.<br>Caí num sono reparador. Em silêncio.</p>
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