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	<title>Arquivo de CONVERSAS COM PESSOA - AS MÁSCARAS DO RIO E DO TEMPO - Duas Linhas</title>
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	<title>Arquivo de CONVERSAS COM PESSOA - AS MÁSCARAS DO RIO E DO TEMPO - Duas Linhas</title>
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		<title>O PREÇO DE ESTAR ACORDADO</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Jaime Redo]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 02 Oct 2026 14:00:04 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[CONVERSAS COM PESSOA - AS MÁSCARAS DO RIO E DO TEMPO]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O desassossego não é uma doença</p>
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<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<p>O poeta olhou para o fundo da chávena. A borra do café colada à porcelana desenhava labirintos parecidos com as ruas da Baixa. </p>



<p>&#8211; O desassossego não é uma doença, Joaquim (disse ele, por fim).</p>



<p>&#8211; É o preço de se estar acordado. O imposto que a alma paga por não se deixar adormecer no conforto da burguesia.</p>



<p>&#8211; Meu caro Joaquim… (Pessoa sorriu com o canto da boca). </p>



<p>&#8211; Mentir ao que sentimos é o primeiro passo para sermos verdadeiros. O teu erro é a ingenuidade. Achas mesmo que existe aí dentro um &#8220;eu&#8221; sólido? Uma rocha a quem deves lealdade? (O poeta fez uma pausa, olhando para as pessoas que passavam lá fora) </p>



<p>&#8211; Julgas-te um traidor só porque não bates certo com a tua própria emoção? Disparate. Ser fiel a um único sentimento é uma paralisia. Chamas-te a ti mesmo um pecado? Eu diria que és apenas vários homens que ainda não se conhecem. Somos muitos, Joaquim. O tipo que acorda de manhã não é o mesmo que pede o café agora. E nenhum deles tem de prestar contas ao gajo que se vai deitar logo à noite. A moral quis prender este rio numa certidão de nascimento. Querem transformar a água numa estrada de pedra. Esquecem-se de que a virtude da água é correr. É não parar.</p>
</div></div>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<p>Joaquim ouviu-o em silêncio. Aquilo soava a uma sentença antiga. Uma verdade que ele já conhecia, mas cuja execução vinha a adiar. Encostou os dedos ao mármore frio da mesa, tentando prender-se à realidade da pedra. Uma parte de si queria ceder àquela conversa de Pessoa. Queria o alívio de aceitar que ser incoerente era normal. Mas outra parte &#8211; aquela teimosia tipicamente nossa &#8211; exigia uma âncora. Alguma coisa que justificasse a dor. </p>



<p>&#8211; Mas eu sinto que isto não faz sentido nenhum! &#8211; atirou Joaquim (a voz saiu-lhe alta demais, partindo a calmaria do café).</p>



<p>&#8211; É a cabeça, Fernando. É isto. (Joaquim apontou para a própria têmpora, com os dedos a tremer ligeiramente)</p>



<p> &#8211; Dou por mim a vigiar o que penso. O tempo todo. É aí que me perco. Não sei simplesmente&#8230; estar. Olho para o Tejo e não vejo água nenhuma. Vejo o tempo a fugir, a minha juventude que já era, aquelas caravelas que nunca mais voltam. Sei lá. Tudo serve de pretexto para a cabeça moer.</p>
</div></div>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<p>Calou-se. Passou a palma da mão pela testa, limpando um suor frio. Lá fora, o elétrico rangeu nos carris da Baixa.</p>



<p>&#8211; Eu esqueço-me de quem sou. Acho que é do meu carácter, sei lá. Invento um boneco para enfrentar a rua. Mudo a voz, empertigo as costas. Mas sei o truque. Sei perfeitamente que a pose é um biombo de papelão à frente do abismo. E o que me lixa não é a máscara, Fernando. É saber que a tenho posta. A cada segundo. Saber que, se a arrancar&#8230; não fica lá nada. Nem pele, nem carne. Só escuro. Uma noite sem fim.</p>



