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	<title>Arquivo de alimentação saudável - Duas Linhas</title>
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		<title>PÃO COM MEL…</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Helena Ventura Pereira]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 28 Jan 2023 10:59:38 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Afinal tudo isso deve estar nesta fatia de pão barrada com manteiga e mel, daquele queainda cristaliza. Robusto, sem o sofrimento da centrifugação.O pão também não é de uma mistura qualquer. Trigo do bom, sovado, crescido sob oefeito do fermento natural, ou massa-mãe. Cozido entre tijolos latejantes num forno delenha, para os lados de Alfarim.É [&#8230;]</p>
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<p><br>Afinal tudo isso deve estar nesta fatia de pão barrada com manteiga e mel, daquele que<br>ainda cristaliza. Robusto, sem o sofrimento da centrifugação.<br>O pão também não é de uma mistura qualquer. Trigo do bom, sovado, crescido sob o<br>efeito do fermento natural, ou massa-mãe. Cozido entre tijolos latejantes num forno de<br>lenha, para os lados de Alfarim.<br>É vendido na praça de Sesimbra. Comida a côdea mais estaladiça, só por gula, é cortado<br>em fatias que os intervalos do trabalho demandam, por gula igual.<br>A manteiga é dos Açores. Amarela, intensa, perfumada. Sai uma torrada da torradeira, e<br>só pede aquela frescura de uma noz de manteiga açoriana a verter umas lágrimas<br>salgadas.</p>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<p>Preciso de emagrecer, mas já lá vai o tempo das dietas. Que mal pode fazer uma fatia de<br>pão torrada, umas nozes de manteiga, uma colherzinha de mel que não é centrifugado?<br>Se a noite me pede um vício inocente, só me lembro do pecado da gula por um chá,<br>acompanhado de uma torrada com manteiga e mel. Dantes nem me atraía a espessura,<br>agora olho para o boião de louça e não resisto ao perfume de rosmaninho.<br>Os créditos de tanto enlevo ficam por conta dos sonhos projectados por milhares de<br>pessoas nas tarefas diárias. Como se vender pão, ou mel, enriquecessem alguém! Mas há<br>uns insectos laboriosos, as abelhas, que fazem um trabalho eficiente e servem um estudo<br>cientificamente fiável da despoluição do ambiente em que se movem. Não lhes cabem<br>menos créditos.</p>
</div></div>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<p>Diz a padeira que gosta de amassar o pão bem cedo, pela madrugada, de janela aberta<br>para o quintal, quando os pássaros acordam e todos os desejos parecem realizáveis.<br>O aroma das laranjeiras, e mais intenso o de lúcia-lima, pedem para aromatizar um chá,<br>enquanto a massa leveda. Depois o pequeno-almoço, também ele cuidado com requintes<br>de quem aprecia uma vida saudável, uma boa refeição, ou precisa de suporte de energias<br>para trabalho sem pausas.<br>O que comem os portugueses de manhã… ainda só pão com manteiga para acompanhar a<br>bebida quente? Um café e um pastel de nata, em promoção habitual? E as calorias<br>necessárias para aguentar o dia e o trabalho dos neurónios?</p>
</div></div>



<p>Volto ao quintal da padeira de tamancos de andar na terra. Deixa que o gato entre para o<br>calor do borralho, apanha cebolas novas e tomates, às vezes uns pés de cebolinho e de<br>salsa e vai à capoeira espreitar se as garnisés já têm ovos. Se estiverem atrasadas não há<br>drama, é um alimento que nunca deixa acabar na despensa.<br>Depois prepara a frigideira maior, põe os ingredientes em camadas sobre um fio de azeite<br>bom. E quando amolecidos, temperados com sal e pimenta, derrama sobre eles dois ou<br>três ovos até ficarem com a clara cozida e a gema ainda a escorrer.<br>Um café…um chá…um copo de leite quente? Às vezes até um sumo de laranja. Tudo<br>depende da época e da vontade daquele dia, que a importância do ritual da primeira<br>refeição, está na variedade e frescura dos alimentos.<br>“Devia ser nutricionista” &#8211; digo-lhe, enquanto me escolhe o pão e o vai armazenando num<br>saco enorme de papel &#8211; mas eu não tenho quintal”.<br>“Mas tem mel, ou pode procurar quem lho arranje. Uma fatia do meu pão só com uma<br>colher de mel, cura a maior parte das doenças que conheço. Penso nisso todos os dias,<br>enquanto a massa leveda até verter da gamela”.<br>Sabe de tudo. Di-lo com convicção.</p>



<p>E fala-me de varrer as cinzas e os gravetos para deixar o lastro do forno limpo, à espera<br>dos pães tendidos. Depois mostra-me a perfeição do lar de um dos que, ainda mornos, me<br>aquecem as mãos e o peito, onde encosto o saco tão recheado, que quase não vejo o<br>caminho.<br>Mas antecipo o cheiro do mel, lembro o voo das abelhas no dia em que uma me picou<br>junto a um cortiço já velho, acabando por morrer.<br>Mau sangue, o meu? Não…Leiam o livro magnífico de Maurice Maeterlinck, o belga que foi<br>Nobel de Literatura em 1911 e percebam o que importa.</p>



<figure class="wp-block-image size-full"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="1920" height="1080" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2023/01/a-vida-das-abelhas.jpg" alt="" class="wp-image-24098"/><figcaption class="wp-element-caption">Maurice Maeterlinck, dramaturgo, poeta e ensaísta (1862 &#8211; 1949)</figcaption></figure>
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