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	<title>Arquivo de Comfortably Numb - Duas Linhas</title>
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		<title>O HOMEM QUE RECUSOU A REFORMA</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Carlos Narciso]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 27 Jul 2026 23:00:07 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>É um manifesto contra a indiferença</p>
<p>O conteúdo <a href="https://duaslinhas.pt/2026/07/o-homem-que-recusou-a-reforma/">O HOMEM QUE RECUSOU A REFORMA</a> aparece primeiro em <a href="https://duaslinhas.pt">Duas Linhas</a>.</p>
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<p>Há qualquer coisa de desconcertante em Roger Waters. Aos 82 anos, quando poderia viver confortavelmente da herança dos Pink Floyd, reaparece para reescrever <em>Comfortably Numb</em>, uma das canções mais emblemáticas do século XX. Não para a atualizar musicalmente, não para explorar a nostalgia de uma geração, mas para lhe dar uma nova vida política. Desta vez, a canção é dedicada ao povo palestiniano e à destruição de Gaza.</p>



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</div><figcaption class="wp-element-caption"><em><sup>vídeo</sup></em></figcaption></figure>



<p>Não deixa de ser um gesto curioso. A versão original, integrada em <em>The Wall</em> (1979), era uma viagem ao interior de um homem emocionalmente anestesiado. A &#8220;dormência confortável&#8221; era uma metáfora para a alienação, para o trauma, para o isolamento de quem já não consegue sentir plenamente o mundo à sua volta.</p>



<p>Na nova versão, a anestesia muda de destinatário. Já não é um indivíduo que perdeu a capacidade de sentir. É uma sociedade inteira que parece habituar-se às imagens da guerra, aos escombros, às crianças mortas, aos hospitais destruídos e à normalização do horror. A insensibilidade deixa de ser psicológica para se tornar moral.</p>



<p>É uma inversão forte. Em 1979, a pergunta era: &#8220;Como é que um homem chega a este estado?&#8221; Em 2026, a pergunta é: &#8220;Como é que nós chegámos a este estado?&#8221; A intenção de Waters é clara: impedir que a repetição das imagens produza indiferença. Recordar que a capacidade humana de se habituar ao sofrimento alheio pode ser uma das mais perigosas formas de anestesia coletiva.</p>



<p>Mas também é interessante tentarmos perceber o que leva um octogenário recusar a tranquilidade da reforma para continuar a meter-se em batalhas que dividem a opinião pública e lhe garantem mais críticas do que aplausos? A resposta não está no dinheiro. Nem na fama. Nada disso é preocupação para um homem com a carreira feita há muito tempo.</p>



<p>Há pessoas para quem a arte nunca foi um lugar de conforto. Sempre foi um lugar de combate. Quem se lembrar de outras músicas de Roger Waters talvez perceba que o músico sempre fez da música um instrumento de confronto com a guerra, o poder, a propaganda e os mecanismos de manipulação. Há nisto uma coerência rara num artista que, mais de cinquenta anos depois, continua a correr riscos para defender aquilo em que acredita.</p>



<p>Na verdade, para além de coragem e coerência, a idade deu-lhe também essa liberdade. Quando já não existe uma carreira para proteger, uma editora para agradar ou um mercado para conquistar, desaparece também uma parte significativa do medo. A proximidade do fim da vida não leva necessariamente à resignação. Em alguns casos, produz exatamente o contrário: a urgência de dizer aquilo que sempre se considerou essencial.</p>



<p>Há quem procure paz. Outros procuram sentido. E há pessoas que nunca se reformam daquilo que são. Um professor continua a ensinar, mesmo sem sala de aula. Um cientista continua a fazer perguntas. Um escritor continua a escrever. Um músico continua a compor. Gente que teima em tentar mudar o mundo e que nunca se reconheceriam no espelho se deixassem de tentar.</p>



<p>A nova <em>Comfortably Numb</em> acaba por ser mais do que uma canção sobre Gaza. É um manifesto contra a indiferença. Neste tempo em que a informação circula à velocidade da luz e a emoção dura apenas alguns segundos, o maior risco não é a violência. É habituarmo-nos a ela.</p>



<p>Roger Waters parece acreditar que o pior destino não é sentir demasiado. É deixarmos de sentir. E essa continua a ser, quase meio século depois, a verdadeira mensagem de <em>Comfortably Numb</em>.</p>


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<figure class="aligncenter size-large"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="1024" height="577" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/07/roger-water-com-mona-miari-no-estudio-1024x577.png" alt="" class="wp-image-50530" srcset="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/07/roger-water-com-mona-miari-no-estudio-1024x577.png 1024w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/07/roger-water-com-mona-miari-no-estudio-300x169.png 300w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/07/roger-water-com-mona-miari-no-estudio-768x432.png 768w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/07/roger-water-com-mona-miari-no-estudio-1536x865.png 1536w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/07/roger-water-com-mona-miari-no-estudio-696x392.png 696w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/07/roger-water-com-mona-miari-no-estudio-1392x784.png 1392w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/07/roger-water-com-mona-miari-no-estudio-1068x601.png 1068w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/07/roger-water-com-mona-miari-no-estudio-1320x743.png 1320w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/07/roger-water-com-mona-miari-no-estudio.png 1918w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption">Roger Waters com a cantora palestiniana Mona Miari (fotograma do videoclip)</figcaption></figure></div><p>O conteúdo <a href="https://duaslinhas.pt/2026/07/o-homem-que-recusou-a-reforma/">O HOMEM QUE RECUSOU A REFORMA</a> aparece primeiro em <a href="https://duaslinhas.pt">Duas Linhas</a>.</p>
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