<p>Pessoa não respondeu logo. Inclinou a cabeça e a luz baça da janela bateu de lado nos óculos, transformando os olhos dele em dois espelhos brancos. Deixou o cigarro arder. O fumo subia torto, pesado, a meter-se entre os dois. Parecia que o próprio desassossego tinha ganho corpo ali em cima do mármore. </p>



<p>&#8211; Precisamente! &#8211; atirou Pessoa, quase num baque.</p>



<p>&#8211; O carácter é só a máscara que usamos para esquecer que não temos rosto nenhum. Se não nos esquecêssemos de quem somos, se ficássemos ali, cara a cara com a nossa falta de substância&#8230; como é que suportávamos o tédio de ser uma coisa só? A consciência é uma lucidez que cega, Joaquim. Quem olha demasiado para as engrenagens do próprio corpo acaba por encravar a máquina.</p>
</div></div>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<p>O poeta bateu com a ponta do cigarro no cinzeiro. </p>



<p>&#8211; É a dúvida que move as coisas, não é a fé. A fé é a pedra que fecha o túmulo do pensamento. A dúvida é outra coisa: é o vento que limpa o céu das certezas. Obriga-te a navegar, mesmo que o destino seja ires-te abaixo na bruma. Não fujas do abismo. Aprende a decorar as paredes dele. Mapeia as correntes de ar. Transforma-o num salão onde os teus fantasmas possam dançar sem a obrigação de mostrarem o bilhete de identidade.</p>
</div></div>



<p><sub>(continua)</sub></p>
</div></div>



<p></p>
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		<title>O CAFÉ E AS AURÉOLAS DE GALÁXIAS</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Jaime Redo]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 29 Sep 2026 23:00:52 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[CONVERSAS COM PESSOA - AS MÁSCARAS DO RIO E DO TEMPO]]></category>
		<category><![CDATA[Cultura]]></category>
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		<category><![CDATA[Sem categoria]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>as marcas redondas das chávenas pareciam auréolas de galáxias que já morreram</p>
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<p>À sua volta, Lisboa acontecia. O casario subia as colinas num amontoado de cal e pedra, mas para ele eram só formas sem sentido. O café era um recanto escuro. Quase uma trincheira contra a luz agressiva da tarde lisboeta. Ali dentro, o tempo parecia não avançar. Gelo. A atmosfera estava impregnada: tabaco velho, o frio do mármore e aquele cheiro a papel antigo dos livros que ambos traziam escondidos nos casacos.</p>



<p>Olhou para baixo. No mármore riscado da mesa, as marcas redondas das chávenas pareciam auréolas de galáxias que já morreram. Fantasmas de outros homens que se tinham sentado exatamente ali, a olhar para as mesmas janelas, a sentir o mesmo nó cego na alma. Depois, fixou-se nas mãos. Estendidas em cima da mesa, as unhas gastas. Pareciam-lhe estranhas, longe, como se pertencessem ao corpo de outra pessoa. Um manequim que continuava a mexer-se, em piloto automático, cumprindo os rituais exigidos para parecer um homem normal.</p>
</div></div>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<p>&#8211; Sinto-me estranho, Fernando. Uma coisa esquisita.</p>



<p>Joaquim confessou-o de cabeça baixa. Tinha a voz gasta de quem passou o dia a fingir, a engolir as mentiras normais do convívio social. Ali, naquela tarde suspensa sobre o Tejo, decidiu deitar as armas ao chão. Admitiu a sua maior derrota: andava a mentir ao tipo que vivia dentro dele. Não sentia o que era suposto sentir. No fundo, a sua própria existência parecia um erro. Havia um abismo entre o homem que ele achava que era e aquele que saía à rua todos os dias. Joaquim sentia-se um mero espectador. Um intruso na sua própria vida. E o pior é que isto não era de agora. Vinha de trás.</p>



<p>Desde miúdo que percebera o truque: moldava a voz a quem o ouvia e afinava o riso conforme a expectativa dos outros. O problema era quando ficava sozinho. Nessas alturas, não sobrava nada. Apenas um vazio enorme que a cabeça tentava preencher, sem sucesso.</p>



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</div></div>



<p></p>
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